Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marcelo Carvalho da Silva (UTP)

Minicurrículo

    Marcelo Carvalho é vice-coordenador e professor adjunto do PPGCOM/UTP. Membro da Rede de Pesquisa Teoria de Cineastas. Membro da Unidade de Investigação em Artes CineMAtiC da Universidade da Beira Interior (UBI, Covilhã, Portugal). Líder do Grupo de Pesquisa Kinosfera (PPGCOM/UTP, CNPq). Doutor pelo PPGCOM/ECO-UFRJ, com estágio doutoral na Université Sorbonne Nouvelle-Paris 3. Especialista em Arte e Filosofia pela PUC-Rio. Graduado em Comunicação Social (em Cinema e em Jornalismo) pela UFF.

Ficha do Trabalho

Título

    Cineastas et fuzis: impasses ético-políticos em Ici et Ailleurs (1976) de J-L Godard e A-M Miéville

Seminário

    Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema

Resumo

    O objetivo desta proposta de comunicação é pensar a dimensão política das imagens cinematográficas tendo em vista as próprias imagens, escapando de uma leitura imediata, de cunho conteudístico. Neste sentido, o foco recai sobre o trabalho de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, realizadores de Ici et Ailleurs (1976). O filme oferece-nos a oportunidade para pensarmos alguns desafios ético-políticos enfrentados pelos cineastas durante a realização de uma obra de cunho político.

Resumo expandido

    O objetivo desta proposta de comunicação é o de pensar a dimensão política das imagens cinematográficas tendo em vista as próprias imagens, escapando de uma leitura mais imediata, de cunho conteudístico. Neste sentido, o foco recai sobre o trabalho de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, realizadores do filme Ici et Ailleurs (1976). Trata-se de um filme sobre um filme: Godard e Miéville se debruçam sobre as imagens do inacabado Victoire, filmado em 1970 por Godard e Jean-Pierre Gorin na Palestina com os combatentes fedayin. O caráter metalinguístico e reflexivo de Ici et Ailleurs oferece-nos a oportunidade para pensarmos alguns desafios ético-políticos enfrentados pelos cineastas durante a realização de uma obra de cunho político.

    O primeiro desafio poderia ser enunciado por uma inversão: em vez de levarmos em conta o contexto sociopolítico que permitiria classificar a imagem como de caráter político, voltamos a atenção para a estrutura lógica das ideias que presidiria um filme. Godard explicita em off que Victoire, o filme original, seria organizado segundo a visão ideológica e pré-estabelecida dos cineastas aplicada sobre o Oriente Médio, redundando numa fórmula que encadeia equações em uma igualdade contínua: a vontade do povo + a luta armada = a guerra do povo + o trabalho político = a educação do povo + a lógica do povo = a guerra popular prolongada até a vitória.

    Identificamos um segundo desafio nas relações interpessoais, isto é, na política imiscuída no jogo de poder estabelecido/captado durante a filmagem. Ici et Ailleurs é exemplar quanto a explicitar tanto quem detinha o poder de fala, quanto quem possuía prerrogativas de comando em Victoire. São questões de distância simbólica (a fala do dirigente do Fatah espacialmente distante do povo), hierárquicas (como nos comandos da voz autoritária do cineasta, ausente do plano, dados à mulher simpatizante da causa palestina) etc.

    Em consequência, haveria uma questão pedagógica no terceiro desafio: antes da tentativa de compreender os sentidos da imagem, o cineasta precisaria aprender a ver a imagem. Mas talvez já não sejamos mais capazes de verdadeiramente ver as imagens – e é o que Godard e Miéville denunciam nas ideias que norteariam Victoire. Justamente, os cineastas demonstram lucidez em Ici et Ailleurs sobre o acúmulo de imagens (ou melhor, de clichês superpostos) e de discursos ideológicos (ossificados em palavras de ordem e dirigismos midiáticos) que impactaram Victoire. O principal esforço em Ici et Ailleurs, um esforço iminentemente político, seria, assim, o de quebrar as ligações dos clichês, negando ser mais um instrumento ideológico de desagregação social.

    O quarto desafio, que engloba os anteriores, é a redescoberta da conexão imediata entre a dimensão política e a esfera da ética na imagem cinematográfica. Para além das causas políticas defendidas, o que conta aqui seria toda sorte de relações do cineasta. Político, assim, adquire o significado de postura, de ação, de decisão técnica (onde colocar a câmera, qual enquadramento, a duração do plano etc.) e de estabelecimento de unidades em meio às diferenças. É todo o contraste ressaltado por Godard e Miéville entre a família pequeno-burguesa francesa que assiste a guerra pela TV e as pessoas que vivem seu cotidiano violento na Palestina, entre o desempregado francês e os corpos dos combatentes. Ou ainda, quando Miéville questiona, em off, porque Godard e Gorin não se esforçaram para entender o destino fatal preconizado pelos próprios fedayin.

    Haveria uma supraconsciência ético-política em Ici et Ailleurs que traria à tona sentidos políticos para além das causas defendidas. Victoire, o filme jamais finalizado, traz um Godard militante, membro do Grupo Dziga Vertov ao lado de Gorin. Mas Ici et Ailleurs tem outra têmpera. O problema de Godard não são os fuzis, mas as imagens e os sons cinematográficos – mesmo quando ele fingia estar em outro lugar.

Bibliografia

    AQUI E ACOLÁ (Ici et ailleurs). Direção: Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville. França, Sonimage/Institut Nationalde l’Audiovisuel (INA), 1976, 53min, 35mm, cor.

    CARVALHO, Marcelo. “Cineastas e atos fílmicos”. In MELLO, Jamer Guterres de [et al.]. Processos de criação e reflexões teóricas no cinema [livro eletrônico]. São Paulo: Gênio Editorial, 2024.

    GUIMARÃES, César. Ici et ailleurs (Aqui e acolá). Portal Brasileiro de Cinema. Último acesso em 26.abr.2026

    GRAÇA, André Rui; BAGGIO, Eduardo Tulio; PENAFRIA, Manuela. Teoria dos cineastas: uma abordagem para a teoria do cinema. Revista Científica/FAP, Curitiba, v.12, p. 19-32, jan./jun. 2015.