Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rubens Luis Ribeiro Machado Júnior (CTR/ECA-USP)

Minicurrículo

    Rubens Machado Jr. ensina História, Análise e Crítica do Audiovisual no PPGMPA e CTR/ECA-USP, onde cria o grupo de pesquisa História da experimentação no cinema e na crítica. Curador dos projetos Marginália 70, Itaú Cultural, e Experimental Media in Latin America, L.A.Filmforum/Getty F. Escreveu e integrou editorias de Cine-Olho, L’Armateur, Infos Brésil, praga, Sinopse, Rebeca. Autor de Contribuições para uma história do cinema experimental brasileiro: momentos obscuros, desafio crítico (2020).

Ficha do Trabalho

Título

    Os fundamentos da análise fílmica e o declínio crítico do debate no campo audiovisual contemporâneo

Mesa

    A análise cinematográfica e audiovisual hoje: objetos, histórias, epistemologias

Resumo

    Apontou-se a crescente atenuação desde o pós-moderno na prática de certos fundamentos da análise de obras, evitando-se a aproximação comparativa exigente, o diagnóstico de significados sociais questionáveis, a ampliada exploração das formas de violência cada vez mais consentidas apelando aos baixos instintos do grande público em produtos caça-níquel, a fetichização da História na falta de complexidade em explorações de arcas perdidas reduzindo diferentes épocas às piores facetas do presente.

Resumo expandido

    De que adianta nos sentirmos contemporâneos como profissionais, se a nossa análise de uma obra audiovisual não o é? A verdadeira historicidade de nossas experiências estéticas ocorre não só coletiva ou socialmente, por exemplo enquanto diferentes públicos de um filme, como também enquanto experiência individual, por mais específica que ela possa ser considerada, deverá ser compreendida historicamente (Adorno, 2003, p. 26). Trate-se de uma obra audiovisual antiga, recente ou recentíssima, para tentarmos afinar a nossa “capacidade de estar à altura dessa exigência” desse mundo contemporâneo (Agamben, 2009, p. 57), é preciso revisar cada fundamento crítico da análise, tanto em sua particularidade, como na sua potencial integração ao conjunto das observações que soubemos fazer, desde a experiência de assistir a obra até às reflexões sobre ela. Pensamos aqui não somente no que possa ocorrer durante os debates coletivos, embora eles nos façam hoje mais falta que antes, mas sobretudo no tempo de reflexão das nossas particulares anotações, e depois da escrita de um texto, assim como de qualquer outro tipo de análise crítica mais elaborada, e atenta à sua dimensão contemporânea.
    A análise fílmica, ou audiovisual, quando realizada em perspectiva de crítica imanente, isto é, observando-se a experiência estética singular proposta pela obra analisada, começa pelo trabalho de:
    I, Descrever tal experiência (Análise Interna ou Formal), seguida pelas necessidades de
    II, Comentar a obra (Análise Externa) solicitadas pela Descrição feita anteriormente.
    III, Este derradeiro passo se faz sobre as possibilidades instauradas pelos passos anteriores de se propor Interpretações, interrogações sobre a obra analisada ou debates possíveis.
    Assim como os passos dados em cada fundamento afetam o seguinte, este em seguida poderá até requerer alguma revisão dos anteriores, em um movimento contínuo. Num roteiro de dúvidas e de certificações, as livres associações são de fato indispensáveis, como diria algum psicanalista. A possibilidade do pensamento crítico depende sobretudo de uma disposição voluntária de Repensar. Imaginemos então na sequência de fundamentos além de um trajeto circular que possa ser refeito: melhor que num Círculo, numa Espiral que nos permita avanços a cada ponto retomado, aprofundamentos e ascensões que se desenrolam num roteiro de cogitações — bem como outros trajetos entre os fundamentos (até fora deles) em direções livres, ligações óbvias ou inesperadas, fora-da-curva, em curtos-circuitos, estalos e lampejos, alguns inesperados, outros um tanto quanto óbvios.
    Na elaboração do seu trabalho o analista crítico deve, antes de mais nada, consultar-se a si próprio: rabiscar suas observações, desde as mais intuitivas, dentro de cada parâmetro encontrado a cada fundamento, seguindo um interesse suscitado pela obra na sensibilidade e no intelecto do analista, para em seguida poder revisá-las num segundo ciclo do trajeto, com reajustes, correções, desenvolvimentos e explicitações que esbocem as possibilidades ali contidas vis-à-vis do percurso completo de cogitações já feitas ou apenas delineadas. É preciso nos distribuirmos entre nossos arrojos que não querem calar e as nossas dúvidas ou ponderações mais distanciadas. O que nos ficou do filme, sua memorabilidade, deve ser o ponto de partida e presidir todo o agenciamento do que possa dali desdobrar-se. Toda reação inicial deve ser anotada pois deve fazer sentido num primeiro momento e pode ser depois preterida, incorporada ou recuperada com transformações na versão final da escrita. “Muitas vezes são sensações, impressões, que levam a insights, a uma certa luz que, de repente, muda tudo.” (Marcondes Filho, 2016, p. 13).

Bibliografia

    Adorno, T.W. “O ensaio como forma”, Notas de literatura I. (tr. J. Almeida) São Paulo: Ed.34, 2003.
    Adorno, T.W. Teoria Estética. (tr. A. Morão) 2ª ed.r. Lisboa: Ed.70, 2008.
    Aumont, Jacques. À quoi pensent les films. Paris: Séguier, 1996.
    Benjamin, Walter. “Sobre o conceito da história” [1940], Obras escolhidas v. 1. (tr. S. P. Rouanet, pr. J.-M. Gagnebin) São Paulo: Brasiliense, 1985.
    Agamben, Giorgio. O que é o contemporâneo?, e outros ensaios. (tr. V.N.Honesko) Chapecó, SC: Argos, 2009.
    Barthes, Roland. O Prazer do Texto. (tr. J. Guinsburg) São Paulo: Perspectiva, 1977.
    Candido, Antonio. O estudo analítico do poema. 4ª ed., São Paulo: Humanitas, 2004.
    Marcondes Filho, Ciro. “Sobre o tempo de incubação na vivência comunicacional”, Compós: Anais, Goiânia, 2016.
    Rochlitz, Rainer. Subversion et subvention: Art contemporain et argumentation esthétique. Paris: Gallimard, 1994.
    Xavier, Ismail; Gatti, José. “Arte é desafio, provocação” (entrevista), Rebeca, ano 3, ed.6, jul.-dez. 2014.