Ficha do Proponente
Proponente
- Luciano Galdino da Silva Júnior (UFPB)
Minicurrículo
- Luciano Galdino nasceu e cresceu em João Pessoa – PB. É graduado em Letras – Língua Portuguesa pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mestrando em Literatura pelo Programa de Pós-graduação em Letras na área de Estudos Africanos e Afro-brasileiros (PPGL/UFPB) e pós-graduando em Escrita Criativa pela Uniesp. Tem desenvolvido trabalhos no campo das Literaturas negro-brasileiras e investigado como essas produções literárias tem apresentado novos efeitos estéticos e outras perspectivas de mundo
Ficha do Trabalho
Título
- A AFETIVIDADE NEGRA FEMININA COMO PULSÃO DE VIDA EM “THE COLOR PURPLE”, DE BLITZ BAZAWULE
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- O presente trabalho tem como principal objetivo tecer uma análise fílmica a partir das relações afetivas femininas em “The color purple” (2023), de Blitz Bazawule, de modo que seja possível compreender como o fortalecimento entre as personagens negras gera uma pulsão de vida, criando um lugar de amor e afeto em meio às diversas violências que enfrentadas. Nesse sentido, a pesquisa terá como suporte teórico os estudos de Vilma Piedade (2017), hooks (2018, 2021, 2024) e Davis (2016, 2017).
Resumo expandido
- Em “The color purple” (2023), conhecemos a história de Celie, uma mulher negra do sul dos Estados Unidos no início do século XX. Violentada pelo padrasto, a jovem é forçada a se separar de seus filhos e de sua irmã ao ser dada como moeda de troca para Albert, um homem cruel e violento. No entanto, entre as dores, Celie encontra frestas e tece fios de liberdade e esperança através das mulheres que cruzam o seu caminho.
A adaptação dirigida por Bazawule ganha novos contornos com as performances musicais e os números de dança, conseguindo dramatizar cenas marcantes da obra literária de Walker, além de intensificar e fortalecer as relações afetivas entre as personagens femininas. Em suas vivências de dor e resistência, Celie, Netie, Sofia e Shug Avery se encontram e fazem brotar entre elas um profundo senso de alteridade, descobrindo, de forma consciente e inconsciente, que as dores e feridas que carregam podem ser curadas através da comunhão feminina.
É importante demarcar que essas dores dizem respeito não só ao fato dessas personagens serem mulheres, mas também ao fato de sofrem com as violências estruturantes do sistema racista. Diante disso, a Dororidade, conceito cunhado pela escritora e intelectual negra Vilma Piedade (2017), será utilizado como ponto de partida para compreendermos os atravessamentos que compõem e constroem as identidades das mulheres negras que perpassa por, sobretudo, três categorias: gênero, raça e classe, ou seja essa identidade é oprimida pelo sexismo, pelo racismo e pelo classismo. Desse modo, o conceito de Piedade será fundamental para contemplarmos as questões que atravessam os corpos das personagens negras da obra, visto que Celie, bem como suas irmãs de cor, vivem a intrínseca experiência de serem mulheres negras em uma sociedade extremamente racista, sexista e classista.
Em “Tudo sobre o amor: novas perspectivas” (2021), hooks debruça-se sobre o amor como ação política diária transformadora, nos apresentando questões fundamentais para a construção desta pesquisa. Para a autora, o amor é ação, é algo que não pode coexistir com comportamentos abusivos, humilhações, punições, violência e falta de afeto (hooks, 2021, p. 51). Por essa razão, Celie, protagonista da história, não encontra o amor em sua relação com o padrasto ou com o seu marido Albert Johnson, mas sim em suas relações com Netie, Shug Avery e Sofia. As relações entre Celie e essas mulheres negras não se limitam a uma afeição profunda, mas a uma prática cotidiana, impulsionada pela vontade consciente e pela intenção de construir algo sólido, alimentando o desenvolvimento pessoal e espiritual.
Nesse sentido, ainda que Celie vivencie sensações conflitantes e situações de violência, a todo instante durante a narrativa, esses acontecimentos não ofuscam os sentimentos positivos que permeiam a sua vida. A personagem mantém-se conectada a uma rede de afetos femininos que lhe proporciona força e acolhimento, permitindo que seus sonhos floresçam e sejam nutridos com muito carinho. Em sua volta há presenças que desempenham papéis fundamentais durante o seu crescimento, como Shug Avery e Sofia, que a faz olhar para si e ser capaz de enxergar que existe amor para além das durezas da vida.
Em “Mulheres, raça e classe” (2016), Angela Davis nos dá insumos para pensarmos nos imbricamentos sociais de ser uma mulher negra no contexto estadunidense, ambiente no qual as personagens da obra estão inseridas. Além disso, a autora nos oferece uma leitura interseccional e nos permite compreender as marcas e cicatrizes deixadas pelo sistema escravocrata que ainda opera sobre os corpos da população negra, perpassando a estrutura das relações de trabalho, sociais e raciais. Desse modo, o presente trabalho buscará compreender, à luz de intelectuais negras, como a afetividade entre as mulheres negras é importante para que as personagens femininas da narrativa fílmica possam superar as violências sofridas e construir outras possibilidades de futuro.
Bibliografia
- A COR PÚRPURA. Direção de Blitz Bazawule. Estados Unidos: Warner Bros., 2023. 1 Vídeo (2h21min.).
DAVIS, Angela. Mulheres, cultura e política. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boi Tempo, 2017.
DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Boitempo editorial, 2016.
PIEDADE, Vilma. Dororidade. São Paulo: Nós, 2017.
hooks, bell. Vivendo de Amor. Portal Geledés. São Paulo, 9 mar. 2010. Disponível em: . Acesso em: 02 set. 2024.
hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021.
WALKER, Alice. A cor púrpura.Tradução de Maria Clara Machado. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.