Ficha do Proponente
Proponente
- Mariana Porto de Queiroz (Unifor)
Minicurrículo
- Professora de Cinema e Audiovisual na UNIFOR. Doutora em Comunicação (UFPE), mestre em Artes Cênicas (UFBA) e graduada em Psicologia (UFC). Diretora, roteirista e montadora, com curtas exibidos no Brasil e exterior. Atua há 18 anos com ensino e pesquisa em audiovisual, focando jogos e práticas para desenvolvimento sócio-afetivo. Lidera grupo de pesquisa no CNPq e tem experiência em formação, TV, cinema e jogos educacionais.
Ficha do Trabalho
Título
- Usos mágicos do audiovisual
Resumo
- O texto analisa os “usos mágicos do audiovisual” em contextos educativos, a partir de experiências iniciadas na Escola Engenho (Recife) e ampliadas para outras formações. Defende o audiovisual não apenas como linguagem, mas como ferramenta de emancipação sensível e imaginativa, capaz de deslocar subjetividades e evitar a reprodução de modelos dominantes. Dialoga com perspectivas de descolonização cultural, propondo práticas pedagógicas baseadas em jogo, ritual e criação coletiva.
Resumo expandido
- Esta comunicação apresenta o percurso investigativo do que nomeei “usos mágicos do audiovisual” em ambientes formativos, surgido inicialmente no contexto de um projeto para criança e adolescentes na periferia de Recife, a Escola Engenho, e depois usado em diversos outras situações de ensino. No bojo de diversas iniciativas de formação audiovisual no Brasil nas duas primeiras decadas do século XXI, este projeto aconteceu entre 2011 e 2016, em meio à aprovação, em 2014, da lei do audiovisual nas escolas (nº 13.006/2014). O crescente reconhecimento da importancia da presença da cultura fílmica em ambientes de ensino e aprendizagem, tem levado mais pessoas a pensar sobre os objetivos pedagógicos desta inserção. Diante das transformações do mundo mediadas pela imagem, para que serve o audiovisual na escola?
A docência com o audiovisual me apresenta diariamente respostas distintas para estas perguntas. Apresentar a morfologia e sintaxe básica da linguagem audiovisual é evidentemente muito importante para ler o mundo hoje, a comunicação social acontece majoritariamente por esta midia, muito mais do que pela midia literária outrora. Mas produzir a emancipação sensível e imaginativa que penso ser uma tarefa da educação, me leva a observar outras competências em jogo no processo educacional.
A produção de vídeos hoje é uma das principais vias de circulação de capitais, financeiros e simbólicos. Como avaliar se aquele curso, aquele exercício, está produzindo uma relação emancipadora com o conhecimento? Que não está re-produzindo o mesmo conjunto de representações dominantes, tanto nas imagens quanto nas ideologias nelas embutidas? Considerando o lugar historicamente colonizado de onde produzimos, a América latina, que passa atualmente por um processo de neo-descolonização, para que tal descolonização seja efetiva é preciso pensá-la em termos não apenas econômicos e políticos, mas também culturais e epistemológicos.
Os usos aqui denominados “mágicos” enfatizam uma emancipação sensível e imaginativa usando o audiovisual como matéria-prima para deslocar o pensamentodo modo de subjetivação dominante. A investigação se apoia na ideia de que este engajamento específico da máquina cinema-escola é capaz de produzir transformações em aspectos sócio-afetivos das pessoas envolvidas pela força transindividual da brincadeira, feita de gestos performativos que induzem uma mudança qualitativa na natureza da situação. (Massumi, 2017)
Quando Muniz Sodré (2012), para pensar a reinvenção da educação, evoca “a possibilidade interna de outra instalação temporal”, ele nos convida a estabelecer outras relações com os saberes, no contexto deste artigo, com a linguagem audiovisual. Como nos apontam Fresquet (2013) e Ranciére (2007), a educação entendida como missão de redução das desigualdades entre os que sabem e os que tem que aprender, constitui uma leitura simplificada de seu objetivo principal, se subestimando a capacidade emocional e intelectual do sujeitos de se apropriar e produzir conhecimento.
O percurso teórico aqui desenhado para circunscrever o conceito de modo mágico passa por principios presentes nos escritos alquímicos (CARVALHO, 1995), na psicomagia (JODOROWSKY, 2009) e nas mitologias ameríndias (VIVEIROS DE CASTRO, 2013) e (ALBERT, KOPENAWA, 2015): o percurso de auto-conhecimento, a ritualização de processos e o não-protagonismo humano.
O que Walter Benjamin quer dizer quando afirma que “da educação das crianças deveriam se ocupar os artistas, colecionadores e mágicos” (2005)? Que tipo de competências estavam na mente do filósofo quando delega aos artistas e mágicos a tarefa de estar entre as crianças de uma sociedade?
Pretendo situar o gesto mágico do/a educador/a a partir da descrição de alguns destes jogos, contribuindo com as condições de visibilidade e dizibilidade deste campo sutil de inteligibilidade.
Bibliografia
- BENJAMIN, Walter. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo:
Duas Cidades; Ed. 34, 2002
CARVALHO, José Jorge de. Mutus liber: O livro mudo da alquimia /ensaio preliminar, comentários e notas Jose Jorge de Carvalho. São Paulo, Attar, 1995.
FRESQUET, Adriana. Cinema e educação: reflexões e experiências com professores e estudantes de educação básica, dentro e “fora” da escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
JODOROWSKY, Alejandro. Psicomagia. Tradução: Sueli Farah. São Paulo: Devir, 2009.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015
MASSUMI, Brian. O que os animais nos ensinam sobre política. São Paulo: n-1 edições, 2017.
RANCIERE, Jacques (2007). O mestre ignorante: Cinco lições sobre emancipação intelectual. Belo Horizonte: Autêntica
SODRÉ, Muniz. Reinventando a educação: diversidade, descolonização e redes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
VIVEIROS DE CASTRO, Edua