Ficha do Proponente
Proponente
- Miriam de Souza Rossini (UFRGS)
Minicurrículo
- Doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora titular da UFRGS, junto ao DECOM e ao PPGCOM. Coordenadora do ARTIS – Grupo de Pesquisa em Estética e Processos Audiovisuais. Membro da comissão editorial da Rebeca – revista Socine. E-mail: miriams.rossini@gmail.com.
Ficha do Trabalho
Título
- O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça: história, ditadura e os diálogos com o cinema marginal
Resumo
- Esta apresentação propõe aproximar o filme de Kleber Mendonça, O Agente Secreto (2025), da estética do cinema marginal brasileiro. Conforme Fernão Ramos (1987), ser marginal é estar à margem, conotação que perpassa as produções brasileiras, em função de suas condições financeiras e de infraestrutura. A estética marginal, no entanto, vai além do processo produtivo, encontrando-se com o narrativo (temáticas, personagens, organização narrativa) e da montagem. É esse debate que se pretende fazer.
Resumo expandido
- A apresentação propõe aproximar o filme de Kleber Mendonça, O Agente Secreto (2025), da estética do cinema marginal brasileiro. Conforme Fernão Ramos (1987), ser marginal é estar à margem, conotação que perpassa as produções brasileiras, em função de suas condições financeiras e de infraestrutura. A estética marginal, no entanto, vai além do processo produtivo, encontrando-se com o narrativo (temáticas, personagens, organização narrativa) e da montagem.
O filme de Mendonça é um projeto de coprodução internacional entre Brasil, França, Alemanha e Holanda, e custou mais de 28 milhões de reais, portanto não é, com certeza, um filme marginal pelo seu processo produtivo e de financiamento. Ao contrário, é um filme com as marcas do cinema globalizado, em que o diretor possui enorme capital simbólico para angariar parceiros e financiamentos, no Brasil e no exterior. Por isso mesmo pode ser indicado a quatro prêmios no Oscar de 2026, um prêmio da indústria estadunidense que cada vez mais tenta ser também global. Em março de 2026, a revista IstoÉ trouxe dados, mostrando como o filme atraiu público nos diversos países em que foi exibido. No Brasil, até aquela data, havia tido em torno de 2,36 milhões de público.
São esses dados que tornam interessante observar a estrutura narrativa do filme, que transborda para a sua estética visual e sonora. Há uma fragmentação narrativa que se aproxima quase de uma anarquia, e isso é uma das marcas do Cinema Marginal, conforme Ramos. Ao lado desse aspecto, há outros, específicos daquela estética como: as imagens do abjeto, do horror, da agressão, também presentes em O agente secreto.
Ramos contextualiza que, nos anos 1970, “todo o discurso em torno da experimentação do prazer, se choca com um fator novo condizente com a nossa realidade: o terror” (RAMOS, 1987, p. 36). Ou seja, a experiência com um período de ditadura – que normatiza a perseguição política e ideológica, a repressão, a tortura, a censura – não tem como não deixar marcas na estética de filmes produzidos no período, e os do Cinema Marginal levam a representação realmente ao limite, como propõe o autor em seu livro.
Se a ditadura civil-militar oficialmente encerrou em 1985, os seus traços na sociedade brasileira não deixam de ser sentidos até hoje. Então, resgatar os anos 1970 como forma de ler o presente em que o filme O agente secreto é feito, ao seja os anos 2020, é também resgatar a tensão e o medo daqueles tempos, e os desejos interrompidos, mas não calados completamente. Para fazer esse resgate, e olhar aquele passado, é que a estética do Cinema Marginal aparece como uma interlocutora, pois as marcas daqueles filmes testemunharam aquele terror. Conforme Ângela José (2007, p.160), “ao refazermos uma releitura do cinema marginal, revendo seus temas e seus personagens, como À margem, de Ozualdo Candeias, filme marco desta cinematografia, que mostrava prostitutas e caminhoneiros em esquisitas histórias de amor, vemos que esses filmes retratam o universo dos excluídos da sociedade brasileira, onde a violência e o absurdo fazem parte do cotidiano”. E são esses os aspectos que novamente ganham espaço em O Agente secreto.
São as mortes no meio da rua, os corpos expostos ao olhar indiferente de quem passa; as conversas sussurradas; o medo de dizer o próprio nome, para não comprometer a si mesmo e aos outros a sua volta. Para dar conta disso, a fragmentação é uma das principais estratégias narrativas do filme, contribuindo para uma anarquia que lembra algumas das passagens de O bandido da luz vermelha (1968, de Rogério Sganzerla), ao lado de personagens estereotipados, como o delegado. O clima da censura também ressurge nas matérias de jornais e de rádio, que abordam fatos absurdos, uma das estratégias jornalística do período para denunciar essa censura.
Desse modo, mais do que recriar os anos 1970, o filme recria a forma como aquele período foi visto por diferentes cineastas, tendo como uma de suas referências a anarquia narrativa.
Bibliografia
- JOSÉ, Ângela. Cinema marginal, a estética do grotesco e a globalização da miséria. ALCEU – v.8 – n.15 – p. 155 a 163 – jul./dez. 2007, p. 155-193.
RAMOS, Fernão. Cinema marginal (1968-1973): a representação em seu limite. São Paulo: Editora Brasiliense: EMBRAFILME/Ministério da Cultura, 1987.
REVISTA ISTOÉ. O Agente Secreto’: quanto custou, quanto teve de verba pública e quanto já arrecadou – ISTOÉ DINHEIRO. Disponível em: ‘O Agente Secreto’: quanto custou, quanto teve de verba pública e quanto já arrecadou – ISTOÉ DINHEIRO
ROSSINI, Miriam de Souza. O corpo da nação: imagens e imaginários no cinema brasileiro. Revista Famecos, n.34, Porto Alegre, dezembro de 2007.
ROSSINI, Miriam de Souza. Perspectivas dos filmes de reconstituição histórica no cinema brasileiro dos anos 70. Fênix. Revista de História e Estudos Culturais. Vol. 6, ano VI, n. 4, out-nov-dez, 2009.