Ficha do Proponente
Proponente
- Monica Rodrigues Klemz (UFF)
Minicurrículo
- Monica Klemz é cineasta. Mestre em Mídias Criativas ECO/UFRJ e doutoranda em cinema, com foco na imagem-espaço-fluxo-tempo, do ponto de vista cartográfico, na Universidade Federal Fluminense. Entre suas obras, Um Jardim Singular, melhor documentário em diversos festivais nacionais e internacionais. Realização, organização e curadoria da Galeria Heterotopias, 2020, em realidade virtual 360 e da Expo FIL – 20 anos de maravilhas: A cosmogonia das infâncias, em 2023.
Ficha do Trabalho
Título
- Beladona, o filme – uma contracartografia-arquipélago
Resumo
- O filme Beladona, de Alanté Kavaïté, 2025, aborda a alteração climática, o idadismo, e as atitudes críticas diante da governamentalidade. Este trabalho visa mostrar como a diretora trabalhou o espaço de forma geopoética, como uma forma de micro-resistência ao biopoder. Através de uma metodologia cartográfica, escalar, com uma abordagem relacional, pretende-se evidenciar como as práticas sociais e simbólicas de um lugar isolado, foram representadas através de uma estética natural e tecnopolítica.
Resumo expandido
- O filme Beladona (2025) é o terceiro longa-metragem da roteirista e cineasta Alanté Kavaïté. A origem lituana da diretora aparece de diversas formas na sua obra. Como por exemplo, o uso de uma cartografia sensorial em que as dimensões sensíveis se encontram amalgamadas nas dimensões inteligíveis, onde todos os sentidos são testados, como estudado pelo semiótico lituano Algirdas Julien Greimas. O tato aparece na massagem que o estrangeiro faz em uma das moradoras; a visão, na paisagem que a ilha oferece e suas mutações com as marés; o cheiro e o paladar, na comida preparada; a audição, na tempestade. A ilha, espaço escolhido pela diretora como uma heterotopia e também como um mini-mundo, espelha uma micro-resistência ao biopoder. O lugar, abriga uma comunidade de idosos refratária às ordens institucionais, de contenção de idosos, a partir dos 80 anos. Criam uma ilha-refúgio com suas próprias leis. A ilha acolhe, a cuidadora, uma jovem chefe de cozinha e sete idosos com habilidades artísticas entre homens e mulheres, que escondidos, não se relacionam com o continente. De forma semelhante, na Lituânia, na cidade de Vilnius, o bairro de Užupis, se autoproclama uma “República Independente” em 1997, fundada por artistas locais. Entre as frases da Constituição desse bairro, “Todo homem tem o direito de morrer, mas não é sua obrigação”, também é o tema do filme. Neste mesmo bairro, encontra-se uma escultura de bronze de uma sereia na margem do rio. No filme, a representação da sereia aparece na lula gigante, na beira da praia e na tatuagem que o estrangeiro navegador exibe no seu dorso. A Lituânia foi cristianizada em torno de 1387, e a diretora faz questão de colocar em cena rituais pagãos, de relação com a Natureza, fazendo uma contracartografia com o Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, de 1957, filme que também aborda o medo da morte, mas em um ambiente religioso da Idade Média. A caminhada/peregrinação do herói/heroína, os encontros, a condução realizada até uma parte do caminho por uma família, o picnic, a dança macabra no alto do monte, sumindo no horizonte, aparecem em ambos os filmes. Beladona é também um filme feminino contado a partir de uma personagem feminina e que expõe as vivências e experiências da diretora. O longa-metragem mostra a ilha e seus recursos naturais, tendo entre as suas plantas nativas a Atropa belladonna, que dá título ao filme. Atropa, derivada de Atropos, é a designação de uma das três Moiras, divindades da mitologia grega que controlavam os destinos dos mortais. Átropos, também chamada de A Inevitável, é a que corta o fio da vida. As alterações climáticas, em um futuro não muito distante, fizeram muitos espaços e populações sumirem. Os ilhéus têm contato com o continente quando ventos e correntes marítimas trazem o que jaz submerso para as suas margens, tanto resquícios de civilizações, como o lixo, como o que foi desenraizado, como as algas arribadas, com seu odor de decomposição. O idadismo surge como forma de controle de governos e instituições que acreditam que devem deixar viver, os seres humanos jovens e saudáveis, ativos economicamente. O grupo rebelde se instala na ilha, como uma prática de si, na procura de um envelhecimento qualitativo e morte digna. A atitude crítica diante de uma certa governamentalidade, passa também pelo suicídio assistido. Este trabalho visa mostrar como a diretora, utilizou o espaço de forma geopoética, evidenciando uma forma de micro-resistência ao biopoder. Através de uma metodologia cartográfica, onde são realizadas abordagens relacionais sobre a insularidade, a maritimidade e a ilheidade, pretende-se evidenciar, além das práticas sociais e simbólicas de um lugar isolado, o pensamento-arquipélago da diretora, seja na relação da estética natural com a da sua identidade lituana, seja na sua vivência com pessoas idosas, seja no contato com outras obras.
Bibliografia
- Bouvet, Rachel. Como habitar o mundo de maneira geopoética? Interfaces Brasil/Canadá – Revista Brasileira de Estudos Canadenses. V. 12, n.1, 2012.
Jameson, Frederic. The geopolitical aesthetic: cinema and space in the world system. Bloomington: Indiana Universitu Press, 1992.
Latour, Bruno. Diante de Gaia. Oito conferências sobre a Natureza no Antropoceno. São Paulo: Ubu Editora, Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial, 2020.
Mallmann, Maria; Ferreira, Marcello. O Envelhecimento na Interface Filosófica de Michel Foucault e Simone de Beauvoir: Governamentalidade, Biopolítica e Biopoder. Nursing Edição Brasileira. 31. 13222-13248, 2026.
Mesquita, André. Mapas dissidentes: contracartografia, poder e resistência. São Paulo: Humanitas; Fapesp, 2019.
Nold, Christian. Emotional cartography: technologies of the self. Welcome Trust, 2009.
Sperling, David. Cartografias críticas: ensaios tecnopolítico e geopoéticos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2025.