Ficha do Proponente
Proponente
- Paola Barreto Leblanc (UFBA)
Minicurrículo
- Paola Barreto (Rio de Janeiro, 1971) é artista, curadora e professora da Universidade Federal da Bahia, onde coordena, desde 2017, o Grupo de Pesquisa Balaio Fantasma. Trabalhando com vídeo-instalações, intervenções urbanas, circuitos analógicos e digitais e sistemas híbridos, sua pesquisa é voltada para revisões críticas da história das tecnologias modernas, partindo do cruzamento entre os estudos do cinema, da vigilância e das artes.
Ficha do Trabalho
Título
- Fantasmagorias Dahomeanas
Resumo
- Esta comunicação analisa a obra audiovisual “Fantasmagorias Dahomeanas”, desenvolvida e apresentada pela autora na Bienal de Artes e Culturas Vodun de Ouidah, em agosto de 2024, no Benin. Ao discorrer sobre os procedimentos de montagem, escuta e fabulação mobilizados no trabalho, apresenta a criação artística como prática de enfrentamento e desvio dos dispositivos etnográficos, afirmando-a como campo de elaboração poética e política das memórias da diáspora.
Resumo expandido
- Esta comunicação apresenta a obra “Fantasmagorias Dahomeanas”, concebida como um espetáculo de cinema ao vivo e apresentada pela autora na Bienal de Artes e Culturas Vodun de Ouidah, em 13 de agosto de 2024, no Benin. O trabalho se organiza como um dispositivo de projeção e escuta no qual imagens e sons de arquivo são articulados e comentados em tempo real, aproximando-se de uma lecture-performance ou de uma prática de VJ.
A projeção ocorre sobre peças de roupas suspensas e plantas, configurando uma superfície instável e descontínua — uma tela atravessada por lacunas, que não se oferece como suporte pleno da imagem. Esse dispositivo fragmenta a tela de cinema, distribuindo a imagem no espaço e aproximando-a do corpo, ao mesmo tempo em que introduz interrupções que impedem a fixação de um campo visual contínuo. Nesse deslocamento, a imagem deixa de operar como representação para se constituir como relação, emergindo no intervalo — entre corpos, materiais, sons e presenças — e produzindo sentidos que não se estabilizam na superfície.
O trabalho remixa imagens de arquivo do artista-sacerdote Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi (1917–2013), e dos terreiros do culto a Babá Egun em Itaparica, na Bahia. Esses materiais são colocados em relação com imagens captadas pela autora em diferentes cidades do Benin — Ouidah, Porto-Novo, Abomey e Kétou — compondo um percurso que dialoga com a noção de fluxo e refluxo proposta por Pierre Verger (2021). Articulam-se ainda registros sonoros provenientes dos arquivos do Musée d’Ethnographie de Genève (MEG), em especial gravações do culto a Nanã Buruku realizadas em Dassa-Zoumé, bem como o acompanhamento de um percussionista ao vivo.
Apresentado nos jardins do Palácio de Dada Daagbo Hounon Hounan II, em Ouidah, e em simultaneidade com a Festa da Boa Morte em Cachoeira de São Felix na Bahia, o trabalho inscreve-se em um campo de ressonâncias afro-atlânticas, no qual a relação com a tradição no Benin contemporâneo se afirma não como retorno, mas como vetor de produção artística e reinvenção (FAUVERNIER, 2022).
O trabalho se ancora na hipótese de que a imagem etnográfica, tal como produzida no contexto colonial — sejam as fotografias de Edmond Fortier (1908–1909), sejam os filmes do missionário Francis Aupiais (1929–1930) — participa da produção de um “outro” fixado como objeto de saber. Em diálogo com as pesquisas de Luís Nicolau Parés (2018) sobre o antigo Daomé, e com as críticas de Sylvia Wynter (2021) e Denise Ferreira da Silva (2022) aos regimes de produção do outro e à transparência da representação, o trabalho se pergunta como produzir imagens sem reiterar esse regime.
A busca pela resposta não se dá através da produção de uma imagem alternativa plena, mas pela construção de um dispositivo lacunar, no qual a imagem é interrompida e deslocada pelo som, discurso e presença. Nesse sentido, Fantasmagorias Dahomeanas propõe um desvio do dispositivo etnográfico, operando menos pela representação do outro do que pela reconfiguração das relações que tornam sua imagem possível.
Bibliografia
- FAUVERNIER, Philippe (org.). Art du Bénin: d’hier et d’aujourd’hui, de la restitution à la révélation. Paris: Hermann Éditeurs, 2022.
FERREIRA DA SILVA, Denise. Homo modernus: para uma ideia global de raça. Rio de Janeiro: Cobogó, 2022.
LECLAIR, Madeleine; ROUGET, Gilbert. Bénin: musiques yoruba. Les voix de la mémoire. Paris: Musée du Quai Branly; Ocora Radio France, 2011. 2 CDs.
MOREAU, Daniela; PARÉS, Luís Nicolau. Imagens do Daomé: Edmond Fortier e o colonialismo francês na terra dos voduns (1908–1909). São Paulo: WMF Martins Fontes, 2018.
SECNEB – Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil. Arquivo. Salvador, s.d.
VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos. São Paulo: Corrupio, 2021.
WYNTER, Sylvia. Sobre o ser humano como práxis. In: SPILLERS, Hortense et al. Pensamento negro radical: antologia de ensaios. São Paulo: Crocodilo, 2021.