Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Paola Barreto Leblanc (UFBA)

Minicurrículo

    Paola Barreto (Rio de Janeiro, 1971) é artista, curadora e professora da Universidade Federal da Bahia, onde coordena, desde 2017, o Grupo de Pesquisa Balaio Fantasma. Trabalhando com vídeo-instalações, intervenções urbanas, circuitos analógicos e digitais e sistemas híbridos, sua pesquisa é voltada para revisões críticas da história das tecnologias modernas, partindo do cruzamento entre os estudos do cinema, da vigilância e das artes.

Ficha do Trabalho

Título

    Fantasmagorias Dahomeanas

Resumo

    Esta comunicação analisa a obra audiovisual “Fantasmagorias Dahomeanas”, desenvolvida e apresentada pela autora na Bienal de Artes e Culturas Vodun de Ouidah, em agosto de 2024, no Benin. Ao discorrer sobre os procedimentos de montagem, escuta e fabulação mobilizados no trabalho, apresenta a criação artística como prática de enfrentamento e desvio dos dispositivos etnográficos, afirmando-a como campo de elaboração poética e política das memórias da diáspora.

Resumo expandido

    Esta comunicação apresenta a obra “Fantasmagorias Dahomeanas”, concebida como um espetáculo de cinema ao vivo e apresentada pela autora na Bienal de Artes e Culturas Vodun de Ouidah, em 13 de agosto de 2024, no Benin. O trabalho se organiza como um dispositivo de projeção e escuta no qual imagens e sons de arquivo são articulados e comentados em tempo real, aproximando-se de uma lecture-performance ou de uma prática de VJ.
    A projeção ocorre sobre peças de roupas suspensas e plantas, configurando uma superfície instável e descontínua — uma tela atravessada por lacunas, que não se oferece como suporte pleno da imagem. Esse dispositivo fragmenta a tela de cinema, distribuindo a imagem no espaço e aproximando-a do corpo, ao mesmo tempo em que introduz interrupções que impedem a fixação de um campo visual contínuo. Nesse deslocamento, a imagem deixa de operar como representação para se constituir como relação, emergindo no intervalo — entre corpos, materiais, sons e presenças — e produzindo sentidos que não se estabilizam na superfície.
    O trabalho remixa imagens de arquivo do artista-sacerdote Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi (1917–2013), e dos terreiros do culto a Babá Egun em Itaparica, na Bahia. Esses materiais são colocados em relação com imagens captadas pela autora em diferentes cidades do Benin — Ouidah, Porto-Novo, Abomey e Kétou — compondo um percurso que dialoga com a noção de fluxo e refluxo proposta por Pierre Verger (2021). Articulam-se ainda registros sonoros provenientes dos arquivos do Musée d’Ethnographie de Genève (MEG), em especial gravações do culto a Nanã Buruku realizadas em Dassa-Zoumé, bem como o acompanhamento de um percussionista ao vivo.
    Apresentado nos jardins do Palácio de Dada Daagbo Hounon Hounan II, em Ouidah, e em simultaneidade com a Festa da Boa Morte em Cachoeira de São Felix na Bahia, o trabalho inscreve-se em um campo de ressonâncias afro-atlânticas, no qual a relação com a tradição no Benin contemporâneo se afirma não como retorno, mas como vetor de produção artística e reinvenção (FAUVERNIER, 2022).
    O trabalho se ancora na hipótese de que a imagem etnográfica, tal como produzida no contexto colonial — sejam as fotografias de Edmond Fortier (1908–1909), sejam os filmes do missionário Francis Aupiais (1929–1930) — participa da produção de um “outro” fixado como objeto de saber. Em diálogo com as pesquisas de Luís Nicolau Parés (2018) sobre o antigo Daomé, e com as críticas de Sylvia Wynter (2021) e Denise Ferreira da Silva (2022) aos regimes de produção do outro e à transparência da representação, o trabalho se pergunta como produzir imagens sem reiterar esse regime.
    A busca pela resposta não se dá através da produção de uma imagem alternativa plena, mas pela construção de um dispositivo lacunar, no qual a imagem é interrompida e deslocada pelo som, discurso e presença. Nesse sentido, Fantasmagorias Dahomeanas propõe um desvio do dispositivo etnográfico, operando menos pela representação do outro do que pela reconfiguração das relações que tornam sua imagem possível.

Bibliografia

    FAUVERNIER, Philippe (org.). Art du Bénin: d’hier et d’aujourd’hui, de la restitution à la révélation. Paris: Hermann Éditeurs, 2022.
    FERREIRA DA SILVA, Denise. Homo modernus: para uma ideia global de raça. Rio de Janeiro: Cobogó, 2022.
    LECLAIR, Madeleine; ROUGET, Gilbert. Bénin: musiques yoruba. Les voix de la mémoire. Paris: Musée du Quai Branly; Ocora Radio France, 2011. 2 CDs.
    MOREAU, Daniela; PARÉS, Luís Nicolau. Imagens do Daomé: Edmond Fortier e o colonialismo francês na terra dos voduns (1908–1909). São Paulo: WMF Martins Fontes, 2018.
    SECNEB – Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil. Arquivo. Salvador, s.d.
    VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos. São Paulo: Corrupio, 2021.
    WYNTER, Sylvia. Sobre o ser humano como práxis. In: SPILLERS, Hortense et al. Pensamento negro radical: antologia de ensaios. São Paulo: Crocodilo, 2021.