Ficha do Proponente
Proponente
- Tiago Lenartovicz (USP)
Minicurrículo
- Docente de Comunicação e Multimeios na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e doutorando em Ciências da Comunicação na Universidade de São Paulo (ECA-USP). Pesquisa animação seriada brasileira, com foco em linguagem, serialidade e intertextualidade.
Ficha do Trabalho
Título
- Entre linguagens e representação feminina: processos de pesquisa e desenvolvimento na animação Fio
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- O trabalho discute a produção da animação Fio como processo formativo que articula pesquisa teórica, análise fílmica e prática autoral. A partir das relações entre raiva feminina, terror contemporâneo e linguagens da animação, são apresentados os percursos de seu desenvolvimento. O estudo demonstra como os processos envolvidos favorecem aproximações entre reflexões teóricas e a experimentação estética para a criação audiovisual no ambiente acadêmico.
Resumo expandido
- Neste trabalho, discutimos a realização do curta-metragem em animação Fio como experiência de criação audiovisual desenvolvida no espaço acadêmico, articulando pesquisa teórica, análise fílmica e prática autoral. A proposta parte de uma investigação sobre a ‘raiva feminina’ no terror contemporâneo e se insere em atividades disciplinares do curso de Comunicação e Multimeios voltadas à criação audiovisual. Ao deslocarmos o foco do produto final para o processo formativo, buscamos compreender como a prática criativa em ambiente acadêmico contribui para a construção de repertórios estéticos, narrativos e críticos no campo do cinema e da animação.
O estudo reflete sobre a produção de Fio como percurso de aprendizagem e experimentação. O arcabouço teórico sobre o tema e suas relações com o cinema conduz à materialização do filme animado, considerando as diferentes etapas de sua concepção. Observamos como essas fases permitem aproximar teoria e prática, sobretudo quando são identificadas as problemáticas de representação, linguagem e gênero no audiovisual.
O percurso teórico mobiliza discussões sobre a representação das mulheres no terror e a emergência de personagens que expressam emoções como a raiva, em diálogo com Creed (2022), Clover (1992) e Butler (2018). A raiva é compreendida aqui como uma emoção complexa e gradativa (Santaella, 2005), cuja elaboração no audiovisual implica escolhas simbólicas e discursivas. A “raiva feminina” mostra um deslocamento histórico da mulher da passividade para a agência, tensionando normas morais e expectativas de gênero. Sua representação pode tanto ser reduzida a desvio ou espetáculo, quanto complexificar subjetividades.
As narrativas audiovisuais exploram formas e movimentos para elaborar emoções em tela, e a animação oferece especificidades que favorecem essa construção, ao transformar seus recursos de linguagem em elementos da experiência estética (Furniss, 2014). Com isso, o filme animado permite pensar a emoção como construção formal e sensível, dimensão que Graça (2006) associa à liberdade expressiva da linguagem, ao gesto, à técnica e à composição de atmosferas ficcionais sensoriais. A partir desse referencial, a narrativa de Fio é elaborada como metáfora e se estrutura em torno da figura de uma tecelã, cuja prática de tecer e desfazer fios simboliza processos de repetição e ruptura, associados à experiência emocional da protagonista.
Metodologicamente, o trabalho articula revisão bibliográfica, análise fílmica e prática projetual no contexto de ensino e aprendizagem. O caráter analítico de filmes contemporâneos orienta a construção de uma proposta estética e narrativa própria (Aumont e Marie, 2004) observando as ações das protagonistas como expressões de raiva. Já o desenvolvimento de Fio passa por etapas de pré-produção, produção e pós-produção, sendo continuamente reelaborado por meio de experimentações visuais. Esse processo se constitui pela adoção de uma estética não refinada da animação limitada e pela composição visual para a ambientação do terror, buscando em correspondência ao roteiro da trama. O percurso inclui ainda a reflexão sobre circulação em plataformas digitais, considerando a divulgação do curta e de seus materiais complementares.
Como resultados, identificamos que o espaço educacional voltado à produção universitária de uma animação autoral favorece a integração entre investigação e experimentação audiovisual. O percurso de Fio resultou em uma animação capaz de representar a raiva feminina por meio de escolhas narrativas e visuais construídas ao longo do processo, articulando decisões conceituais, posicionamentos estéticos e reflexão crítica sobre as imagens produzidas. Assim, a experiência contribui para pensar a prática criativa como percurso formativo inter-relacionado ao campo da animação contemporânea.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. A análise do filme. 2. ed. Lisboa: Texto & Grafia, 2004.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
CLOVER, Carol J. Men, women, and chain saws: gender in the modern horror film. Princeton: Princeton University Press, 1992.
CREED, Barbara. Return of the monstrous-feminine: feminism, film, and psychoanalysis. London: Routledge, 2022.
FURNISS, Maureen. Art in motion: animation aesthetics. Revised edition. New Barnet: John Libbey Publishing, 2014.
GRAÇA, Marina Estela. Cinema de animação: um estudo estético. São Paulo: Senac, 2006.
SANTAELLA, Lucia. Por uma semiótica das emoções: Medeia e o paroxismo da raiva feminina. São Paulo: Paulus, 2005.