Ficha do Proponente
Proponente
- Manoela Veloso Passos (não se aplica)
Minicurrículo
- Graduada em Audiovisual e mestre pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Cinema da Universidade Federal de Sergipe (UFS), com a dissertação “Cinema de mulheres em Sergipe: mapeamento de filmes e trajetórias de cineastas (1974–2023)”, premiada com Menção Honrosa no Prêmio Socine de Teses e Dissertações em 2024. Este trabalho foi publicado em 2025, sob o título “Cinemas nascentes: mulheres na direção em Sergipe”. Também é co-criadora da Mostra Maternidade Real e sócia na Rolimã Filmes.
Ficha do Trabalho
Título
- A última semana é de Lampião, mas o que se destaca é o protagonismo feminino
Resumo
- Com metodologia de análise feminista, buscamos perceber o contraste nas representações de mulheres em três obras ficcionais de longa-metragem que abordam o cangaço: “Lampião (a última semana)” (1986) dir. Ilma Fontes, “Baile perfumado” (1996) dir. Lirio Ferreira e Paulo Caldas e “Corisco e Dadá” (1996) dir. Rosemberg Cariry.
Resumo expandido
- É comum que toda história seja contada a partir da perspectiva dos homens, isso se repete quando acessamos o que foi produzido sobre o cangaço. Este movimento de banditismo que percorreu o sertão nordestino por décadas teve em Lampião sua figura mais emblemática, mas é na representação das mulheres do cangaço que este trabalho se detém, comparando as escolhas narrativas e estéticas de três obras ficcionais.
O presente trabalho faz uso de metodologia de análise feminista do cinema sobre este movimento que teve, a partir da década de 30, a participação de mulheres. Para observar as representações das mulheres buscamos obras ficcionais nordestinas e partimos do filme sergipano “Lampião (a última semana)” (1986) por ter sido o primeiro longa registrado no estado, e um dos poucos filmes dirigidos por uma mulher que se tem registro no período anterior ao digital (MORENO, 1986). Nele, que se dedica a retratar as últimas movimentações do grupo comandado por Lampião, as mulheres tem participação ativa e complexidade, tendo muitas cenas em que elas interagem entre elas, com atenção a serviços domésticos e trabalho de cuidado.
Em contraponto, buscamos outros filmes do nordeste para comparar, na intenção de refletir se esse protagonismo nas personagens femininas era algo recorrente, mas, como é comprovado historicamente pelas análises feministas do cinema, quando a direção é masculina há maior probabilidade de que isso não ocorra.
Os filmes “Baile perfumado” (1996) dir. Lirio Ferreira e Paulo Caldas e “Corisco e Dadá” (1996) dir. Rosemberg Cariry mostram um contexto bem diferente para as cangaceiras. No primeiro filme, que se dedica a relação do fotógrafo Benjamin Abrahão com o grupo de Lampião, as mulheres estão majoritariamente ausentes, suas contribuições são acessórias aos homens que se relacionam, mas os momentos isolados em que têm fala ou ação demonstram alguma autonomia subjetiva para tecer elogios a uma cidade ou trair o marido. Já no segundo, as mulheres estão presentes, mas sob única função de sofrer violências relacionadas diretamente ao fato de serem mulheres como estupro e feminicídio.
As mulheres enfrentam muitos obstáculos para ocupar a função de diretoras, e, no caso de Ilma Fontes, há ainda o desafio que deriva da falta de políticas públicas no fomento ao cinema em Sergipe, o que difere um pouco dos estados dos outros dois filmes analisados: Pernambuco e Ceará que investem nesse setor desde os anos 1990.
Não podemos atribuir exclusivamente a construção de representações tão contrastante ao gênero das pessoas que assinam as direções das obras, mas estudos demonstram que a ocupação da direção por mulheres tem forte impacto na relação que as narrativas tem com a experiência de ser mulher no mundo (Almeida; Alves; Silva, 2013, p. 164).
Apesar dos desafios estruturais de ser cineastas em Sergipe e ser mulher, podemos perceber em Ilma Fontes um potencial criativo que se mostra especialmente na representação feminina, mas que se relaciona diretamente com a habilidade cinematográfica de produzir narrativa com profundidade e rigor estético. Enquanto podemos perceber um primor estético em “Baile perfumado” que está muito limitado por pensamentos datados do social e político do seu contexto e ainda mais limitações em “Corisco e Dadá” que não consegue construir sequer uma narrativa interessante, apesar de trabalhar personagens em comum com os outros dois.
Bibliografia
- ALMEIDA, Paula Alves de; ALVES, José Eustáquio Diniz; SILVA, Denise Britz do
Nascimento. Participação das Mulheres em funções chave na produção cinematográfica
brasileira. Cadernos de Gênero e Tecnologia, CEFET/PR, v. 28, p. 149-174, 2013.
FERREIRA,Vera; ARAÚJO, Germana (Org.). Bonita Maria do Capitão. Salvador: EDUNEB, 2011.
LIMA, Caroline de Araújo. E as Cangaceiras?As representações sociais e o imaginário do feminino cangaço no cinema. 2020. Tese (Doutorado em Ciências Sociais), Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2021.
MORENO, Djaldino Mota. Cinema Sergipano – catálogo de filmes. Aracaju, Sergipe: D.M
Moreno, 1988.
SOUZA, Maria Beatriz Rodrigues. As vozes da mulheres do Cangaço: um diálogo entre a historiografia e o cinema. Ponta de Lança: Revista Eletrônica de História, Memória & Cultura, [S. l.], v. 19, n. 37, p. 195–216, 2025. Disponível em: https://ufs.emnuvens.com.br/pontadelanca/article/view/22615. Acesso em: 26 abr. 2026.