Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    André Quevedo Pacheco (USP)

Minicurrículo

    André Quevedo Pacheco é graduado em audiovisual pela ECA/USP onde atualmente é mestrando sob orientação de Cecília Antakly de Mello. Estuda o cinema abstrato francês dos anos 1920 com enfoque nos seus aspectos sociopolíticos. Também é montador e cineasta, tendo realizado curtas-metragens como Elegia (2025) e Batuque (2024).

Ficha do Trabalho

Título

    Paris em pedaços: o espaço da cidade no documentário e cinema experimental francês dos anos 1920

Seminário

    Cinema e Espaço

Resumo

    Expressão e componente da modernidade, o cinema relaciona-se às transformações da subjetividade engendradas pelo espaço urbano e pelo fluxo de multidões e mercadorias. Tomando os filmes como relatos espaciais e obras que cristalizam aspectos sociais, a comunicação analisa como documentários e filmes experimentais dos anos 1920 constroem o espaço da cidade de Paris.

Resumo expandido

    Originário das inovações técnicas e transformações sociais da passagem do século XIX para o XX, o cinema é indissociável da ideia de modernidade, assim como da sua expressão mais reconhecível – a cidade moderna. O novo ritmo urbano de circulação de bens e corpos, decorrente das mudanças no regime de trabalho e da comercialização de mercadorias a partir da segunda revolução industrial, pode ser visto como análogo, em alguns aspectos, à experiência fragmentada e veloz do cinema (Charney; Schwartz, 1995, p. 3-4). Essas experiências fazem parte, contudo, de um contexto mais amplo de transformação do estatuto do observador. Segundo Jonathan Crary (2012, p. 71-72), ao longo do século XIX um observador abstrato e ideal, distanciado das imagens, teria sido substituído por outro no qual a subjetividade do corpo está implicada na produção da visualidade. Uma contrapartida desse processo seria, no entanto, o crescimento de técnicas de controle para submeter essa subjetividade às exigências produtivas da época (Ibid., p. 82-84). Walter Benjamin (1989, p. 35-38) nota, por outro ângulo, que no século XIX a apreensão gerada pelo encontro cotidiano com multidões de anônimos desconhecidos produzia atitudes como a do flâneur, que circulava ocioso pela cidade, adaptado ao ritmo da multidão, como um detetive que “Capta as coisas em pleno vôo (…)” (Ibid., p. 38), a do trapeiro que recolhe na madrugada o lixo deixado pelo dia nas ruas, ou o apache, delinquente apartado da sociedade (Ibid., p. 78-79). Seria possível distinguir, a partir de Michel de Certeau (1998, p. 169-172), entre essas atitudes singulares ao ambiente urbano e, por outro lado, sua descrição totalizante pelo discurso urbanístico e cartográfico. De acordo com De Certeau, “Uma cidade transumante, ou metafórica, insinua-se assim no texto claro da cidade planejada e visível.” (Ibid., p. 172).

    Tão importantes, porém, para De Certeau, quanto as práticas concretas do espaço são os relatos sobre ele, que organizam e fazem viagens no lugar do corpo através de articulações linguísticas (Ibid., p. 200). Tomando o cinema como parte da cidade, mas também como sua expressão pela retratação da vida urbana, podemos expandir o sentido de “relato” para os filmes, tratando-os como formas de transporte e realização do espaço. Dentre as cidades retratadas pelo cinema dos anos 1920, Paris – epítome da modernidade do século XIX – não ficaria de fora. À parte das ficções ambientadas na cidade, documentários e filmes experimentais como Jeux des reflets et de la vitesse (1925, Henri Chomette), Études des mouvements à Paris (1928, Joris Ivens), La Tour (1928, René Clair), Études sur Paris (1928, André Sauvage), Les nuits électriques (1928, Eugène Deslaw), Montparnasse (1929, Eugène Deslaw) e Harmonies de Paris (1929, Lucie Derain) compuseram retratos variados dos bairros centrais parisienses e de seus principais símbolos arquitetônicos e geográficos. Variando entre montagens do ritmo urbano, estudos sobre figuras e movimentos, exaltação de monumentos, decomposição de movimentos etc., os filmes traçam formas diversas de organizar o espaço fragmentado de Paris num relato fílmico. O objetivo desta comunicação é traçar paralelos e distinções entre momentos dos filmes elencados para perceber como aspectos das transformações, técnicas e reações da subjetividade moderna se cristalizam na constituição formal dos filmes como obras de arte, partindo da metodologia da sociologia da arte adorniana (Adorno, 2021, p. 151-152). Ademais, buscaremos entender em que medida o cinema reitera visões que organizam a cidade a partir de cima, se assemelha à sua desorientação ou às técnicas que reagem a ela ou se, nas palavras de Benjamin, exerce a capacidade de explodir esse mundo de cárceres e empreender viagens aventurosas por entre os escombros do espaço fragmentado (Benjamin, 2024, p. 28).

Bibliografia

    ADORNO, Theodor W. Sem Diretriz – Parva Aesthetica. São Paulo: Editora Unesp, 2021. p. 147-159.
    BENJAMIN, Walter. Estética e sociologia da arte. Belo Horizonte: Autêntica, 2024. p. 7-47.
    ______. Obras Escolhidas – Vol. 3: Um Lírico no Auge do Capitalismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989. p. 9-103.
    CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano Vol. 1: artes de fazer. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
    CHARNEY, Leo; SCHWARTZ, Vanessa R. (orgs.). Cinema and the invention of modern life. Berkeley; Los Angeles; London: University of California Press, 1995.
    CRARY, Jonathan. Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.