Ficha do Proponente
Proponente
- Livia Arbex (PPGCOM PUC-Rio)
Minicurrículo
- Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-Rio e graduada em Piano pelo Conservatório Brasileiro de Música. Bolsista CNPq. Integrante do laboratório de práticas do arquivo e contra-arquivo. Atua como montadora audiovisual desde 2006. Recebeu o prêmio Sesc Novos Talentos no Festival Kinoforum pela realização do curta-metragem “Clube do Otimismo”. Coordenou o curso de Formação Livre em Montagem da AIC-Rio e foi professora do Taller Documentales na EICTV em Cuba.
Ficha do Trabalho
Título
- A câmera como método: filmar para selecionar, escutar para montar
Eixo Temático
- ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL
Resumo
- Este trabalho expande a investigação iniciada por Claudia Mesquita e André Brasil neste mesmo seminário, em 2025, sobre “Andança”, de Pedro Bronz (2022). Partiremos do arquivo da cantora Beth Carvalho – quase duas mil horas de imagens amadoras para pensar a imagem como método e a câmera como instrumento de trabalho para curadoria de repertório, mobilizando tensões entre território, formas de vida e partilha do sensível.
Resumo expandido
- Setecentas e sessenta e duas fitas, numeradas com as iniciais “BC”. Super-8, Betacam, fitas cassete e VHS. Nenhuma organização evidente emana desta coleção que se estende por quase duas mil horas de material. Este é o arquivo da cantora Beth Carvalho, décadas de imagens amadoras que morriam de mar nas prateleiras de seu apartamento na praia de São Conrado quando, após sua morte em 2019, chegaram às mãos do cineasta Pedro Bronz. Em “Andança” (2022), uma pequena-grande fração é retomada numa montagem que permite dar a ver os arquivos. No acervo pessoal da cantora, vemos que Beth registrou rodas de samba nos quintais do subúrbio, entrevistas marcadas pelo improviso e vestígios materiais do nascimento de uma canção, desde os primeiros acordes até a gravação no estúdio. Há ainda uma coleção em áudio nomeada “Baú”: mais de quatro mil músicas enviadas por compositores a Beth ao longo de décadas, entre elas a primeira demo de “Camarão que dorme a onda leva”, de Zeca Pagodinho, além de sambas inéditos do Fundo de Quintal que nem o próprio grupo salvaguardou. Estamos diante de um diário pessoal, de um impulso de preservação ou de um arquivamento para o futuro?
O próprio arquivo desloca a pergunta. Numa entrevista em áudio, a cantora afirma que assiste ao material em casa para decidir quais músicas gravar. A câmera era instrumento de trabalho, escuta analítica de um território. Beth filmava para escolher. Walter Benjamin propunha aos historiadores que adotassem o princípio da montagem não para contar a história, mas para montá-la, extraindo dos documentos sua dimensão figural, tornando cognoscível o que neles permanecia soterrado. A prática de Beth com o samba parece se aproximar da ideia benjaminiana. É na experiência da roda que o gesto de selecionar aparece mais fortemente. A pesquisa que hoje se debruça sobre o material realiza um gesto da mesma natureza – e é nesse espelhamento que também encontra seu método.
O que o arquivo registra, porém, é inseparável do que ele não registra. O arquivo mostra o deslocamento da câmera da zona sul para o subúrbio, num movimento tanto afetivo quanto político: o esforço de inscrever no centro da memória nacional aquilo que o Brasil insiste em deixar à margem. As práticas performáticas captadas – o samba, a roda, o gesto, a fala cantada – são saberes transmitidos corporalmente, formas de vida que Marielle Macé nos convida a siderar: ser atravessado por elas, sem convertê-las em objeto de contemplação ou de consumo. O repertório de Beth é tecido coletivamente, mesmo que a câmera seja sua. O arquivo registra essa tensão, mas não a resolve – e é justamente aí que reside sua força analítica.
O acervo permanece sem catalogação em repositório público, e “Andança” é a única obra que retomou parte desse material. Rancière nos permite pensar esse silêncio: o que entra no regime do visível, o que é reconhecido como experiência estética e histórica legítima, e o que permanece fora.
Bibliografia
- BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.
GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 92/93, p. 69-82, 1988.
HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno. São Paulo: Ubu, 2023.
MACÉ, Marielle. Siderar, considerar: migrantes, formas de vida. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34, 2009.
TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.