Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Caio Victor da Silva Brito (UFCE)

Minicurrículo

    Artista multimídia, montador, e pesquisador doutorando em Artes pela Universidade Federal do Ceará (UFC/PPGARTES), mestre em Artes e bacharel em Cinema pela mesma instituição com foco em poéticas tecnológicas e mídias imersivas (VR,AR,XR). Desenvolve a tese Virtuallucination, investigando a intersecção entre poéticas queer, ciberxamanismo, audiovisual expandido, inteligência artificial e a subversão do seu aparato técnico.

Ficha do Trabalho

Título

    A Artesania da Montagem com IAs Generativas nas Videoartes da Tese Virtuallucination

Resumo

    A partir da abertura do processo de artesania da montagem nas videoartes da tese Virtuallucination (em curso no PPGARTES-UFC), geradas via IAG, investigamos como prompts contra-algorítmicos compostos por versos poéticos geram um ruído semântico que subverte a predição estatística e geram resultados não-triviais. Articulando Manovich, Steyerl, Zylinska, Flusser, Pasquinelli e Eisenstein, evidenciamos a alucinação maquínica como subversão estética à mediocridade normativa e conservadora das IAG.

Resumo expandido

    A proposição “Fins do mundo, mundos sem fim” do XXIX Encontro da SOCINE toca no temor contemporâneo diante do crescimento exponencial da Inteligência Artificial Generativa (IAG) e na suposta morte da imagem fotográfica pela ruptura ontológica no fazer audiovisual. Como analisa Lev Manovich (2026), a IAG desponta como a primeira “mídia que pensa”, detendo uma cognição midiática embutida, forjada pela extração e catalogação histórica de padrões estéticos, visuais, sonoros e textuais de trilhões de artefatos.
    Devido a esses sistemas operarem através da recursividade, pelo aprendizado com seus próprios dados, Yuk Hui (2019) assinala que uma resposta para quebrar a circularidade do modelo é a introdução da contingência e do inesperado pelo artista. Ademais, Manovich (2026) identifica que a IA atua como uma força “anti-avant-garde” por privilegiar o visual convencional. Steyerl (2023) complementa a crítica apontando que essa produção padrão da IAG reflete uma mediocridade gerada pela convergência estatística que elimina dissidências em prol da normatividade, revelando seus enviesamentos e o racismo algorítmico (Beiguelman, 2021). Contra esse conservadorismo, Zylinska (2023) propõe a “máquina de percepção não trivial”, um sistema cujo estado interno altera-se a cada operação, tornando comportamento e resultado imprevisíveis. Uma oposição às IAG comerciais, que operam como máquinas triviais onde o mesmo prompt gera resultados polidos e padronizados.
    Diante do exposto, esta proposta, vinculada à tese doutoral Virtuallucination (PPGARTES-UFC), analisa a montagem artística de videoartes geradas por IAG em contrariedade a essa visualidade asséptica. Propomos um jogo poético (Flusser, 2011) mediante a escrita de prompts contra-algorítmicos, ou seja, comandos que recusam a predição linear ao inserir versos e conceitos metafóricos antagônicos no mesmo prompt, provocando um ruído semântico que desorienta a máquina e rompe sua circularidade normativa.
    Diferente da edição tradicional, a montagem com IAG opera no espaço latente da máquina, definido por Pasquinelli (2023) como uma dimensão matemática onde os padrões da história da cultura são extraídos por cartografia visual e social para serem reduzidos a vetores probabilísticos. A fim de evitar a reprodução do senso comum dessa estatística, adotamos a postura do jogador de Flusser (2011), no qual o artista deve buscar frestas no programa e jogar contra o aparato para forçá-lo a gerar estéticas imprevistas pelas suas programações originais.
    Compreendemos esse processo de montagem como uma artesania dado que, no fluxo de criação das videoartes de Virtuallucination, a montagem dita a captação, gerando planos via IAG com movimentos de câmera precisos e trilhas musicais que mimetizam o BPM e a densidade das imagens. O montador assume a arquitetura total da decupagem ao conduzir o ritmo, moldar o espaço e coreografar movimentos internos (personagens) e externos (câmera).
    Ao abrirmos esse processo criativo artista-máquina, discutimos como a escrita poética e hiperbólica resiste à mediocridade sintética (Steyerl, 2023). Sem descrições lineares, o poema introduz associações metafóricas que a IAG não processa por predições simples. A montagem subverte a programação base ao forçar o modelo a cruzar conceitos em extremos opostos do seu espaço latente (carne/ossos vs. vidro rachado; pirâmides vs. cyber/neon). Essa fricção dialoga com a montagem intelectual de Eisenstein (2002) pela colisão de ideias antagônicas no prompt, gerando um terceiro sentido a partir dessa indução da IAG à alucinação e a resultados não-triviais (Zylinska, 2023), materializando na tela uma estética autoral.
    Como resultado de forçarmos o sistema ao erro em diferentes frentes (imagem, vídeo e som), evidenciamos como a subversão do aparato viabiliza uma vanguarda na qual o controle sobre a linguagem é conquistado, paradoxalmente, pelo conflito com a imprevisibilidade da máquina durante toda a artesania da montagem das videoartes.

Bibliografia

    BEIGUELMAN, Giselle. Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera. Ubu editora, 2021.
    EISENSTEIN, Sergei. A Forma do Filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002
    FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta. São Paulo: Annablume, 2011.
    MANOVICH, Lev. A Medium That Thinks: AI and Media Cognition. [s. n.], 2026.
    MOURÃO, M. D. G. A montagem cinematográfica como ato criativo. Significação, 33(25), 2006.
    PASQUINELLI, Matteo. The eye of the master: A social history of artificial intelligence. Verso Books, 2023.
    STEYERL, Hito. Mean Images. New Left Review, n. 140/141, p. 82-97, 2023.
    HUI, Yuk. Recursivity and contingency. Bloomsbury Publishing USA, 2019.
    ZYLINSKA, Joanna. AI Art: Machine Visions and Warped Dreams. London: Open Humanities Press, 2020.
    ZYLINSKA, Joanna. The Perception Machine. Cambridge: MIT Press, 2023.