Ficha do Proponente
Proponente
- Juliano Gomes (FAAP)
Minicurrículo
- Crítico e professor da FAAP(SP). Editor da Revista Cinética. Publicou na Film Quarterly, World Records Journal, Filme&Cultura, Folha, Piauí. Programou no Sheffield Doc Fest (Inglaterra, 2020) e atualmente co-programa a Mostra de Tiradentes desde 2024. Organizou o livro “Thomas Farkas, Todomundo”, vencedor do Prêmio Jabuti 2025. Mestre em Comunicação (UFRJ). Dirigiu com Léo Bittencourt “As Ondas”(2016), “…”(2007). Dirigiu o curta “Nada haver” (2022). Alimenta o podcast “Rascunho Ambiente”.
Ficha do Trabalho
Título
- Claro enigma: estudo, contágio e opacidade nos filmes de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca
Seminário
- Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil
Resumo
- A comunicação tem como objetivo investigar as relações entre Bárbara Wagner e Benjamin de Burca e os artistas que eles retratam (em especial artistas negros e ou periféricos) trabalhadas nos filmes da dupla. Busca-se enxergar uma forma ética de colaboração que considere os saberes não institucionais como elementos de riqueza conceitual, plástica, política e metodológica, enfatizando a ideia de “estudo” como formulada por Moten, Harney e Oliveira, desfazendo as hierarquias habituais.
Resumo expandido
- O trabalho de Bárbara Wagner & Benjamin de Burca está plenamente baseado no signo da colaboração, não só entre si, mas com quem dividem cada projeto de filme. Curiosamente, é justo essa dimensão de partilha, uma certa radicalidade deste interesse, que faz com que os filmes às vezes soem mais opacos que o habitual – apesar de sensorialmente nítidos. De fato, são todos eles exercícios de modulação de pontos de vista, cujo horizonte é, ao mesmo tempo, elucidar o trabalho abordado como plástica, tática e técnica, e produzir uma experiência não exatamente de um esclarecimento, ou de explicação dos artistas retratados. Como se trata de um foco quase sempre metalinguístico, com artistas falando sobre artistas, há uma sublinhada sustentação de postura em torno da observação não só dos signos trabalhados, mas de seus modos de significar. Isto significa indagar: qual registro de comunicação e contágio de uma dança? Como o brega funk se propaga? Ou como o rap e a spoken word passa de pessoa para pessoa? Todas estas artes populares possuem linguagem, forma, convenções e circuitos de transmissão, sociais e cognitivos. É justo essa camada que funciona como zona de trabalho mais habitual da dupla, um certo estudo de práticas e de registros, de formas de se relacionar com o outro que vê, funcionando para dentro e para fora do tecido poético.
Tal ênfase produz um curto-circuito razoavelmente frequente no nível da “compreensão”. Como diz o filósofo Édouard Glissant, compreender é aplainar os dados numa mesma métrica, num mesmo plano, e nós humanos podemos fazer relação com tudo, mesmo com o que não entendemos completamente – e talvez especialmente nesse caso, porque de fato, concretamente, é impossível compreender qualquer coisa “completamente”. A compreensão é uma fantasia irmã da dominação. Portanto, tal defasagem essencial é uma espécie de marca ética e poética destes trabalhos e o ruído que advém eventualmente (talvez seja preciso dizer que o foco dos trabalhos é em grande parte a zona de ruído das práticas) nasce desta divergência com um certo pacto que ecoa um iluminismo oco (e viciante) em que filmes – especialmente os que dialogam com práticas documentais – nos fazem entender coisas (e não vê-las).
O sentido de estudo é primordial aqui. Próximo ao que escrevem Fred Moten e Stefano Harney, ao entender o estudo como uma dimensão inerente das práticas de sociabilidade não hegemônicas, e Bernardo Oliveira no seu livro sobre o álbum “Estudando Samba” de Tom Zé, o estudo é uma aproximação criativa, uma verificação ativa das possibilidades de um material e de um repertório. Os filmes da dupla adotam este tipo de contato com o que se interessam. Bernardo, ao falar de Tom Zé caracteriza o estudo como “ímpeto de experimentação artística e de indagação teórica”, que faz o artista refazer para si um espaço próprio e ao mesmo tempo impróprio – pois de certa forma, modula estratégias constantes de “inadequação” perante um repertório estabelecido. Aqui, nas obras em questão temos situações literais de estudo (e de estúdio, palavras de mesma raiz) vistas a partir desta sustentação ética do estudo como construção de modos de ver e mostrar, cujo compromisso é buscar formas infinitas de manter pulsante o tônus da incompletude. Pois é isso que agride os proprietários da compreensão e seus rituais, a afirmação de uma parte lacunar, de uma tela preta, de um silêncio a mais. Há um jogo constante com duas sensações cujo cruzamento emana energia dramática: a sensação de algo pré-formado, não totalmente completo, em que se pode sentir que “alguma coisa parece faltar ”, que se combina com outra face, que advém de um cuidado pronunciado com a dimensão plástica da expressão audiovisual, na forma dos tableaux ou das nuances trabalhadas do desenho de som. Há aí uma espécie de drible ético, pois este nó já corresponde a um gesto de contágio das próprias experiências de colaboração.
Bibliografia
- BURCA, Benjamin, WAGNER, Bárbara (ed), CHHANGUR, Emelie, LEPECKI, André. MENEZES, Hélio, MOFFIT, Evan (textos/texts). The Films of Bárbara Wagner & Benjamin de Burca. Toronto: Art Gallery of York University
CALLOU, Hermano. O corpo em estado de imagem. In: Revista Cinética: https://nova.revistacinetica.com.br/texto/274
CRESPO, Nuno. Trabalho s Bárbara Wagner & Benjamin de Burca. Universidade Católica Portuguesa / Escola das Artes / UCP Press. 2026
CRUZ, Nina Velasco. O dispositivo do Tableau vivant e o gesto em Faz que Vai (2015) de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. In: Revista Galáxia
GLISSANT, Édouard. Pela opacidade. Revista Criação & Crítica, n.1, 2008.
OLIVEIRA, Bernardo. Tom Zé: Estudando samba. Editora Cobogó, RJ, 2014
STEFANO, Beatriz Andrade. O gesto, a performance e a teatralidadenos nos documentários: Era o Hotel Cambridge (2016), Swinguerra (2019) e AGORA (2020). / Beatriz Andrade Stefano. – Recife, 2023
MOTEN, Fred. (2020). A Resistência do Objeto: O Grito de Tia Hester.