Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Paulo Pinto Wandscheer (UFRGS)

Minicurrículo

    Doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista Capes. Integra o ARTIS – Grupo de Pesquisa em Estética e Processos Audiovisuais, registrado no CNPq. Desenvolve, atualmente, uma pesquisa sobre cinema queer brasileiro e natureza. É também diretor, roteirista e ator.

Ficha do Trabalho

Título

    Ficção ecoqueer e João Pedro Rodrigues: um cinema iconoclasta

Resumo

    Alicerçado na abordagem Teoria de Cineastas, este trabalho sistematiza e analisa depoimentos do diretor português João Pedro Rodrigues acerca do longa-metragem O Ornitólogo (2016). As ideias do cineasta nos permitem discutir e articular temáticas que envolvem a natureza e o enfrentamento de normas sociais voltadas tanto a gênero quanto a sexualidade, dando destaque inclusive ao atributo iconoclasta do cinema queer, uma de suas diversas características e manifestações.

Resumo expandido

    Este trabalho sistematiza e analisa depoimentos do diretor português João Pedro Rodrigues acerca do longa-metragem O Ornitólogo (2016). Em uma de suas entrevistas que reunimos, o cineasta descreve o filme como uma busca do protagonista Fernando por sobrevivência, depois de se perder em meio à mata, na tentativa de observar pássaros. A obra articula temas como natureza, homossexualidade e um conceito, apontado pelo diretor, que acionou o presente debate: a iconoclastia.
    Esta pesquisa segue diretrizes da abordagem Teoria de Cineastas, a qual consiste, conforme descrevem Graça, Baggio e Penafria (2015, p. 21), em um estudo sistemático do “pensamento artístico de cineastas”, com o objetivo de construir reflexões teóricas no campo acadêmico. Nosso percurso iniciou ao nos depararmos com uma entrevista do diretor português para o pesquisador Lucas Martinelli, publicada na revista Imagofagia. Na ocasião, Rodrigues (2021) revela que buscava construir uma revisão iconoclasta de Santo Antônio de Pádua.
    Em um depoimento disponível no portal O Globo, Rodrigues (apud Ristow, 2017) explica que a santidade foi difundida em Portugal como um representante de valores moralistas e bons costumes nos anos 1970, durante o período ditatorial: algo que O Ornitólogo se propõe a revisar. Santos (2022) ressalta, por exemplo, a provocação e a apropriação homoerótica contidas no envolvimento entre Fernando e o personagem que revela se chamar Jesus. Portals (2022) compreende a iconoclastia e a reinterpretação da história como potentes recursos para não apenas reimaginar – em um olhar queer – figuras e eventos que marcaram a história, mas também enfrentar a imposição social da heterossexualidade: discussão elaborada através de obras do diretor britânico Derek Jarman, envolvido na direção de filmes como Sebastiane (1976) e Edward II (1991).
    Rodrigues (2021), porém, explica que não produz filmes partindo de um ponto de vista teórico e que tampouco busca transmitir uma mensagem ou, ainda, construir um filme com temática gay. O seu objetivo, destaca, é contar uma história, embora reconheça que tudo que se faz é político e que discussões possam ser realizadas posteriormente acerca de múltiplos temas. Quando questionado sobre o componente queer de sua obra, Rodrigues (2016) explicita que contar narrativas próximas a ele vem a ser uma espécie de honestidade consigo mesmo: histórias ficcionais, mas também ligadas a ele. Inclusive, Rodrigues (2021) relata que já desejou ser ornitólogo e que, com sete anos, ganhou do seu pai um binóculo. O diretor ainda conta que apreciava estar em meio à natureza e observar pássaros que passavam por sua casa de campo.
    De acordo com Lopes (2024, p.4), a ficção, em uma perspectiva ecoqueer, não apenas embaralha convenções e abre espaço para uma concepção de futuro desprendida de regulações cisheteronormativas, mas também possibilita “uma ampliação dos interesses para com o meio ambiente”. Os apontamentos de Lopes (2024) estão direcionados mais especificamente à literatura. Contudo, Rodrigues (2021) acredita que o cinema vem a ser uma mescla de outras artes, destacando que ele mesmo está circundado de artistas que trabalham com filmes, música, que escrevem e pintam: o que nos estimula a articular distintos campos artísticos e teóricos.
    Sistematizar depoimentos de João Pedro Rodrigues, portanto, nos permite discutir não somente temáticas que tangem a natureza, mas também sobre normas sociais voltadas a gênero e sexualidade, dando destaque ainda ao atributo iconoclasta do cinema queer, uma de suas diversas características e manifestações. Este trabalho, fundamentado em Graça, Baggio e Penafria (2015, p.24), buscou ideias do cineasta, com o intuito de “alargá-las para o campo da investigação científica”. A Teoria de Cineastas, todavia, também se propõe a ser analítica e crítica, explicam os autores, de modo que outras interpretações e, inclusive, contrapontos podem ser elaborados a partir do pensamento e obras de João Pedro Rodrigues.

Bibliografia

    GRAÇA, A.R.; BAGGIO, E.T.; PENAFRIA, M. Teoria dos cineastas: uma abordagem para a teoria do cinema. In: Revista científica/FAP, p. 19-32, 2015.
    LOPES, M.M. Da A Extinção das Abelhas ao caos: Reflexões sobre a dimensão ecoqueer da ficção brasileira Contemporânea. In: Letras De Hoje, p. 1-10, 2024.
    PORTALS, S.B. Tres muertes del cine queer. Pasolini, Fassbinder y Jarman: miradas transgresoras para revisar la contemporaneidad. Mestrado em Comunicação. Universitat Pompeu Fabra, 2022.
    RODRIGUES, J.P. “Há um lado erótico na representação de muita pintura religiosa”. [Entrevista a] C7nema, 2016.
    RODRIGUES, J.P. Las aves fueron sustituidas por el cine. [Entrevista a] Lucas Martinelli. Imagofagia, p. 417-423, 2021.
    RISTOW, F. Longa português ‘O ornitólogo’ traz leitura profana de Santo Antônio. O Globo, 2017.
    SANTOS, R.T. Os estranhos corpos de Cristo: reflexões sobre mito, cinema e arte queer a partir de Pasolini, Jarman e Rodrigues. Dissertação. Universidade de São Paulo, 2022.