Ficha do Proponente
Proponente
- Luana Campos Ponchet (PPGCOM/UFS)
Minicurrículo
- Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe. Pesquisadora na área de Fotografia de Arquivo e Narrativas Audiovisuais, desenvolve pesquisas a partir do Arquivo Central da UFS, atuando na área de preservação e digitalização de arquivos institucionais em película. Integra o grupo de pesquisa Laboratório de Análise de Visualidade, Narrativas e Tecnologias (LAVINT/UFS) e Bordas da Imagem (UFMG).
Ficha do Trabalho
Título
- Entre o Esquecimento e a Persistência da Memória: Tecendo um Contra-Arquivo do FASC
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- A presente pesquisa propõe refletir os processos de memória através do arquivo fotográfico do FASC, criado em 1972, durante a ditadura militar. A partir de fotografias anônimas e lacunares é proposto a criação de um contra-arquivo através da metodologia elaborated images (Butet, Del Vecchio, 2025) onde há intervenções gráficas e relatos orais sobre as fotos. Com isso se espera resgatar narrativas e memórias dissidentes, transformando o arquivo institucional em um gesto de comunicação sensível.
Resumo expandido
- Em meados de 1972, o governo municipal de São Cristóvão realizou a primeira edição do Festival de Artes de São Cristóvão (FASC). Embora idealizado pela ditadura militar, o festival é apresentado como um respiro artístico frente à violência política e social da época, sendo documentado pelas mídias oficiais sergipanas com bastante intusiasmo desde seu surgimento. Vinculado inicialmente enquanto um projeto de extensão da Universidade Federal de Sergipe, o festival obteve grande sucesso de público, garantindo sua manutenção nas décadas conseguintes, acumulando diversas edições e marcando presença no cotidiano e imaginário do público anualmente. (Santos, 2014, p.11) A relação política de extensão universitária e o festival, favoreceu o surgimento de um rico acervo de fotografias das manifestações culturais, capturadas por fotógrafos institucionais da UF e arquivadas posteriormente no Arquivo Central da UFS, sob processos de arquivamentos anônimos e lacunares (Santos C dos, 2025).
Sob a égide desse contexto, a presente pesquisa encara a relação entre fotografias de arquivos institucionais e artes visuais, se utilizando do acervo em película do FASC para investigar como os processos de memória são manifestados através do contato com imagens, do conhecimento subjetivo e histórico de pessoas que fizeram parte da idealização do festival ou o vivenciam anualmente. Inspirado no método de elaboração de imagens, publicado em 2023, no artigo Elaborated images as decolonial praxis, desenvolvido pelas canadenses Butet-Roche e Del Vecchio, a metodologia aqui proposta incentiva os participantes a rasurar as fotografias por meio de desenhos, cores e principalmente a escrita, enquanto narra oralmente suas memórias e vivências com o festival através da junção entre oficina e entrevista, assim criando contra-arquivos do festival através de seus espectadores e aqueles que historicamente estiverem em uma posição passiva diante da objetiva (Azoulay, 2025).
Durante o preparo da dinâmica, foi incentivado a colocar a imagem em um suporte de papel A3 que permite uma borda, deixando um espaço além da imagem para a utilização de setas, símbolos e escritos (Butet-Roch, Del Vecchio, 2025, p.29). Além disso, todas as fontes produzidas durante essas oficinas, incluindo os registros das intervenções visuais, vão ser convertidas em documentos visuais e sonoros, com o objetivo de documentar o processo da construção desse contra-arquivo. Nesse contexto é possível visualizar os limites desse arquivo, não como um “dado, mas sim um status” (Mbembe, 2002, p. 20), trazendo narrativas soterradas/não enquadradas pelo obturador, que prioriza uma certa estética institucional. Em resultados analisados, foi possível detectar discursos políticos que remetem a época de captação da imagem, referente ao governo ditatorial, como exemplo “Em tempo de céu fechado, a arte é tinta”, intervenção gráfica de uma aluna da graduação do curso de jornalismo.
Para além de narrar uma contra história e um contra-arquivo sobre e através das visualidades institucionais do festival, o imbricamento entre arte visual e fotografia de arquivo funciona enquanto uma medida que conserva subjetividades, essas intervenções operam na lógica estética de visibilidade que revoga a grandeza da tradição representativa em detrimento de uma leitura dos signos que prioriza uma relação transversal na sociedade (Rancière, 2009, p. 50). Portanto, é nessa dupla articulação entre estética e política que o caráter lacunar e de anônimato das fotografias ganha força, transformando as lacunas informacionais de um arquivo, em novos gestos de comunicação sensível baseados em perspectivas dissidentes.
Visualização de um dos resultados imagético da oficina: https://drive.google.com/file/d/1guYCKJBOD_wd39Du6vI0f8v_7jr9sbDX/view?usp=sharing
Bibliografia
- AZOULAY, A.A. História potencial: desaprender o imperialismo. Ubu, 2024.
BUTET-ROCH, Laurence; DEL VECCHIO, Deanna. Elaborated images as decolonial praxis. Visual Studies, v. 39, n. 4, p. 732-747, 2024.
MBEMBE, Achille. The Power of the Archive and its Limits. In: HAMILTON, Carolyn et al. (org.). Refiguring the archive. Londre: Kluwer Academic Publishers, 2002. p. 19-26
SANTOS, Derian Conceição dos. Acervo fotográfico físico do Arquivo Central da Universidade Federal De Sergipe (UFS): inventário digital do Fundo Festival de Arte de São Cristóvão (FASC). 2025. 124 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Gestão da Informação e do Conhecimento) — Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2025.
SANTOS, Mislene Vieira dos, et al. Da ditadura à democracia: o Festival de Arte de São Cristóvão (FASC) e a política cultural sergipana (1972-1995). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Sergipe. São Cristóvão, 2014. Disponível em: https://ri.ufs.br/handle/riufs/564