Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Tiago de Jesus Santos Costa (UFPE)

Minicurrículo

    Tiago de Jesus Santos Costa é Doutorando em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e Bolsista do CNPQ. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema & Audiovisual pela mesma instituição. Realiza pesquisas sobre indústrias culturais, com enfoques na fonográfica e na audiovisual. Integra o GruPop (Grupo de Pesquisa em Comunicação, Música e Cultura Pop). Atua também como produtor executivo em projetos audiovisuais.

Ficha do Trabalho

Título

    Telenovela, sensibilidade camp e identificação queer

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    A telenovela é o produto audiovisual nacional mais consumido pelo público brasileiro. Em seus mais de 70 anos de história, sempre teve problemas em construir representações fidedignas da população LGBTQ+. No entanto, observa-se que sujeitos queer são um público fiel do gênero, para além da existência ou não dessas representações. Buscando entender quais elementos conectam esse público com as novelas, utiliza-se da hipótese de que a sensibilidade camp seja a responsável por esse entrelaçamento.

Resumo expandido

    As telenovelas têm uma dívida com a população queer. Em seus mais de 70 anos de história, elas têm falhado em construir representações fidedignas de sujeitos LGBTQ+. Exemplos de personagens que vão além de estereótipos ou da unidimensionalidade são raros, mesmo no contexto atual – onde as redes sociais tornam visíveis as defesas para essas histórias, apesar das temáticas ainda gerarem controvérsia (ALMEIDA; CAVALCANTI, 2018). No entanto, apesar desses problemas de representação, parece assertivo pontuar que a telenovela possui um amplo público queer, que mesmo sub-representado, se enxerga de outras formas nessas narrativas.

    Na busca por trabalhos científicos que tratem da relação entre o público LGBTQ+ com a telenovela, encontrei abordagens em torno de representações ou das culturas de fãs. Entretanto, pouca interpelação sobre o consumo por este grupo. Essa espectatorialidade depende exclusivamente da existência de representação queer nas novelas, ou há outras simbologias que aproximam esse público? É realmente necessário que uma trama tenha papéis LGBTQ+ para que seja, em si, um produto queer? Não há obras que penetram fortemente o imaginário queer, apesar de não incluírem esses personagens?

    Christian Gonzatti e Felipe Viero Kolinski Machado (2018, p. 248), ao ensaiarem sobre a performatividade de gênero de “crianças viadas” a partir da cultura pop brasileira, relembram alguns episódios de suas infâncias. Num deles, um menino brinca no quintal de casa imitando Isabela Ferreto (Cláudia Ohana), vilã da novela A Próxima Vítima (de Silvio de Abreu, 1995). Ele utiliza uma arma de brinquedo, que ganhou do pai como símbolo de masculinidade, mas subvertida a outro propósito: fingir ser Isabela assassinando a secretária Andreia (Vera Gimenez), tal qual ocorreu na trama da Rede Globo. Lembranças do tipo podem ser consideradas comuns as pessoas queer latino-americanas, uma vez que as novelas, para além de serem o produto audiovisual hegemônico dos países latinos, constituem fortemente o imaginário desse grupo social, sobretudo através das personagens mais dissidentes dessas narrativas: as vilãs.

    A conexão existente entre o público LGBTQ+ e as vilãs de novela, obviamente, não ocorre por endosso às ações dessas personagens, comumente criminosas, mas através de uma sensibilidade estética, o camp. Susan Sontag (1987), em seu mítico ensaio Notes On Camp, define o Camp de forma mais generalista como “uma maneira de ver o mundo como um fenômeno estético”, mas não através de beleza e sim do grau de artifício. O Camp, em essência, prefere o inatural, o exagerado, o frívolo. A autora faz 58 apontamentos a respeito dessa sensibilidade, que são exploradas ao longo do trabalho, mas uma delas tem maior destaque: a afinidade existente entre a homossexualidade com o gosto camp. Relação essa que foi adensada no pensamento de Jack Babuscio (1993), que conceitua também a interconexão entre o camp e uma “sensibilidade gay” – ou queer.

    Nesta proposta, se objetiva refletir sobre a relação entre o público queer com as novelas. Parto da questão de quais elementos conectam essas produções com o público LGBTQ+, com a hipótese de que suas vilãs possuem diversos elementos que podem ser entendidos como camp, despertando então essa sensibilidade estética associada ao imaginário queer. Para isso, realizo uma revisão bibliográfica dos estudos do camp e da telenovela. Depois, busco criar conexões entre essa sensibilidade estética com as vilãs de novelas, a partir da análise de como o camp se manifesta através da composição narrativa e imagética de uma vilã específica: a Nazaré Tedesco (Renata Sorrah) de Senhora do Destino (de Aguinaldo Silva, 2004). Por fim, observa-se ainda a recepção e impacto dessa personagem para o público LGBTQ+.

Bibliografia

    ALMEIDA, Cecília; CAVALCANTI, Gêsa. Fãs, representação e ativismo: shipping de casais homoafetivos na teledramaturgia da Rede Globo. Revista Ícone, 16(1), 100-119, 2018.

    BABUSCIO, Jack. The cinema of camp (AKA: camp and the gay sensibility). In: BERGMAN, David (Org). Camp grounds: style and homosexuality. Massachusetts: University of Massachusetts Press, 1993.

    FERNANDES, Ismael. Memória da Telenovela Brasileira. São Paulo: Proposta Editorial, 1982.

    GONZATTI, Christian; KOLINSKI MACHADO, Fernando. Notas sobre o espalhamento da criança viada na cultura pop digital brasileira. Revista Periódicus, 1(9), 248–267, 2018.

    LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

    LOPES, Maria Immacolata (org.). Telenovela: internacionalização e interculturalidade. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

    SONTAG, Susan. Notas sobre o camp. In: ______. Contra a interpretação. Porto Alegre: L&PM, 1987.