Ficha do Proponente
Proponente
- Bernard Belisário (UFSB)
Minicurrículo
- Pesquisador e professor de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Formação acadêmica na UFMG: Graduação – Rádio/TV e Jornalismo; Pós-Graduação – Comunicação Social. Atuação profissional: PUC-TV / TV Horizonte; AIC – Agência de Iniciativas Cidadãs; Fundação Municipal de Cultura de BH; CECIP – Centro de Criação da Imagem Popular; Rede Minas de Televisão; Associação Vídeo nas Aldeias. Colaborador internacional dos Laboratórios de História Indígena da UNAM (México).
Ficha do Trabalho
Título
- Escutar o sussurro dos relâmpagos com o cinema Kaiowá
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- Neste trabalho pretendemos realizar uma análise da sequência final do filme “A Terra do Povo do Raio” (Ava Ivy Vera) (2016, 52min.), de Genito Gomes e dos integrantes do coletivo de cinema Guarani e Kaiowá do Tekoha Guaiviry, a partir de uma decupagem das camadas e dos elementos que compõem sua paisagem sonora; assim como de suas relações com o campo visual da sequência.
Resumo expandido
- Neste trabalho pretendemos realizar uma análise da sequência final do filme “A Terra do Povo do Raio” (Ava Ivy Vera) (2016, 52min.), de Genito Gomes e dos integrantes do coletivo de cinema Guarani e Kaiowá do Tekoha Guaiviry, a partir de uma decupagem das camadas e dos elementos que compõem sua paisagem sonora; assim como de suas relações com o campo visual da sequência.
Ao final do filme “A Terra do Povo do Raio”, após uma sequência animada de danças e de cantos, sob um vento intenso e um céu fechado por nuvens carregadas, escutamos as vozes das crianças na última roda de kotyhu se dispersar em uma paisagem sonora que segue ressoando alegria nos seus murmúrios. Da completa escuridão, um ponto de luz desfocado cintila delicadamente à distância, e vai ganhando a figura de uma pequena comunidade em volta da fogueira. Antes mesmo que o enquadramento pudesse encontrar uma medida justa pela luz cintilante da fogueira, um relâmpago ilumina o céu, carregado de nuvens no horizonte descampado, fazendo destacar outras presenças em campo. Os estampidos agudos das primeiras gotas da chuva sobre a folhagem seca parecem destoar da gravidade da tempestade que se aproxima. Na medida em que os trovões não ressoam no espaço sonoro do filme, parece que se amplia a distância do espectador ao lugar de onde partem os relâmpagos que reluzem no horizonte, entretanto, a conversa do rezador, Nhanderu Sr. Valdomiro Flores, lança o ouvinte ao presente do relato e das visões do “lugar do raio sem fim”, ponto de culminância e início do canto-reza (Mburahei Puku) relacionado ao lugar celeste chamado Ivanga, onde os parentes se encontram e se pintam depois que morreram. Antes de começar o percurso deste Canto-Reza dos Relâmpagos, Nhanderu Valdomiro Flores apresenta a ascensão, passo a passo, até o topo do céu, ao longo de três “acidentes” (“ondas de brilho”) que se interpõem neste percurso cantado. Enquanto ondas de relâmpagos rasgam o escuro pesado do céu de tempestade, escutamos o chocalho do Nhanderu que parece restituir, à dinâmica sonora do filme, suas frequências mais graves (que passaram a faltar desde que os trovões e o vento não mais ressoaram). Acompanhado do seu aprendiz, Valdomiro Flores canta de maneira quase sussurrada o início da trajetória espiralada do canto-reza que leva o Nhanderu junto ao povo Relâmpago (Overava) em direção ao alto do céu. Da completa escuridão, um ponto de luz desfocado brilha distante como se se tratasse de um planeta solitário. Na medida em que caminha ou direciona sua lente para a fonte de luz, vemos as brasas de uma fogueira que restam acesas. Como se houvéssemos voltado ao lugar da fogueira outrora povoada por crianças e por povos Relâmpago.
Este filme é resultado das oficinas de formação audiovisual ministradas alguns anos antes, no contexto de um projeto de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais no Tekoha Guaiviry, em Aral Moreira, no Mato Grosso do Sul. As oficinas de filmagem foram conduzidas por Fábio Costa Menezes e Guilherme Cury; e as oficinas de montagem por Luísa Bahury Lanna e Alessandra Giovanna.
Nesta apresentação, pretendemos caracterizar a dinâmica de deslocamentos do espectador na sequência final do documentário “A Terra do Povo do Raio”, fundamentada em uma pequena disjunção entre o espaço sonoro e seu campo visual, que acaba por resultar em variações na escala e na posição do ouvinte-espectador ao longo da sequência, sugerindo um movimento em espiral.
Bibliografia
- BELISÁRIO, Bernard. Valmir e o Tajy. In Catálogo do 6º Cine Kurumin – Festival de Cinema Indígena, Salvador: Cine Kurumin, 2017, pp 82-85.
BENITES, Antonio Carlos. Mba’e Kuaa Vusu/Nhane Ramõi Jusu Papa ha Nhande Ru Vusu Rembiapo: A topologia do cosmo kaiowá e da construção de donos e guardiões dos conhecimentos. Dissertação de mestrado do PPG Antropologia. Dourados/MS: UFGD, 2022.
BRASIL, André. Mirada do invisível: limiares dos cinemas indígenas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2025.
OLIVEIRA, Luciana. Palavra-Raio: Tradução Intermundos. Revista Raído v. 18, n. 45 (Revisitando a “Carta Guarani Kaiowá”: repercussões, retomadas). Dourados/MS, 2024, p. 74-90.
STAM, Robert. Indigeneity and the Decolonizing Gaze: transnational imaginaries, media aesthetics, and social thought. London: Bloomsbury, 2023.