Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Andressa Gordya Lopes dos Santos (UNICAMP)

Minicurrículo

    Andressa Gordya é doutora e mestra em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, dedicando suas pesquisas à atriz e cineasta Norma Bengell, ao apagamento histórico de mulheres no cinema e violência feminina. É graduada em Cinema e Vídeo Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), cursou Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Formada técnica em Produção Audiovisual (Rádio,TV e Cinema) e em Arte Dramática pelo Colégio Estadual do Paraná (CEP).

Ficha do Trabalho

Título

    Corpo, rosto e silêncio na atuação de Norma Bengell em Os Cafajestes e Noite Vazia

Resumo

    Este trabalho analisa a atuação de Norma Bengell no início dos anos 1960, em Os Cafajestes e Noite Vazia, e sua transição entre dois regimes de presença: da exposição violenta do corpo à construção de um rosto opaco e hermético que tensiona a cena. Parto do diálogo com Nathalie Granger (1972) e Bad Guy (2001) para investigar como a conduta taciturna de sua personagem Mara, em Noite Vazia, é capaz de inquietar e desestabilizar os outros personagens em cena.

Resumo expandido

    Neste trabalho proponho uma análise da atuação de Norma Bengell no início da década de 1960, a partir de suas performances em Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra, e Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri. Trata-se de um recorte de uma trajetória artística extensa, compreendendo esse momento inicial como parte de um processo de refinamento de seu trabalho atoral, anterior às experimentações formais, políticas e estilísticas que marcariam sua carreira nas décadas seguintes.

    Parto da hipótese de que, nesses filmes, a atuação de Bengell articula uma passagem entre dois regimes de presença em cena: de um lado, a exposição vertiginosa e violenta do corpo; de outro, a construção de um rosto opaco, no qual o olhar não se oferece à interpretação imediata.

    Em Os Cafajestes, o corpo nu de Leda, sua personagem, é capturado e abatido pelo dispositivo fílmico – tanto do diretor, Ruy Guerra, quanto de Vavá, personagem de Daniel Filho – com tal brutalidade, que mobilizar o conceito de câmera-arma, de Carlos Eduardo Pinto (2013), torna-se necessário. A câmera em Os Cafajestes é transformada em arma quando o ato de filmar torna-se um gesto de violência e dominação, inscrevendo atriz e personagem em um regime de exposição que articula desejo, poder e humilhação.

    Já em Noite Vazia, observa-se um deslocamento decisivo: embora a personagem Mara pareça conformada com seu ofício de garota de programa, a recusa – não de seu corpo, mas do acesso à sua interioridade – tensiona a cena ao frustrar expectativas de sua completa submissão. Seu olhar indagador e conduta taciturna, desestabilizam os personagens, incapazes de apreender seus reais pensamentos ou desejos.

    Este estudo mobiliza as contribuições dos estudos atorais e da teoria do cinema para pensar a forma como Norma se constrói, e é construída, em cena. Dialoga com Pedro Maciel Guimarães (2016) no que se refere ao close-up e à fotogenia, compreendida como efeito de intensificação perceptiva do rosto, e com Mikhail Iampolski (1994), cujo conceito de “rosto-máscara” permite compreender a suspensão do psicologismo.

    Nesse contexto, a noção de fisiognomonia, também mobilizada por Guimarães, permite pensar como a atriz tem seus traços e expressões intensificados — ou mesmo suprimidos — por meio do enquadramento, da iluminação e da maquiagem. Em Noite Vazia, Khouri mobiliza esses recursos para produzir uma presença quase intocável, em que o jogo de luz e sombra e o delineado escuro da maquiagem engendram uma expressão simultaneamente ferina e sublime.

    Para aprofundar a discussão sobre o silêncio e o olhar de Mara como mecanismo de resistência e agência, mesmo em condições em que sua docilidade é paga por hora, estabeleço um diálogo comparativo com Nathalie Granger (1972), de Marguerite Duras, e Bad Guy (2001), do cineasta sul-coreano Kim Ki-Duk. Em Duras, o silêncio emerge como estratégia feminina frente à compulsão masculina pela verbalização. O silêncio de suas personagens não é passividade, mas um estado de suspensão entre ações, sugerindo formas de resolução de conflitos que não passam pela linguagem. Em Kim, por sua vez, a personagem Sun-Hwa, exposta a um regime de violência e voyeurismo, recolhe-se a um espaço interior que escapa ao controle do agressor, negando-lhe o acesso pleno ao seu corpo e à sua subjetividade

    Articulando corpo, rosto e silêncio, este trabalho propõe analisar a atuação de Norma Bengell, nesse momento inicial de sua carreira, como um campo de tensão no qual a atriz não apenas encarna personagens, mas produz uma presença que inquieta, desloca e resiste à objetificação plena pelo olhar da câmera.

Bibliografia

    BENGELL, Norma. Norma Bengell. São Paulo: nVersos Editora, 2014.
    CARMO, Isabel. Rosto, espelho, tela: reflexões sobre o cinema de Walter Hugo Khouri. Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento, v. 6, n. 2, p. 115-132.
    GARDIES, A. O ator no sistema textual do filme. Revista Eco-Pós, [S. l.], v. 22, n. 1, p. 9–44, 2019.
    GUIMARÃES, Pedro. No rosto lê-se o homem: a fisionomia no cinema. Significação: revista de cultura audiovisual, v. 43, n. 46, jul-dez 2016, p. 85-105.
    IAMPOLSKI, M. “Visage-masque et visage-machine”. In. ALBERA, F. (org.). Vers une thé-orie de l’acteur. Lausanne: L’Age d’Homme, 1994.
    LAURETIS DE, Tereza. Através do espelho: Mulher, Cinema e Linguagem. Revista Estudos Feministas, Ano 1, n. 1, p. 96-122, 1993.
    PINTO, Carlos Eduardo Pinto de. Câmera-arma: a representação das funções sociais da fo-tografia em Os cafajestes (Ruy Guerra, 1962). Revista Brasileira de História da Mídia, v. 2, n. 2, 2013.