Ficha do Proponente
Proponente
- Victor Cardozo Barbosa (Independente)
Minicurrículo
- Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Multimeios pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pesquisador de cinema, crítico, cineclubista e curador.
Ficha do Trabalho
Título
- Os anos de formação comédia romântica Hollywoodiana (1917-1929)
Resumo
- Este trabalho pretende estudar a lacuna genealógica entre os primeiros traços de surgimento da comédia romântica hollywoodiana no cinema mudo até o seu momento de eclosão no início do cinema sonoro. A partir de um mapeamento histórico dos marcos do período, combinada a uma análise da evolução formal desses filmes, bem como da observação de suas recorrências temáticas, pretende-se estabelecer as bases para a explosão do gênero na década de 30.
Resumo expandido
- O que propomos aqui é mapear uma lacuna genealógica da comédia romântica na história do cinema. Embora o marco da comédia romântica seja comumente situado no início do sonoro, há um pouco comentado caminho entre os traços do gênero que já se delineiam nos primeiros longa-metragens de gêneros mais joviais como western e aventura a partir de 1917, ano de consolidação de um cinema clássico hollywoodiano (Bordwell, 1987) e o lançamento do filme que inaugura a comédia romântica como gênero no cinema sonoro, Alvorada do Amor (The Love Parade, Ernst Lubitsch, 1929).
Um primeiro passo metodológico é identificar precursores e momentos de inflexão nesse intervalo um tanto desregrado entre a consolidação dos gêneros cinematográficos no cinema mudo e o início do sonoro. É preciso levar em consideração as inovações estilísticas que foram ganhando espaço num período de franca experimentação do cinema narrativo para que possamos ter o contraponto das negociações formais feitas para reajustar esses ganhos de liberdade com as diferentes possibilidades trazidas com a chegada do som. De início, os elementos de comédia romântica dividem espaço com as revelações morais e interdições sociais do melodrama, bem como os estímulos sensoriais do filme de aventura e do western. Seu ponto de partida e organização formal é sempre o da inferência. Em convergência com essa sistematização da forma, é possível também acompanhar as recorrências temáticas principais desse grupo de filmes que se propõe a fazer rir com os desejos – físicos e espirituais – de seus personagens diante de um público que também sofria mudanças vertiginosas entre o pós guerra e a Grande Depressão.
No cinema, a comédia romântica costuma ser compreendida através de ciclos. Por mais que certas formas sejam transmitidas até hoje, remontando às comédias gregas da antiguidade (Frye, 2000), as metamorfoses fílmicas da comédia romântica são forjadas severamente nos imperativos de produção e público. Leger Gridon (2011) identifica conjuntos históricos que vão desde a transição para o sonoro (1930-1933) até o “grotesco e ambivalente presente”. O marco de consolidação definitiva do gênero é Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, Frank Capra, 1934), ponta de lança um ciclo de comédias românticas de sucesso que definiram os parâmetros mais populares do gênero em Hollywood. Por sua vez, o código Hays, autocensura da indústria pensado para evitar censuras externas, começa a vigorar de fato no mesmo ano de 1934.
Os anos do cinema sonoro Hollywoodiano “pré-código” guardam alguns dos momentos mais arrojados de sua história, talvez com especial escândalo na comédia, que por um intervalo relativamente breve e intenso é caracterizada por incursões num universo de franqueza sexual (mas também política e social) raramente visitado desde então (Greene, 2010). O que se pretende traçar aqui, é como esse universo teve seus primeiros lampejos em sub-tramas amorosas dos primeiros longas de Chaplin, Keaton e Lloyd, ganhou forma nas primeiras comédias eróticas mudas de Cecil B. De Mille, e afinal se aperfeiçoou num estilo de inferência e sofisticação com a chegada de Lubitsch aos Estados Unidos.
No período anterior ao código, a partir da proliferação de comédias em longa metragem (que requisitavam muitas vezes a inclusão de uma trama romântica que ajude a dar coesão às trocas de identidade, perseguições e gags), acontece uma gradual negociação, de moral e de gosto, do que pode e não pode ser alvo da comédia nos assuntos da sexualidade e das relações amorosas. Se observamos atentamente este período, percebemos que a relação entre os filmes pré e pós 34 é menos de ruptura do que de continuidade estilística e temática. E apesar da exuberância de variações que seguem o sucesso de Aconteceu Naquela Noite, o fato é que esse gênero já tinha exemplares bem-acabados na década de 20. É essa relação de continuidade e metamorfose que pretendemos investigar.
Bibliografia
- BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. The Classical Hollywood Cinema: Film Style and Mode of Production to 1960. New York: Columbia University Press, 1985.
FRYE, Northrop. Anatomy of Criticism: Four Essays. Princeton: Princeton University Press, 2000.
GREENE, J. M. Hollywood’s Production Code and Thirties Romantic Comedy. Historical Journal of Film, Radio and Television, 30(1), 55–73., 2010.
GRINDON, Leger. The Hollywood Romantic Comedy: Conventions, Sensibility and Sensibility. Oxford: Wiley-Blackwell, 2011.
HARVEY, James. Romantic Comedy in Hollywood: From Lubitsch to Sturges. New York: Alfred A. Knopf, 1987.
THOMPSON, Kristin. Herr Lubitsch Goes to Hollywood: German and American Film After World War I. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2005.
YOUNG, Kay. Hollywood, 1934: “Inventing” Romantic Comedy. Newark: University of Delaware Press, 2012.