Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Guilherme Gonçalves da Luz (UFRGS)

Minicurrículo

    Pós-doutorando em Comunicação no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS, Mestre e Doutor pelo mesmo Programa. Integrante do Grupo de Pesquisa Semiótica e Culturas da Comunicação (GPESC) e do Grupo de Pesquisa Agenciamentos da Imagem (GPAGI). Coordenador de Comunicação da Secretaria de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Coordenador do Programa EPEC Laboratório de Mídias Indígenas (LAMINDI FURG).

Ficha do Trabalho

Título

    SONORIDADES CIGANAS E O NOMADISMO INTENSIVO: O tempo e a música no cinema de Emir Kusturica

Resumo

    A função da música cigana no cinema do sérvio-balcã Emir Kusturica desvencilia-se do mero adorno folclórico às imagens, pois atua como elemento acionador de um “nomadismo intensivo”. No nomadismo extensivo, os deslocamentos físico-territoriais produzem diferenças de grau, a mobilização de afecções sonoras produz diferenças de natureza, que carregam as imagens à pura duração. A disjunção entre os planos visual e sonoro desterritorializa a narrativa, erigindo um devir-nômade da imagem.

Resumo expandido

    A eclosão do cinema balcânico entre as décadas de 1980 e 1990 coincidiu com trágico esfacelamento dos Estados Socialistas e a reconfiguração geopolítica do Leste Europeu. Em meio a essa desintegração, as multidões ciganas (cultura “romani”) — marginalizadas e submetidas a constantes migrações — entraram na mira da recem surgida cena do cinema balcã, cujo principal expoente foi Emir Kusturica. Atuando também como músico de *Gypsy Rock*, Kusturica absorveu as estruturas da música cigana, marcadas pela fuga do centro tonal ocidental, modulações contínuas, microtonalismos e uso de instrumentos atípicos. A música não ilustra pacificamente as cenas, mas age de forma anárquica e disruptiva. Filmes como “O Tempo dos Ciganos” (1988) e “Underground: Mentiras da Guerra” (1995) convertem o desmoronamento das fronteiras em matéria-prima de uma nova estética, onde os arranjos sonoros constituem autênticos territórios existenciais em meio à dispersão. A pesquisa orienta-se pela seguinte questão: De que modo a música cigana, no cinema de Emir Kusturica, atua como operador estético capaz de forçar a passagem de um “nomadismo extensivo” (marcado por deslocamentos físicos e imagens-movimento) para um “nomadismo intensivo” (marcado pela duração pura das imagens-tempo)? Busca-se compreender como a introdução de modulações e afecções sonoras ciganas subverte as territorialidades visuais, substituindo as “diferenças de grau” (numéricas e descontínuas do espaço topológico) pelas “diferenças de natureza” (qualitativas, contínuas e heterogêneas no tempo puro da duração). A sustentação teórica do trabalho articula a filosofia da diferença de Gilles Deleuze (e Félix Guattari) com a teoria do cinema: Dois regimes de Nomadismo e Multiplicidade: O nomadismo pode ser apreendido sob duas dimensões. A dimensão “extensiva” é descontínua, quantitativa, espacial e opera por diferenças de grau. É o deslocamento geográfico dos aglomerados humanos pelo espaço geogrficamente localizavel das migrações. A dimensão “intensiva”, por sua vez, é contínua, virtual, qualitativa e opera por diferenças de natureza, apresentando-se como duração pura (DELEUZE, 2006). Deleuze e Guattari postulam que o nômade autêntico produz seu território na e pela “desterritorialização”. O cinema que se atém ao nomadismo extensivo e aos deslocamentos lógicos organiza-se pelo regime da “imagem-movimento” (esquema sensório-motor, representação orgânica) (DELEUZE, 2009). Contudo, quando o plano sonoro (música cigana) adquire autonomia e impõe uma modulação que foge à apreensão tonal, gera-se um choque disjuntivo com a imagem, instaurando “situações óticas e sonoras puras”, características do regime da “imagem-tempo” (DELEUZE, 2006). A pesquisa caracteriza-se como analítico-interpretativa, procedendo à desmontagem fílmica para separar e analisar as relações entre os planos sonoro e visual nas obras de Kusturica. A análise foca em como os “agenciamentos menores” e as matérias sonoras produzem o nomadismo intensivo. 1) Em “O Tempo dos Ciganos (1988):” será investigada a sequência em que o plano visual exibe um vilarejo lamacento e sedentário (um território perfeitamente delimitado no espaço extensivo), enquanto o plano sonoro introduz a melodia de um banjo com modulações e saltos tonais irregulares. Observa-se como essa instabilidade musical (fuga do centro tonal ocidental) desterritorializa a imagem, criando um espaço-tempo aberrante onde se produz o verdadeiro nomadismo intensivo. 2) Em “Underground (1995):” analisaremos a emblemática cena final, em que um enorme bloco de terra se desprende do continente e fica à deriva. Apesar do forte nomadismo telúrico e visual, é a música cigana (um coro caótico de vozes ladeado por um “continuum” ruidoso e microtonal) e a orquestra infatigável que imprimem a força motriz vital, ditando o ritmo vertiginoso do caos. Avalia-se como essa sonoridade converte a anomalia geográfica em uma autêntica “morada” nômade através do ritornelo musical.

Bibliografia

    BETELLA, Gabriela Kvacek. Bela fábula, bela agonia: história e sonho em Underground, de Emir DELEUZE, Gilles. Cinema II: a imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.
    DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
    ______, Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 2012.
    LEAL, Miguel. Dez anos depois: o regresso de Clausewitz. Copyright – revista electrónica de pensamento, crítica e criação, Corunha, n. 73, maio 1999. Disponível em: http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait/sr073.htm.
    SOARES, Leonardo Francisco. Leituras da Outra Europa: guerras e memórias na literatura e no cinema da Europa Centro-Oriental. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006
    Kusturica. In: VISALLI, Angelita Marques; PELEGRINELLI, André Luiz Marcondes; GODOI, Pamela Wanessa (Orgs.). Anais do V Encontro Nacional de Estudos da Imagem [e do] II Encontro Internacional de Estudos da Imagem. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2015. p. 47-55.