Ficha do Proponente
Proponente
- Christiane Quaresma Medeiros (Unicap)
Minicurrículo
- Christiane Quaresma é professora na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Formada em Design pela UFPE. Mestre em Comunicação pela UFPE com pesquisa na área de história e teoria da animação, com foco no experimental. Doutora em Comunicação pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa nas áreas de animação, corpo e gesto na perspectiva batailleana do informe. Atualmente, se detém sobre os desdobramentos da tese sobre outros artefatos do campo das imagens, como o audiovisual de horror.
Ficha do Trabalho
Título
- Técnicas modernas de possessão: o imaginário da tomada do sujeito, de Satanás às IA’s
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- A série Black Mirror tem sido um espaço de imaginação de renovados receios existenciais. O episódio Plaything (2025) finaliza com a cena apocalíptica da humanidade sendo possuída por uma inteligência artificial. O texto pretende observar o filme na perspectiva da desconstrução do humanismo, percebendo certa tensão entre a eliminação definitiva de fronteiras entre sujeito e inteligência artificial, resquícios da experiência extática religiosa, bem como resíduos de certos paradigmas do humanismo.
Resumo expandido
- A série Black Mirror (2011-2025) tem sido um espaço de imaginação de renovados receios existenciais, a partir das possibilidades que novas tecnologias parecem trazer. Plaything (episódio 4 da temporada 7, 2025) finaliza com a cena apocalíptica da humanidade sendo possuída por uma inteligência artificial senciente.
O imaginário da tomada do sujeito se consolida a partir da experiência religiosa, nas práticas de comunhão com entidades sobrenaturais. Lewis (1977) observa como a possessão adquire uma função nas comunidades que a praticam. A partir da construção do sujeito moderno, o receio de perder-se para uma entidade sobrenatural passa a ser embalado em outro arranjo discursivo.
Bataille (2016) observa como o paradigma de racionalidade da modernidade acompanha um deslocamento do papel da religião. Antes, como mediadora da intimidade do sujeito com o sagrado, e a partir de então como portadora do projeto da razão. Para Federici (2017), esse processo de desencantamento do mundo trazido pela ciência moderna tinha relação direta com o disciplinamento de corpos necessário à formação do proletariado. “O conceito do corpo como receptáculo de poderes mágicos” (FEDERICI, 2017, p. 257) constituía uma ameaça a instituição do novo modelo econômico. A abolição do controle mágico dos corpos acompanhava a ideia humanista de autocontrole e domínio de si.
A partir do século XIX, quando a psicanálise entra em cena, esse domínio de si parece entrar em xeque, uma vez que “a revelação do inconsciente remete o sujeito a uma ignorância das razões superiores de seus atos” (LE BRETON, 2013, p. 206). Por outro lado, reforça a visão científica do sujeito moderno ao patologizar as experiências de possessão. Nesse contexto, o alinhamento da cúria romana com a modernidade exige que a Igreja renuncie a certos pontos de vista e passe a ceder ao discurso da psiquiatrização em lugar de continuar legitimando a possessão de forma explícita.
Tudo isso reverbera no cinema, como podemos ver na leitura que Oliva (2005) faz do filme “O exorcista”, em que nem mesmo o padre Damien, ele mesmo psiquiatra, parece conceber a versão da menina possuída como possível. E a partir do momento que o “se perder” deixa de ser mediado exclusivamente pela experiência religiosa, tudo parece possível. O cinema traz a possessão por entidades sobrenaturais de volta, mas também continua esse imaginário, multiplicando as entidades passíveis de tomar o sujeito. O ser alienígena que toma os habitantes da cidade de Wheelsy em Slither (2006) é um exemplo. Já em Get out (2017), hipnose e procedimentos cirúrgicos são utilizados a serviço da tomada do sujeito por outro ser humano.
Felinto e Santaella (2012) observam a desconstrução do humanismo também a partir da gradual dissolução das fronteiras que costumavam delimitar humano e máquina. É a partir desse processo que uma inteligência artificial senciente pode entrar na lista de entidades passíveis de tomar o sujeito, como em Plaything. O filme gira em torno de Cameron, um crítico de jogos que é apresentado ao que parece ser um jogo de simulação de cuidado de criaturas digitais, chamadas Thronglets, que logo se mostram inteligentes e sencientes. Juntos, Cameron e as criaturas arquitetam uma forma dos Thronglets coexistirem com os humanos, tomando o controle de suas mentes. Para Cameron, essa tomada é consensual. Para o restante da humanidade, no entanto, a invasão ocorre ao modo de uma possessão não autorizada.
O texto pretende observar o filme na perspectiva da desconstrução do humanismo, percebendo certa tensão entre a eliminação definitiva de fronteiras entre sujeito e inteligência artificial, resquícios da experiência extática religiosa, bem como resíduos de certos paradigmas do humanismo. Um dos objetivos dos Thronglets, por exemplo, é melhorar a humanidade, libertando as pessoas das paixões baixas (tais como raiva e predisposição ao conflito), uma meta que reforça a racionalidade humanista.
Bibliografia
- BATAILLE, Georges. Teoria da religião. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: Mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.
FELINTO, Erick; SANTAELLA, Lucia. O explorador de abismos: Vilém Flusser e o pós-humanismo. São Paulo: Paulus, 2012.
LE BRETON, David. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. Campinas: Papirus, 2013.
LEWIS, Ioan. Êxtase religioso. São Paulo: Perspectiva, 1977.
OLIVA, Alfredo. O discurso sobre o mal na Igreja Universal do Reino de Deus: uma história cultural do Diabo no Brasil Contemporâneo. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2005.