Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Helena Souza Neves Frade da Cruz (PUC-Rio)

Minicurrículo

    Doutoranda em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens da UFJF, instituição na qual também concluiu as graduações em Cinema e Audiovisual e em Artes e Design. Tem interesse pelas intersecções entre Artes, Cinema, Literatura, Filosofia, Educação e Comunicação. Suas pesquisas atuais se voltam às práticas contemporâneas de escrita, articulando modos de intervenção, escuta e relação nas artes.

Ficha do Trabalho

Título

    Correspondência, ruptura e relação em poéticas audiovisuais a partir da escrita-postal

Resumo

    A comunicação apresenta a escrita-postal como operador teórico e poético para pensar obras visuais e audiovisuais contemporâneas que mobilizam gestos de correspondência e relação. A partir de trabalhos de Aline Motta, Paulo Nazareth e da série de vídeo-cartas “Nhemonguetá Kunhã Mbaraeté”, investiga-se como essas práticas instauram espaços coletivos de conversa e confrontam lógicas moderno-coloniais de individuação e separação.

Resumo expandido

    Esta comunicação apresenta a escrita-postal como operador teórico e poético em elaboração no âmbito de uma pesquisa de doutorado em andamento, capaz de acionar diálogos acerca de certas produções artísticas contemporâneas visuais e audiovisuais que procedem com gestos de correspondência, acordando-as enquanto paisagens de relação.
    A escrita-postal refere-se a obras que sugerem práticas dialógicas contranarrativas, permitindo que este gesto de escrita seja pensado como uma espécie de “poética conjunta” (Glissant, 2024) que provoca uma relação tripartite eu-outro-nós. Nessa perspectiva, a escrita extrapola o âmbito textual e abrange dimensões visuais, sonoras e táteis, articuladas aos campos artístico, literário e social.
    O gesto artístico de correspondência pode estar vinculado a uma necessidade de envolvimento e afetação que atravessa urgências políticas e sociais, como as crises climáticas, os conflitos geopolíticos, as fixações identitárias (Hall, 2015), as subjugações globais (Silva, 2022), as diferenças culturais (Canclini, 2008), as fragmentações sociais e a intensificação do ódio e do brutalismo (Mbembe, 2021), entre outras paisagens contemporâneas. Quando a brutalidade se torna diretamente produtiva — não apenas na violência exercida contra as pessoas e a terra, mas ao fazer com que elas próprias gerem riqueza —, a imposição da individuação se revela como um instrumento de segregação e separação, a serviço do capitalismo racial (Moten; Harney, 2024). Sendo assim, essa prática de escrita pode ser pensada como uma tática coletiva, que se quer possível para as artes, onde certas obras buscam instaurar esse espaço de conversa. Tal perspectiva aproxima-se de um modo de escrita que, por vezes, procede com a opacidade, efemeridade e precariedade, que ocorre de maneira periférica, descentralizada, subterrânea, pelas bordas do cotidiano e do espaço público, introduzindo outras cosmopercepções a partir de obras que procuram burlar estes sintomas.
    Para esta comunicação, articula-se o seguinte recorte de obras: a série de vídeo-cartas “Nhemonguetá Kunhã Mbaraeté” (2020), de Michele Kaiowá, Graciela Guarani, Patrícia Ferreira Pará Yxapy e Sophia Pinheiro; as vídeo-instalações “Pontes sobre abismos” (2017) e “A água é uma máquina do tempo” (2023), de Aline Motta; e a série fotográfica “Notícias de América” (2012), de Paulo Nazareth. A pesquisa busca pensar como esses trabalhos constroem intenções de conversa atravessadas por demandas coletivas e como tais gestos podem confrontar um projeto moderno-colonial pautado na individuação e separação dos laços sociais.
    A partir do diálogo entre este conjunto de proposições artísticas e os conceitos de Relação (Glissant, 2021), confluência (Santos, 2023) e implicabilidade (Silva, 2024), elabora-se sobre uma escrita-postal como um modo radical de partilha, procurando investigar o que transborda quando essas obras reconfiguram uma certa experiência coletiva ao ensaiar outros modos de vida e/ou de intervenções nela.

Bibliografia

    CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4. ed. São Paulo: EDUSP, 2008.
    GLISSANT, Édouard. Poética da relação. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
    GLISSANT, Édouard; OBRIST, Hans Ulrich. Conversas do arquipélago. Cobogó, 2023.
    HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2015.
    MBEMBE, Achille. Brutalismo. São Paulo: N-1 edições, 2021.
    MOTEN, Fred. HARNEY, Stefano. Notas Conversacionais sobre uma Conversa entre Jandir Jr. e viníciux da silva. In: JR, Jandir. e SILVA, viníciux da. Arquivo, recusa e protesto: uma conversa sobre crítica institucional. Tilápia Azul. 2024. . Acesso: 20/04/2026.
    SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
    SILVA, Denise Ferreira da. A Dívida Impagável. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
    _______. Homo Modernus: Para uma ideia global de raça. Rio de Janeiro: Cob