Ficha do Proponente
Proponente
- Milton do Prado Franco Neto (UNISINOS)
Minicurrículo
- Doutor em Comunicação Social pela PUCRS, com bolsa parcial da CAPES, e estágio doutoral na Université Paul-Valéry Montpellier 3, bolsa CAPES-Print; mestre em Film Studies pela Concordia University; e bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela UFRGS. É professor e coordenador do Curso de Realização Audiovisual da Unisinos, onde ministra disciplinas de montagem, cinema experimental e crítica. Foi editor da revista Teorema. É sócio da produtora Rainer Cine, onde atua como montador e produtor.
Ficha do Trabalho
Título
- As Praias de Carlão: fuga, utopia e exílio no litoral dos filmes de Carlos Reichenbach
Seminário
- Cinema e Espaço
Resumo
- Esta comunicação pretende examinar as maneiras pelas quais a praia aparece em oito dos 15 longas-metragens do cineasta Carlos Reichenbach. Para além de colocar o litoral em oposição à cidade grande, propomos aqui identificar as formas pela qual essa paisagem figura em cada filme. Finalmente, demonstraremos como essas formas, com origem no próprio cinema brasileiro, se filiam a uma tradição romântica identificada com as vanguardas ao reinventarem ficcionalmente uma paisagem pessoal do autor.
Resumo expandido
- Esta comunicação faz parte de uma pesquisa em andamento sobre a obra de Carlos Reichenbach. Carlão, como também era conhecido, nasceu em Porto Alegre, mas foi em São Paulo que viveu e criou seu cinema. Em filmes como Anjos do Arrabalde, Filme Demência e Alma Corsária, é evidente a importância dada por ele à geografia paulistana, do centro à periferia. Menos investigada, no entanto, é a forte presença da praia em seus filmes, paisagem de sete dos 15 longas que dirigiu.
A aparição litorânea pode ser pontual, como metáfora da possibilidade de escape político em Alma Corsária (1993), como momento de lazer em Anjos do Arrabalde (1987), ou como solução da crise existencial em Filme Demência (1986). Em outros filmes, o ambiente praiano amplia sua importância na trama e na duração, como em Dois Córregos (1999), até praticamente tomar conta da narrativa em A Ilha dos Prazeres Proibidos (1979), O Império do Desejo (1981), O Paraíso Proibido (1981) ou Bens Confiscados (2004).
Para além de colocar a praia em oposição à cidade grande e pensar a sua predominância, propomos aqui identificar as formas pelas quais essa paisagem figura em cada filme. Se, como afirma Corbin (1989), o litoral é um dado geológico, mas a praia é uma invenção humana, propomos que essa invenção se dá, na obra de Reichenbach, de três distintas maneiras.
Primeiro, como fuga. Discípulo de Luiz Sergio Person, Reichenbach certamente identificou em São Paulo S/A (1965) a força das sequências em que o personagem de Walmor Chagas se desloca até a praia para fugir da (e do) capital, sem sucesso. Herdeiro da tradição do cinema marginal brasileiro, o realizador também sofreu o impacto de O Bandido da Luz Vermelha (1968, de Rogério Sganzerla), em que o personagem vai ao litoral paulista para exprimir seu desespero, chegando a encenar um suicídio no mar. Essas duas situações vão inspirar diretamente Reichenbach: também os personagens de Paraíso Proibido, O Império do Desejo e mesmo de Anjos do Arrabalde tentam encontrar na praia uma saída para seus cotidianos, apesar para descobrirem o mar como um fim sem solução para suas angústias.
É, no entanto, o filme seguinte de Sganzerla, A Mulher de Todos (1969), que vai promover a “hipertrofia do espaço praiano” (Bernardet, 1990) e assombrar outros filmes de Carlão. Assim, em A Ilha dos Prazeres Proibidos e O Império do Desejo, o cineasta contrabandeia para a pornochanchada discussões anarquistas e libertárias, desfilando improváveis tramas políticas em praias fictícias ou reais. Se é verdade que um certo niilismo está presente nas resoluções dos dois filmes, é inegável que Reichenbach vê a praia aqui como a chance de reinvenção utópica tanto dos costumes, quanto dos códigos cinematográficos.
É evidente, nesses filmes, o olhar romântico ligado às vanguardas identificado por Löwy e Sayre (2015). Ou seja, não exatamente o romantismo que prega a volta à natureza como solução para as angústias do mundo, mas aquele que lhe dedica um olhar ao mesmo tempo inconformado e desolado.
Pois é exatamente no terceiro tipo de aparição da praia em seu cinema que este aspecto fica mais evidente: o lugar de exílio, onde as personagens se encontram para não sofrer as piores consequências derivadas de uma situação política opressiva. É o caso de Dois Córregos (1999) e Bens Confiscados (2004), que colocam, respectivamente, um perseguido político da ditadura e o filho bastardo de um político corrupto em uma praia gaúcha. É na desoladora paisagem da praia do Estado onde nasceu que ele coloca a manifestação mais dura dessa revolta, calcando na realidade política do Brasil o isolamento imposto.
Assim, ao contrário de Agnès Varda, que se utiliza da paisagem praiana para construir um mosaico ensaístico sobre suas lembranças (Schipper, 2021), Reichenbach parece reinventar suas praias de ficção a partir de uma legítima vontade de reimaginar um mundo onde seus personagens não cabem mais.
Bibliografia
- BERNARDET, Jean-Claude. O Vôo dos Anjos. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1990
CAETANO, Daniel. Entre a transgressão vanguardista e a subversão da vulgaridade: os casos de Carlos Reichenbach e Alberto Fischerman. Tese de Doutorado. Dep. de Letras, PUC-RJ, Rio de Janeiro, 2012.
CORBIN, Alain. O Território do Vazio: A Praia e o Imaginário Ocidental. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
LEFEBVRE, Martin. “Between setting and landscape in the cinema”. Landscape and Film. New York: Routledge, 2006.
LÖWY, Michael; SAYRE, Robert. Revolta e Melancolia. São Paulo: Boitempo, 2015.
LYRA, Marcelo, Carlos Reichenbach: o cinema como razão de viver. São Paulo: Imprensa Oficial, 2004.
RAMOS, Fernão. Cinema Marginal (1968/1973) a representação em seu limite. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987.
SCHAMA, Simon. Paisagem e memória. SP: Companhia das Letras, 1996.
SCHIPPER, Jeremy. “The Beach Bodies of Agnès Varda”. The Film Atlas. Issue n.3. https://www.thefilmatlas.com/the-beach-bodies-of-agns-varda