Ficha do Proponente
Proponente
- Marcelo Monteiro Costa (UFPE)
Minicurrículo
- Doutor (2017) em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto do Departamento de Comunicação e coordenador do curso de Cinema e Audiovisual do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. Atuou como professor adjunto na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom UFBA) de 2017 a 2020.
Ficha do Trabalho
Título
- Corpos insubmissos, o sorriso e a encenação como farsa
Resumo
- O artigo investiga as condições de produção de imagens encenadas sob regimes autoritários, de Theresienstadt (1944) a Os Colonos (2023) e Ainda Estou Aqui (2024). Ao historicizar vestígios e gestos, analisa o sorriso como dispositivo ambíguo — entre imposição e resistência — evidenciando como corpos insubmissos tensionam a cena e desvelam a fraude e a violência ocultas na construção dessas imagens.
Resumo expandido
- A partir da reflexão de Silvye Lindeperg sobre um documentário nazista, o presente trabalho se propõe a investigar formas de resistência, disfarçadas ou declaradas, de corpos em cenas construídas para dissimular a violência. Através de um olhar atento aos detalhes, aos rastros e vestígios que remontam ao momento singular e às condições do registro da imagem, Lindeperg reivindica a historicização das imagens sobreviventes do filme originalmente intitulado Theresienstadt. Documentário sobre a zona de povoamento judeu.
Como o título sugere, o filme tinha como objetivo apresentar “um lugar de vilegiatura paradisíaco e dissimular sua função de campo de trânsito para os centros de execução.” Valendo-se de todo aparato do campo nazista, o filme camuflava a paisagem física e humana da violência, a partir da encenação forçada de situações cotidianas, vivenciadas e registradas pelos próprios prisioneiros. Famílias reunidas em torno da mesa de jantar, “o pavilhão das crianças com seu carrossel e seus balanços; a quadra de esportes […] as lojas falsas com suas vitrines bem abastecidas…” Tudo engendrado numa cenografia e dramaturgia concebidas como fraude histórica.
Todavia, pequenos sinais, gestos residuais parecem denunciar as condições de produção daquelas imagens. Os olhares furtivos para a câmera, uma mulher que a encara através do reflexo no espelho, rompendo o pacto da invisibilidade da câmera do cinema ficcional. Ou o simples gesto de uma mulher ao encobrir o rosto num ato de recusa a participar do espetáculo infame. Há centelhas de resistência nas imagens, e é preciso captá-las como vaga-lumes em extinção em meio ao bosque.
Uma expressão em especial parece orientar a reflexão aqui proposta, a forma como o sorriso aparece como elemento apaziguador e enganador, ou desvelador e confrontador, a depender da circunstância. Como observa Lindeperg “a camuflagem passa também pela encenação de uma comédia da felicidade, expressa no jogo forçado dos risos e sorrisos”. E quase contraditoriamente, um sorriso forçado, tenso ou involuntário, confessado à câmera por uma mulher parece desvelar o desconforto diante do registro e de suas condições.
Nesse sentido, dois filmes recentes de ficção apresentam cenas em que o sorriso de uma mulher desencadeia uma reflexão sobre regimes autoritários e gestos de resistência. Na cena final de Os Colonos (CHI, 2023, Dir. Felipe Galvéz Aberle), a personagem indígena resiste em sorrir para a câmera, num gesto de recusa em participar da narrativa falsa de “civilização” e “apaziguamento” imposta pelos colonizadores. Após o genocídio dos Selk’nam na Terra do Fogo, um representante do governo tenta forjar uma imagem conciliadora: veste Kiepja e seu marido com roupas ocidentais, posiciona-os à mesa para beber chá e exige que sorriam para uma foto. Ao manter um olhar sério, fixo e desafiador (opositor) para a câmera, ela se recusa a validar a versão oficial de que o massacre acabou e agora vivem em harmonia.
Na cena icônica da fotografia da família, após o desaparecimento de Rubens Paiva, no filme Ainda estou aqui (BRA, 2024, Dir. Walter Salles), o sorriso da personagem Eunice Paiva é questionado pelo repórter da Revista Manchete. O sorriso assume aqui um ato de resiliência e recusa em assumir a pose da fragilidade exigida pela imprensa e esperada pelos militares. Eunice insiste que a família sorria, demonstrando força, dignidade e altivez em tempos de exceção, em que “a gargalhada” de uma mulher era suficiente para torná-la suspeita, como demonstram os arquivos do DOPS.
A recusa em sorrir de Kiepia junto à resiliência em sorrir de Eunice Paiva colocam questões importantes sobre o contexto e as condições de produção das imagens, e o papel social que cabe a cada uma desempenhar. A quais corpos dissidentes a recusa do sorriso, ou sua manutenção, é um gesto de resistência diante de um jogo de cena farsesco? E até que ponto a encenação pode ser uma fraude, um embuste, ou um duplo de potência catártica reveladora?
Bibliografia
- ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2016.
COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida – cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. São Paulo: Editora 34, 2020.
________________________. Remontagens do tempo sofrido. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.
HARTMAN, Saidiya. A trama para acabar com ela. Serrote, São Paulo, n. 40, mar. 2022.
___________________. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queres radicais. São Paulo: Fósforo, 2022.
HOOKS, Bell. Cinema vivido: raça, classe e sexo nas telas. p.32-49. São Paulo: Elefante, 2023.
___________. Olhares negros: raça e representação. p.214-241. São Paulo: Elefante, 2019
LINDEPERG, Sylvie. O caminho das imagens: três histórias de filmagens na primavera-verão de 1944. Estudos Históricos Rio de Janeiro, v. 26, n. 51, p. 9-34, jan./jun. 2013.