Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Luis Gustavo Tavares da Silveira Eliseu (Unicamp)

Minicurrículo

    Mestrando em Multimeios no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas. Bacharel em Comunicação Social — Midialogia, pela mesma instituição. Desenvolve pesquisa sobre a intersecção entre a teoria do cinema e a psicanálise, investigando três conceitos-chave: transferência, identificação e sutura; e como o cinema pode reforçar e desestabilizar identidades e posições subjetivas. Tendo como objeto principal o filme A cura (1997), de Kiyoshi Kurosawa.

Ficha do Trabalho

Título

    A cura (1997) e o horror da perda de identidade.

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Este trabalho propõe analisar uma cena do filme A cura (Kyua, Kiyoshi Kurosawa, 1997), defendendo que o horror é engendrado no filme menos pela violência explícita do que pela desestabilização da posição subjetiva. A partir da análise fílmica, investiga-se como mise-en-scène, som, iluminação e duração produzem um regime de desestabilização das identidades que resulta num movimento de báscula entre policial e bandido, gerando uma cena de reconhecimento no sentido dialético proposto por Hegel.

Resumo expandido

    Este trabalho propõe uma análise de uma cena do filme A cura (1997, dirigido por Kiyoshi Kurosawa) com o objetivo de compreender como o filme articula o horror e o insólito por meio de suas formas (mise-en-scène, som, montagem, fotografia). Parte-se da hipótese de que o filme mobiliza estes aspectos não por meio dos assassinatos que definem sua estrutura narrativa, mas tensionando as fronteiras entre o sujeito e o Outro.

    No filme, o detetive Takabe (Kōji Yakusho), cuja esposa sofre de uma espécie de parafrenia cujo quadro nosológico nunca é explicitado, investiga uma série de assassinatos aparentemente desconexos. Os assassinos são capturados e não conseguem explicar suas motivações. O verdadeiro responsável é Mamiya (Masato Hagiwara). Ele hipnotiza suas vítimas por meio de sons e movimentos contínuos para concretizar a matança. O universo de Takabe parece desmantelado. Existe uma hiância, um desamparo, engendrado pela condição debilitante de sua mulher. O empenho de Takabe para descobrir os motivos por trás dos assassinatos mascara a angústia originada na incapacidade de submeter a mulher às demandas de seu contexto excessivamente masculino. Leva-se em consideração o caráter conservador da sociedade japonesa dos anos 90 e acrescenta-se a isso o androcentrismo do dia a dia policial. Mamiya surge num primeiro momento como outra alteridade conflitante, mas acaba funcionando como um mestre, como o sujeito suposto saber descrito pela psicanálise lacaniana.

    O encontro entre Mamiya e Takabe, na cena que será analisada, marca uma virada no filme. Nela, a composição em profundidade, a economia de cortes, a disposição dos corpos, o desenho da luz e a mobilização dos objetos presentes produzem um regime em que um simples interrogatório se transforma numa sessão de análise. Onde a cura — inicialmente prevista para sua mulher —, que dá nome ao filme, se concretiza.

    Mais do que ilustrar conceitos prévios, o interesse da fala recai sobre a capacidade estética do cinema de produzir uma experiência-limite. Pensar como o sujeito lida com o desamparo decorrente de suas instabilidades identitárias, como reage quando o cotidiano se revela mais complexo do que se imaginava e a investigação traz consigo um vazio, tanto para os personagens quanto para o espectador. Argumenta-se que A cura inscreve o insólito no interior da própria racionalidade moderna, cartesiana. Ao se defrontar com uma quebra desses paradigmas discursivos, o sujeito se vê obrigado a reelaborar sua posição tanto como espectador quanto como eu. O horror, naturalmente, surge dessa reelaboração. A ruptura da identidade imaginária leva o sujeito a confrontar o real, o indizível e não simbolizável, sentir seu mundo como conhece desmoronar.

    A análise busca, para esse fim, estabelecer o diálogo com a teoria do reconhecimento de Hegel e a psicanálise de base lacaniana. Partindo das teorias do sujeito da psicanálise, procurar-se-á mostrar como o horror no audiovisual pode surgir da maneira como o cinema faz vacilar as coordenadas pelas quais o sujeito se reconhece como tal.

Bibliografia

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