Ficha do Proponente
Proponente
- Luis Gustavo Tavares da Silveira Eliseu (Unicamp)
Minicurrículo
- Mestrando em Multimeios no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas. Bacharel em Comunicação Social — Midialogia, pela mesma instituição. Desenvolve pesquisa sobre a intersecção entre a teoria do cinema e a psicanálise, investigando três conceitos-chave: transferência, identificação e sutura; e como o cinema pode reforçar e desestabilizar identidades e posições subjetivas. Tendo como objeto principal o filme A cura (1997), de Kiyoshi Kurosawa.
Ficha do Trabalho
Título
- A cura (1997) e o horror da perda de identidade.
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Este trabalho propõe analisar uma cena do filme A cura (Kyua, Kiyoshi Kurosawa, 1997), defendendo que o horror é engendrado no filme menos pela violência explícita do que pela desestabilização da posição subjetiva. A partir da análise fílmica, investiga-se como mise-en-scène, som, iluminação e duração produzem um regime de desestabilização das identidades que resulta num movimento de báscula entre policial e bandido, gerando uma cena de reconhecimento no sentido dialético proposto por Hegel.
Resumo expandido
- Este trabalho propõe uma análise de uma cena do filme A cura (1997, dirigido por Kiyoshi Kurosawa) com o objetivo de compreender como o filme articula o horror e o insólito por meio de suas formas (mise-en-scène, som, montagem, fotografia). Parte-se da hipótese de que o filme mobiliza estes aspectos não por meio dos assassinatos que definem sua estrutura narrativa, mas tensionando as fronteiras entre o sujeito e o Outro.
No filme, o detetive Takabe (Kōji Yakusho), cuja esposa sofre de uma espécie de parafrenia cujo quadro nosológico nunca é explicitado, investiga uma série de assassinatos aparentemente desconexos. Os assassinos são capturados e não conseguem explicar suas motivações. O verdadeiro responsável é Mamiya (Masato Hagiwara). Ele hipnotiza suas vítimas por meio de sons e movimentos contínuos para concretizar a matança. O universo de Takabe parece desmantelado. Existe uma hiância, um desamparo, engendrado pela condição debilitante de sua mulher. O empenho de Takabe para descobrir os motivos por trás dos assassinatos mascara a angústia originada na incapacidade de submeter a mulher às demandas de seu contexto excessivamente masculino. Leva-se em consideração o caráter conservador da sociedade japonesa dos anos 90 e acrescenta-se a isso o androcentrismo do dia a dia policial. Mamiya surge num primeiro momento como outra alteridade conflitante, mas acaba funcionando como um mestre, como o sujeito suposto saber descrito pela psicanálise lacaniana.
O encontro entre Mamiya e Takabe, na cena que será analisada, marca uma virada no filme. Nela, a composição em profundidade, a economia de cortes, a disposição dos corpos, o desenho da luz e a mobilização dos objetos presentes produzem um regime em que um simples interrogatório se transforma numa sessão de análise. Onde a cura — inicialmente prevista para sua mulher —, que dá nome ao filme, se concretiza.
Mais do que ilustrar conceitos prévios, o interesse da fala recai sobre a capacidade estética do cinema de produzir uma experiência-limite. Pensar como o sujeito lida com o desamparo decorrente de suas instabilidades identitárias, como reage quando o cotidiano se revela mais complexo do que se imaginava e a investigação traz consigo um vazio, tanto para os personagens quanto para o espectador. Argumenta-se que A cura inscreve o insólito no interior da própria racionalidade moderna, cartesiana. Ao se defrontar com uma quebra desses paradigmas discursivos, o sujeito se vê obrigado a reelaborar sua posição tanto como espectador quanto como eu. O horror, naturalmente, surge dessa reelaboração. A ruptura da identidade imaginária leva o sujeito a confrontar o real, o indizível e não simbolizável, sentir seu mundo como conhece desmoronar.
A análise busca, para esse fim, estabelecer o diálogo com a teoria do reconhecimento de Hegel e a psicanálise de base lacaniana. Partindo das teorias do sujeito da psicanálise, procurar-se-á mostrar como o horror no audiovisual pode surgir da maneira como o cinema faz vacilar as coordenadas pelas quais o sujeito se reconhece como tal.
Bibliografia
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