Ficha do Proponente
Proponente
- PEDRO AUGUSTO SOUZA BEZERRA DE MELO (UFRJ)
Minicurrículo
- Doutorando em Comunicação e Cultura pela UFRJ (PPGCOM), com pesquisa sobre cinema experimental e humanidades ambientais. Mestre em Comunicação pela UFPE (2021).
Ficha do Trabalho
Título
- ALTIPLANO: geontopoder e extrativismo
Resumo
- Esta comunicação analisa ALTIPLANO (2018), de Malena Szlam, a partir do conceito de geontopoder de Elizabeth Povinelli: o regime que diferencia entre vida e não-vida para justificar a extração colonial. O filme recusa essa separação por meio de dois aspectos: o som (gravações infrassônicas de vulcões e baleias, que convocam uma escuta geológica) e o trabalho com a temporalidade (lentidão, repetição, acumulação de estratos).
Resumo expandido
- Nos últimos anos, a crise ambiental tem mobilizado cineastas a repensar as formas de representação da paisagem. No cinema experimental latino-americano, um conjunto de obras tem se voltado para territórios marcados pelo extrativismo, buscando inscrever na própria linguagem cinematográfica as marcas da “violência lenta” (NIXON, 2011).
Filmado nos Andes, em territórios tradicionalmente ocupados pelos povos Atacameño, Aymara e Calchaquí-Diaguita, ALTIPLANO percorre lagoas salgadas, formações rochosas, fumarolas vulcânicas e ruínas de antigas minas de salitre – região que por mais de um século abasteceu o capitalismo global com nitratos e hoje enfrenta nova onda extrativista (exploração geotérmica e lítio). Szlam, no entanto, recusa a representação da paisagem como recurso. Seu filme restitui às existências minerais – ao sal, à pedra, à lua silenciosa do Altiplano, às formações ancestrais – uma opacidade que resiste à captura.
Para pensar essa operação, mobilizamos o conceito de geontopoder de Elizabeth Povinelli. Em Geontologies: A Requiem to Late Liberalism (2016). O geontopoder é esse regime de governança que decide o que conta como Vida – merecedora de direitos, luto, reconhecimento – e o que é relegado ao Não-Vivo: coisa, recurso, extrato, descartável. No Altiplano chileno, essa operação tem consequências concretas. Para que a extração ocorra, a paisagem precisa ser classificada como Não-Vivo: montanhas são “recursos minerais”, lagos salgados são “jazidas”, o calor da terra é “energia”. O geontopoder transforma territórios ancestrais em zonas de sacrifício.
ALTIPLANO desativa essa classificação. Dois aspectos do filme serão analisados. O primeiro é o som: a trilha sonora incorpora gravações infrassônicas de vulcões e baleias – frequências abaixo do limiar da audição humana, amplificadas para o espectro audível. O espectador é convocado a uma escuta geológica – uma sintonização com frequências não-humanas que a modernidade trabalhou para silenciar. O segundo é o trabalho com sobre a temporalidade: a lentidão dos planos, a repetição, a acumulação de imagens de estratos rochosos e crateras. O fazê-lo, o filme devolve à paisagem uma agência que o olhar extrativista trabalha para anular: uma respiração, uma memória geológica, uma existência mineral que não se reduz a recurso.
Bibliografia
- NIXON, Robert. Slow Violence and the Environmentalism of the Poor. Cambridge: Harvard University Press, 2011.
POVINELLI, Elizabeth. Geontologies: A Requiem to Late Liberalism. Durham: Duke University Press, 2016.