Ficha do Proponente
Proponente
- Henrique Denis Lucas (UBI)
Minicurrículo
- Henrique é doutorando em Média Artes, pela Universidade da Beira Interior, com bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal. É Mestre em Comunicação e Informação, pela UFRGS e graduado em Comunicação Social – Produção Editorial, pela UFSM. Suas áreas de interesse estão na interseção entre arte e comunicação. Atualmente, está produzindo um filme-ensaio sobre o luto, intitulado “Dormitórios”, para sua tese de doutoramento.
Ficha do Trabalho
Título
- Cartografia cinéfila do luto: a reciclagem de citações fílmicas como demarcações emocionais da perda
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Este trabalho investiga o luto como processo sensível e não linear a partir da Cartografia Sentimental de Rolnik (2011). Da mesma forma, analisa como a cinefilia e a citação fílmica operam como práticas de registro afetivo, constituindo uma cartografia emocional da perda. No filme-ensaio, a referencialidade torna-se gesto criativo que recicla tanto a experiência fílmica – articulando memórias e afetos – quanto a própria linguagem cinematográfica – na forma de metalinguagem.
Resumo expandido
- Inserido na pesquisa Dormitórios: reflexividade e dialogismo na criação de um filme-ensaio sobre o luto (financiada pela FCT), este trabalho propõe compreender o luto como processo de reorganização do sensível, à luz da Cartografia Sentimental (ROLNIK, 2011). Cartografar, nesse contexto, não é representar delimitações geográficas, mas acompanhar fluxos de subjetivação, registrando as variações de intensidade que atravessam o corpo e a experiência. O luto deixa de ser um percurso estável para tornar-se território variável, onde memória e afeto se reconfiguram continuamente, deixando de ser apenas uma resposta psicológica à perda e sendo compreendido como reorganização da subjetividade.
Emoções e sentimentos operam em níveis distintos: as primeiras como percepções corporais imediatas; os segundos, como sedimentações afetivas e simbólicas (LUCAS; JACKS, 2019). É nesse intervalo que o cinema atua, como dispositivo de mediação e produção do sensível. Assim, a cinefilia (BAECQUE, 2010) configura-se como forma de vida: um modo de organizar a experiência a partir de imagens. Filmes tornam-se marcos afetivos que indexam momentos biográficos, produzindo uma memória atravessada pela experiência espectatorial. Assim, a recepção é criativa e constitutiva: ela associa o sujeito a uma série de imagens que passam a mediar sua relação com o mundo.
Em situações liminares, como o luto, esse registro se intensifica. Foi o caso da relação do autor com o filme Je t’aime, je t’aime, de Alain Resnais (1968), enquanto passava pelo processamento de uma perda familiar: ao operar pela repetição e fragmentação da memória, o filme espelha a própria dinâmica do luto vivido. A imagem fílmica passa a funcionar como agente de elaboração afetiva.
Trata-se de um trabalho criativo, no qual o sujeito reconfigura imagens a partir de sua própria história. Nesse sentido, a citação não é exterior à experiência: ela é a própria. Essa dinâmica configura uma cartografia sentimental do luto. As citações fílmicas atuam como pontos de intensidade, demarcando zonas afetivas no território da perda. Cada imagem citada em um filme-ensaio sobre o luto – como no filme Dormitórios – condensa uma experiência, funcionando como índice de estados emocionais e como operador de memória. O mapa que daí emerge é fragmentário, descontínuo, constituído por restos – um verdadeiro palimpsesto afetivo. Conforme Frazão (2018), o cinema contemporâneo estrutura-se como superfície de reescrita contínua, onde imagens são constantemente reescritas sobre vestígios de outras. A citação fílmica emerge, assim, como gesto de reativação de camadas de memória, configurando uma prática intertextual que articula recepção e criação. Em diálogo com Coutinho (2010), pode-se pensar essa operação como uma escrita com imagens, na qual o gesto de citar implica reciclar o próprio olhar, deslocando a noção de verdade e afirmando o cinema como engrenagem de criação de realidade. Mais do que apontar para outro texto, a citação expõe uma experiência espectatorial, funcionando como vestígio afetivo.
A metalinguagem, conforme Andrade (1999), intensifica essa operação ao explicitar o próprio código cinematográfico. Seja na forma do filme dentro do filme, seja na autorreferência, o cinema revela-se como linguagem que reflete sobre si mesma. Nesse contexto, a citação torna-se gesto metalinguístico por excelência: o cinema falando através de suas próprias imagens.
O filme-ensaio surge como forma privilegiada desse movimento (CORRIGAN, 2015), pois a referencialidade constitui um de seus elementos estruturantes. Ao articular experiência pessoal e espaço público, ele constitui uma escrita de si através do outro. As suas citações fílmicas, enquanto práticas de reciclagem ensaística, podem configurar uma cartografia sentimental do luto. O cinema não apenas representa o luto, mas participa ativamente de sua elaboração, afirmando-se como dispositivo de subjetivação e tecnologia do sensível.
Bibliografia
- ANDRADE, A. L. O filme dentro do filme: A metalinguagem no cinema. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.
BAECQUE, A. Cinefilia: Invenção de um olhar, história de uma cultura 1944 – 1968. São Paulo: Cosacnaify, 2010.
CORRIGAN, T. O filme-ensaio: Desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus, 2015.
COUTINHO, M. A. Escrever com a câmera: A literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard. Belo Horizonte: Crisálida, 2010.
FRAZÃO, F. O cinema vai ao cinema: Uma investigação das práticas de reflexividade cinematográfica. Rio de Janeiro: Clube dos Autores, 2018.
LUCAS, H.; JACKS, N. Para pensar as audiências de cinema: anotações iniciais. Anais do 28° Encontro Anual da Compós. Porto Alegre: Compós, 2019.
MONTEIRO, C. M. O renascimento das imagens no filme ensaio: Fotografia, documentário e memória. Londres: Novas Edições Acadêmicas, 2017.
ROLNIK, S. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina; Editora da UFRGS, 2011.