Ficha do Proponente
Proponente
- Marina Mapurunga de Miranda Ferreira (UFRB)
Minicurrículo
- Professora de Som do curso de Cinema e Audiovisual da UFRB, onde coordena o projeto de extensão SONatório – Laboratório de Pesquisa, Prática e Experimentação Sonora. Professora vinculada ao PPGCOM-UFRB. Doutora em Artes (Música – Sonologia) pela USP. Mestra em Comunicação pela UFF, especialista em Audiovisual em Meios Eletrônicos pela UFC e realizadora audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual de Fortaleza Vila das Artes.
Ficha do Trabalho
Título
- Cartografia Aural na formação de estudantes de audiovisual
Seminário
- Histórias e tecnologias do som no audiovisual
Resumo
- A cartografia aural (FERREIRA, 2022) é um processo de construção de um mapa por meio da escuta, partindo de sua concepção até seu compartilhamento. Não se trata somente da coleção ou documentação de sons em um mapa. O mapa não é um fim, mas um meio para a formação do processo de cartografia da escuta. Tal prática em um curso de Audiovisual aponta como a escuta do território aperfeiçoa a escuta de estudantes de audiovisual. Apontamos aqui como tal prática pode ser trabalhada e seus resultados.
Resumo expandido
- Propomos uma Cartografia Aural (FERREIRA, 2022) como uma alternativa de Cartografia Sonora. Ela é um processo de construção de um mapa por meio da escuta, partindo de sua concepção até seu compartilhamento. Não se trata somente da coleção ou documentação de sons em um mapa. O mapa não é um fim, mas um meio para a formação do processo de cartografia da escuta. O mapa da Cartografia Aural não se refere a uma representação geométrica plana, natural e inquestionável, mas a um conjunto de subjetividades ao mesmo tempo constituídas por e constituintes de lugares a partir de escutas. Práticas sonoras como caminhadas sonoras, escutas orientadas e gravação de campo permeiam a Cartografia Aural.
Para cartografar, iniciamos explorando o lugar por meio de caminhadas livres, à deriva, ou guiadas por instruções, itinerários e/ou questionamentos. O mapa vai se construindo a partir de uma escuta sensível do lugar, assim como esta escuta vai se construindo no decorrer da caminhada e do engajamento da(o) participante-cartógrafa(o). Na Cartografia Aural, qualquer lugar pode ser cartografado, do espaço doméstico ao público. Por meio das gravações de campo, outra forma de escutar é efetuada – a escuta mediada pelos equipamentos de gravação, assim como na captação de som direto. Porém, na gravação de campo, a(o) cartógrafa(o) está livre para investigar o lugar com o equipamento (microfone, gravador, fones de ouvido), buscando e (re)descobrindo sons. Como a compositora e ecologista sonora Hildegard Westerkamp (2001, p. 148, trad. nossa) expõe “o microfone é uma ferramenta sedutora: ele pode oferecer um ouvido fresco tanto para quem grava quanto para quem escuta; pode ser um acesso a um lugar estrangeiro, bem como um abridor-de-ouvidos para os mais familiarizados”. Com o equipamento de gravação, além de captar sons, a(o) cartógrafa(o) pode ampliar sua audição (por aproximação do microfone e/ou aumento do nível de volume), direcioná- la (a partir do posicionamento e escolha do tipo de microfone), ouvir sua própria voz e outros sons em perspectivas diferentes. A gravação de campo é vista aqui como prática subjetiva (WESTERKAMP, 2001) e autorreflexiva (ANDERSON & RENNIE, 2016) e escrita (BÓRQUEZ, 2021).
A Cartografia Aural como meio pedagógico propicia relações de alteridade, abrindo espaço para o diálogo, para trocas coletivas e para a escuta sensível de si, da(o outra(o) e de seus lugares. É uma prática colaborativa, de compartilhamento, reflexão e transformação. Ela favorece processos criativos que geram narrações de subjetividades e o (re)conhecimento da(o) outra(o). Estes mapas alternativos, que fazem parte de uma cartografia crítica, trazem o que não é visível nos mapas convencionais, apresentam outras apropriações e interpretações de mundo.
Dentro do curso de Cinema e Audiovisual, a aplicação desta estratégia proporciona aos(às) estudantes o envolvimento com práticas sonoras que lhes permitem explorar, através da escuta, o meio em que vivem, seus lugares. Isso é importante tanto para estudantes com a intenção de trabalhar especificamente com som no audiovisual quanto para estudantes que pretendem seguir por outras áreas do audiovisual. É importante ouvir o que é gravado, compreender que o microfone capta os sons diferentemente de nosso ouvido, entender o que pode atrapalhar ou contribuir para uma boa captação de som, ou, durante uma caminhada sonora, que elementos sonoros desse lugar seriam interessantes para uma determinada cena. Além disso, os sons captados podem fazer parte de um repositório de sons locais, para que os(as) estudantes possam utilizar em seus filmes.
Nesta apresentação, apresentaremos uma ação com a Cartografia Sonora no curso de Cinema da UFRB realizada em 2026 nos territórios de Cachoeira e São Félix – BA e seus resultados.
Bibliografia
- ANDERSON, Isobel; RENNIE, Tullis. Thoughts in the Field: ‘Self-reflexive narrative’ in field recording. In: Organized Sound, 21(3), 222-232. Cambridge University Press, 2016.
ARAGÃO, Thaís Amorim. Escuta, gravação, plataforma web: fazer mapa sonoro como conjunto de práticas de mídia. Tese (doutorado) – Universidade Vale do Rio dos Sinos, PPGCOM, 2018.
BÓRQUEZ, Gustavo Celedón. El field recording como ensayo. In: FREYCHET, Antoine; REYNA, Alejandro; SOLOMOS, Makis (eds.). Escuchando lugares: El field recordingcomo práctica artística y activismo ecológico. Santa Fe: Ediciones UNL, pp. 57-73, 2021.
FERREIRA, Marina Mapurunga de M. Reativação da escuta: práticas sonoras experimentais como estratégias para o ensino de som em cursos de cinema e audiovisual. 2022. Tese (Doutorado) – USP, São Paulo, 2022.
WESTERKAMP, Hildegard. Speaking from Inside the Soundscape. In: ROTHENBERG, D; ULVAEUS, M (eds.). The Book of Music and Nature: An Anthology of Sounds, Words, Thoughts. Middletown: 2001.