Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Adriano Del Duca (PPGE-UFRJ)

Minicurrículo

    Doutorando em Educação (PPGE-UFRJ) e Mestre em Cinema (PPGCINE-UFF), é licenciado em Ciências Sociais (UNESP-FCL) e Bacharel em Cinema e Vídeo (UNESPAR/FAP). Bolsista no programa IMAGO/IBERMEDIA de Oficinas Técnicas de Produção Audiovisual – Panamá. É professor efetivo de Sociologia na rede estadual de Ensino do Estado do Rio de Janeiro e atua como arte-educador audiovisual na Escola Infantil Casa Monte Alegre. Escreve na Revista Aurora de Cinema Brasileiro (auroracine.com.br).

Ficha do Trabalho

Título

    Entre o Olhar e o Registro: Cinema, Infância e Documentação Pedagógica na Educação Infantil.

Resumo

    A pesquisa investiga a documentação pedagógica como instrumento autoetnográfico na educação infantil, a partir da experiência da Oficina do Olhar, prática de educação audiovisual realizada com crianças de 3 a 6 anos. Inspirada em Loris Malaguzzi e seus ateliês, articulo as “cem linguagens” ao uso do audiovisual como criação e registro, analisando a produção de imagens pelas crianças, entendida como prática reflexiva que revela sentidos construídos no encontro entre cinema e infância.

Resumo expandido

    Essa comunicação é parte dos primeiros movimentos de minha pesquisa de doutorado sobre as relações entre cinema e educação infantil e investiga a documentação pedagógica (MALAGUZZI) como instrumento autoetnográfico no contexto da educação infantil, tomando como campo empírico a Oficina do Olhar, projeto de educação audiovisual desenvolvido com crianças de 3 a 6 anos. A proposta parte do entendimento de que os dispositivos audiovisuais não se limitam a ferramentas técnicas, mas configuram modos de ver, narrar e produzir mundo.

    Inspirada nas contribuições de Loris Malaguzzi, na qual a documentação pedagógica assume um papel central não apenas como registro, mas como prática interpretativa e política. Documentar é tornar visíveis os processos de aprendizagem, instaurando uma pedagogia da escuta que reconhece a criança como sujeito ativo, produtor de cultura e portador das chamadas “cem linguagens”. Tal noção aponta para a multiplicidade de formas expressivas — corporais, visuais, sonoras, narrativas — pelas quais a criança constrói conhecimento, deslocando a centralidade da linguagem verbal e ampliando o campo sensível na educação.

    A Oficina do Olhar insere-se nesse debate ao propor o cinema como linguagem e experiência, não como mera atividade instrumental. As crianças são convidadas a explorar brinquedos óticos, jogos de luz e sombra, projeções, bem como a experimentar a criação de imagens pictóricas e fotográficas em dimensões lúdicas e investigativas. Nesse processo, o gesto de filmar torna-se também um gesto de pensamento, na medida em que envolve escolhas, recortes e modos de atenção ao mundo, mais do que aprendizagens técnicas sobre uso de equipamentos.

    Do ponto de vista metodológico, a pesquisa adota a autoetnografia como estratégia de produção de conhecimento, articulando experiência pessoal, prática docente e reflexão teórica. Longe de um exercício meramente introspectivo, a autoetnografia aqui se aproxima da tradição da antropologia ao considerar o cotidiano escolar como um campo de significações culturais. Trata-se de assumir o duplo papel de educador-pesquisador que, ao mesmo tempo em que conduz as práticas, se observa em ação, produzindo uma escrita que emerge da experiência situada.
    Nesse sentido, a documentação audiovisual das oficinas não é compreendida como um espelho neutro da realidade, mas como uma construção atravessada por escolhas estéticas, éticas e pedagógicas. O uso da imagem como registro permite revisitar as experiências, desacelerar o olhar e perceber nuances frequentemente invisíveis no fluxo da prática. Ao rever os registros, o pesquisador pode identificar gestos, interações, silêncios e invenções das crianças, reconfigurando a compreensão sobre os processos de aprendizagem.

    A pesquisa organiza-se, portanto, em torno de duas camadas interdependentes: i) a prática de criação audiovisual realizada com as crianças, em que o cinema emerge como linguagem expressiva e campo de experimentação; e ii) o exercício de documentar essas práticas, entendido como um dispositivo reflexivo que produz conhecimento sobre o próprio fazer pedagógico. A tensão produtiva entre essas camadas permite problematizar não apenas o que as crianças criam, mas como essas criações são vistas, registradas e interpretadas.

    Ao articular autoetnografia, antropologia da educação e uma pedagogia audiovisual que articula as múltiplas linguagens artísticas pelas quais as crianças se expressam, o estudo busca contribuir para a reflexão sobre o lugar do audiovisual na educação infantil, afirmando-o como campo de investigação estética, ética e política. Mais do que formar pequenos “realizadores”, trata-se de reconhecer nas crianças sujeitos que pensam com imagens, que elaboram sentidos por meio delas e que, ao fazê-lo, expandem as possibilidades do próprio ato educativo.

Bibliografia

    TAVARES, Denise. Autoetnografia e pesquisa em educação: entre a experiência e a reflexão. Educação & Pesquisa, v. 44, 2018.

    SAMAIN, Etienne. Antropologia visual: como transmitir a experiência humana. Campinas: Papirus, 2004.

    COHN, Clarice. Antropologia da criança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

    BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink, 2008.

    MALAGUZZI, Loris. Histórias, ideias e filosofia básica. In: EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George (orgs.). As cem linguagens da criança. Porto Alegre: Artmed, 1999.

    EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George (orgs.). As cem linguagens da criança: a abordagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Porto Alegre: Artmed, 1999.