Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    JOCIMAR SOARES DIAS JUNIOR (UFF)

Minicurrículo

    Jocimar Dias Jr. (ele/dele) é trabalhador do audiovisual, atuando nas áreas de direção, assistência de direção, pesquisa e docência. Doutor pelo PPGCine (UFF). Mestre pelo PPGCOM (UFF). Bacharel em Cinema e Audiovisual pela UFF, com passagem pela ESTC (Lisboa). Como cineasta, dirigiu os curtas ENSAIO SOBRE MINHA MÃE (2014), VOLLÚPYA (2024, codireção Éri Sarmet) e MORFEU E CARONTE (2026, codireção Luiz Ulian).

Ficha do Trabalho

Título

    Da escopofilia à dildoescopofilia: Queerificando a teoria do olhar de Laura Mulvey

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    Nesta apresentação de cunho arquivístico-historiográfico, busca-se revisitar a queerificação da teoria do olhar no cinema de Laura Mulvey tal qual operada pelo texto “The Gaze Revisited, or Reviewing Queer Viewing”, escrito por Caroline Evans e Lorraine Gamman e publicado em 1995, com particular interesse pelo pioneirismo da forma como a argumentação articula os conceitos de “dildo” e “genderfuck” para elaborar uma abordagem não-essencialista dos olhares queer e das espectatorialidades queer.

Resumo expandido

    Em 1975, Laura Mulvey publicou seu influente artigo “Prazer Visual e Cinema Narrativo”, pioneiro nas perspectivas feministas sobre o cinema e verdadeiro divisor de águas na teoria da espectatorialidade cinematográfica. Desde então, uma série de textos buscaram aderir ou confrontar as ideias mulveyanas, ampliando o escopo da argumentação para abarcar especificidades dos diferentes processos de subjetivação, levando em conta aspectos insuficientemente abordados pela autora na ocasião, referentes principalmente a questões de classe, raça, gênero e sexualidade. Dentre tais esforços teóricos, destaca-se o artigo “The Gaze Revisited, or Reviewing Queer Viewing”, escrito por Caroline Evans e Lorraine Gamman e publicado em 1995, ou seja, no contexto de um já consolidado campo dos “estudos lésbicos e gays” e da alvorada do que seria denominado como “estudos queer” nos debates acadêmicos euro-estadunidenses.
    Neste texto menos rememorado e citado mas igualmente pioneiro dentro das perspectivas queer das espectatorialidades, Evans e Gamman empreendem, num primeiro momento, um levantamento sistemático dos antecedentes históricos da teorização de Mulvey e seu impacto definitivo nos estudos feministas daqueles vinte anos subsequentes. Num segundo momento, as autoras elaboram um detalhado balanço dos principais contra argumentos às suas ideias nos recentes estudos das espectatorialidades lésbicas e gays, inventariando os pontos de vista de Richard Dyer (sobre o “pin-up” masculino e as identificações de gays estadunidenses com figuras estelares como Judy Garland), de Kobena Mercer (o lugar ambíguo do espectador gay negro diante das fotografias de Mappelthorpe), de Jackie Stacey e Judith Mayne (as teorizações sobre as espectatorialidades lésbicas e suas nuances), entre outros. Por fim, elas elaboram sua própria noção não-essencialista de “olhares queer” enquanto derivados de identificações que são “múltiplas, contraditórias, mutáveis, oscilantes, inconsistentes e fluidas” (EVANS, GAMMAN, 1995).
    Nesta apresentação, gostaria de revisitar, num gesto arquivístico queer, o percurso teórico de Evans e Gamman durante o texto, com ênfase na parte final de sua construção argumentativa. Nesta parte, a fim de questionarem o exacerbado maniqueísmo da primeira hipótese mulveyana, que constatava o “homem” como “sujeito” de um olhar “masculino” essencialmente “ativo” em sua escopofilia, enquanto à “mulher” cabia a posição “feminina” “passiva” de “objeto” do olhar voyeurístico, as autoras recorrem ao arcabouço teórico sapatão-feminista da época, em particular à noções de “dildo” e “genderfuck” segundo June L. Reich. A partir das teorizações de Joan Nestle e Sue-Ellen Case sobre a complexidade de encenação de papéis de gênero desempenhados em dinâmicas butch/femme, June L. Reich pensa o dildo como “simulacro” que desbanca e transcende o “falo”, e como paradigma metodológico de pesquisa. Por sua vez, o conceito de “genderfuck”, um análogo sapatônico e sexualmente transgressor do “camp” associado aos gays, seria caracterizado enquanto “o efeito de práticas de significação instáveis em uma economia libidinal de múltiplas sexualidades”, um processo que produz “desestabilização do gênero como categoria analítica”, marcado pelo “jogo do masculino e do feminino no corpo” que “subverte a possibilidade de possuir uma posição de sujeito unificada” (REICH, 1992). É essa política do gênero enquanto performance que vai nortear as análises dos olhares queer para com as fotografias sexualmente explícitas de Del La Grace Volcano (1991). A força do texto das autoras decorre da forma como tensionam a escopofilia teorizada por Mulvey para pensar uma “dildoescopofilia” propriamente queer que, por um lado, apresenta já naquele momento um modelo de aplicação das ideias de Judith Butler à teoria da espectatorialidade e, por outro, antecipam uma abordagem “dildotectônica” da situação-cinema que só ganharia popularidade através do trabalho de Paul B. Preciado (2014) anos depois.

Bibliografia

    CASE, Sue-Ellen. “Towards a Butch-Femme Aesthetic”. Discourse, Vol. 11, N. 1 (Fall-Winter 1988-89), pp. 55-73.
    DYER, Richard. The Culture of Queers. Londres: Routledge, 2002.
    EVANS, Caroline; GAMMAN, Lorraine. “The Gaze Revisited, or Reviewing Queer Viewing.” In: BURSTON, Paul; RICHARDSON, Colin (ed.). A Queer Romance: Lesbians, Gay Men and Popular Culture. London: Routledge, 1995. pp. 12-61.
    MAYNE, Judith. Cinema and Spectatorship. Londres: Routledge, 1993.
    MERCER, Kobena. “Reading Racial Fetishism: The Photographs of Robert Mapplethorpe”. In: MERCER, Kobena. Welcome to the jungle: New positions in black cultural studies. Londres: Routledge, 1994.
    MULVEY, Laura. “Prazer visual e cinema narrativo”. In: A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.
    PRECIADO, Paul B. Manifesto Contrassexual: Práticas subversivas de identidade sexual. São Paulo: n-1 edições, 2014.
    REICH, June L. “Genderfuck: The Law of the Dildo”. Discourse, vol. 15, n. 1 (Outono, 1992), pp. 112-127.