Ficha do Proponente
Proponente
- Lorenna Rocha da Silva (UFPE)
Minicurrículo
- Historiadora e Mestre em Comunicação (UFPE), crítica e programadora de mostras e festivais de cinema. Cofundadora da INDETERMINAÇÕES. Editora-chefe da revista câmarescura. Participou de processos curatoriais de diversos festivais brasileiros como FestCurtas BH, Janela Internacional de Cinema do Recife e Mostra de Cinema de Tiradentes. Foi integrante do Talent Press no Berlinale – 73º Festival Internacional de Cinema de Berlim e uma das pesquisadoras do 9º RAW/Arché (Doclisboa/Márgenes).
Ficha do Trabalho
Título
- Amolar as facas, romper a origem: o problema do ‘zozimocentrismo’ para o estudo negro de cinema
Resumo
- Como o ambiente efervescente da década de 2010 pode ter contribuído para a emergência de Zózimo Bulbul como ‘fundador político do cinema negro no Brasil’ (Freitas, 2020), em que em ‘Alma No Olho’, encontra-se seu suposto ‘gesto inaugural’ (Oliveira, 2020)? Nossa hipótese é que a criação desse mito originário se dá a partir de posicionamentos a-históricos sobre o passado. Sobre quais bases epistemológicas está enraizada essa “tradição aceita” (Melo, 2005) do cinema negro brasileiro?
Resumo expandido
- Em ‘Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro’, Jean-Claude Bernardet (2008) propõe identificar quais critérios levaram pesquisadores, entre eles, Alex Viany e Paulo Emílio Salles Gomes, a elevar o 19 de junho de 1898 como data do nascimento do cinema brasileiro. Para o autor, o marco inaugural naturalizado na historiografia do cinema brasileiro está alicerçado por investimentos ideológicos e apresenta um vínculo estreito com “a estrutura da história clássica do cinema” (p. 21).
Na medida em que busca identificar as bases ideológicas que mobilizam essa forma de narrar o passado do cinema brasileiro, Bernardet (2008) questiona concepções da história ancoradas na noção progressiva do tempo, em que os acontecimentos passam a ser lidos através de periodizações que referem-se a avanços, fracassos e a etapas que foram ou não superadas. E nos convoca a “abandonar essa ideia de nascimento” (idem).
A consolidação do campo do cinema negro brasileiro — enquanto um corpo ocupado por pesquisadores, curadores, críticos, cineastas, diretores de fotografia, roteiristas, continuistas e outros — acontece enquanto as disputas políticas, econômicas e raciais que historicamente estruturam o audiovisual brasileiro tornam-se cada vez mais evidente. Amplificados no cenário do país a partir da década de 2010, os debates sobre representatividade, visibilidade e reparação histórica estimularam revisões críticas e epistemológicas da história do cinema brasileiro. (Dos Reis, 2023)
Zózimo Bulbul emerge nesse ambiente efervescente como uma figura do passado a ser referenciado e adquire o status de propulsor — uma bússola cinematográfica (Thayná, 2017) — da produção contemporânea de realizadores e realizadoras negras. A ocupação de Bulbul na cadeira de direção cinematográfica e a projeção de sua imagem como cineasta negro engajado — especialmente com a realização de ‘Alma No Olho’ (1973) e a criação do Centro Afro Carioca de Cinema e do Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe — fizeram do realizador carioca um símbolo e um mito, possibilitando que o campo do cinema negro brasileiro construísse uma visão idealizada de sua própria história.
Ensaios publicados por Juliano Gomes em 2020 e 2021 reúnem algumas pistas em torno do que o crítico de cinema nomeia como ‘zózimocentrismo obsessivo’, referindo-se a repetição que retoma a um centro originário para compreender, investigar e ler a história do cinema negro no Brasil. Gomes (2020) alerta que o movimento não teria sido “criado pelo próprio Bulbul, mas é um fenômeno que ocorre com seu legado e, de certa forma, ‘contra’ seus filmes, contra o que eles mostram, contra sua face rizomática” (s/n). E questiona: “Dá para imaginar sem Pai, sem Ídolo, sem Master, sem Senhor, sem domínios ou dominação?” (idem)
Se formular os inícios pode ser constitutivo dos processos de elaboração de narrativas históricas e historiográficas, nos aventuramos a dizer, neste trabalho, que não se trata apenas de colocar em crise a ideia de início histórico como propulsor para a escrita do passado — e produzir significações acerca dele, ao olhar em retrospecto diante dos acontecimentos —, mas de elaborar uma crítica à escrita da história a partir da noção de origem, daquilo que é irrefutável e inalterável, presente nos discursos que legitimam Zózimo Bulbul — e o curta-metragem ‘Alma No Olho’ — como gesto inaugural ou de fundação do cinema negro brasileiro.
O que está em jogo em nossa investigação é questionar quais — e como são — os critérios metodológicos, políticos, ideológicos e epistemológicos que passaram a ser incorporados — ou ignorados — com o objetivo de institucionalizar o pioneirismo de Zózimo Bulbul. Uma abordagem edificada a partir de um viés essencialista, que reencena uma lógica linear e progressiva do tempo e ignora a contingência, a imprevisibilidade e as contradições que estão presentes nos processos históricos do cinema (negro) brasileiro.
Bibliografia
- AUGUSTO, Heitor. Passado, presente e futuro: cinema, cinema negro e curta-metragem. In: Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte (20.: 2018). SIQUEIRA, Ana, et al. (org.). Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 2018.
BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro: metodologia e pedagogia. 2ª edição. São Paulo: Annablume, 2008.
CARVALHO, Noel dos Santos. O produtor e o cineasta Zózimo Bulbul – O inventor do cinema negro brasileiro. Revista Crioula, [S. l.], n. 12, 2012. DOI: 10.11606/issn.1981-7169.crioula.2012.57858.
GOMES, Juliano. Pós-escrito ou Por um cinema negro que não caiba. Revista Cinética, 2021.
MELO, Luís Alberto Rocha. A chanchada segundo Glauber. Contracampo, v. 74, 2005.
OLIVEIRA, Janaína; COHEN, Mark. With the Alma no Olho: Notes on Contemporary Black Cinema. Film Quaterly, v. 74 (2), 2020.
ROCHA, Lorenna; ARAÚJO, Gabriel. Historiografias para o cinema negro brasileiro, ou O passado não deveria ser um inimigo. Cinemateca Negra, 2024.