Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Luís Henrique Barbosa Leal Maranhão (UFRB)

Minicurrículo

    Professor de Fotografia e Tecnologias Audiovisuais no Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Doutor em Comunicação Audiovisual pela Universitat Autònoma de Barcelona, foi professor visitante na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne em 2021 e realizou pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2025. É realizador, diretor de fotografia e desenvolve pesquisas na área dos estudos visuais, com ênfase em fotografia e cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Dia da Pátria: Imagens e contra-imagens da ditadura militar brasileira (1964-1985)

Seminário

    Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens

Resumo

    Que relações podemos estabelecer entre a imagem oficial de um desfile militar em 1971, uma fotografia guardada por um fotógrafo por dez anos antes de ser publicada e o registro da Aeronáutica da troca de presos políticos por um embaixador? Nesta comunicação, compartilho o processo criativo do ensaio fílmico “Dia da Pátria”, que ao contrapor/justapor imagens de diferentes regimes de visibilidade, investiga como as imagens operam disputas narrativas em torno da ditadura militar brasileira

Resumo expandido

    Rio de Janeiro, desfile do Dia da Pátria em 1971. Num vídeo institucional da ditadura militar (1964–1985), podemos ver uma iconografia do poder tal como desenhada pelos militares. Trata-se de uma cerimônia profundamente coreografada, com a presença do general-ditador Emílio Médici fazendo um discurso, ladeado por militares de alta patente.

    Nesta comunicação, compartilho reflexões em torno do processo criativo do ensaio fílmico “Dia da Pátria”, que ao confrontar representações oficiais da ditadura com outros regimes de imagens, discute caminhos de resistência a partir das imagens. Através da montagem, o ensaio se utiliza dos conceitos de “campo” e “contracampo” não apenas como uma forma de representar o espaço cinematograficamente, mas como expressões dialéticas do pensamento histórico que se faz ver pela imagem (Godard, 2004).

    Partindo da justaposição como princípio de uma tensão dialética manifesta na contraposição das imagens, “Dia da Pátria” propõe a construção do “contracampo” do imaginário oficial que se construiu da ditadura através da análise de dois gestos de naturezas distintas: (i) uma fotografia de Orlando Brito, um dos principais expoentes do fotojornalismo brasileiro; e (ii) e a captura do embaixador estadunidense Charles Elbrick por grupos da oposição armada à ditadura, que acabaria por impor uma “contra-imagem” (Leal, 2024) do poder.

    A imagem de Brito — captada em Brasília no mesmo dia do já referido desfile do Dia da Pátria de 1971 — representa o evento de exaltação patriótica, direcionando sua câmera justamente para aqueles que haviam ficado de fora da representação das imagens de propaganda: o povo. Na composição, o fotógrafo unifica espacialmente todas as pessoas sob um coturno militar, que paira sobre as cabeças de uma multidão de homens e mulheres trabalhadoras que estão na rua. A composição trabalha visualmente os elementos colocados no espaço como uma montagem, cuja finalidade é transmitir uma ideia que transcende o factual para compor uma crítica ao poder autoritário que se impõe sobre o povo. Esta imagem permaneceria guardada e só viria a público com a publicação do livro Perfil do Poder, lançado 10 anos depois.

    Dois anos antes da fotografia de Brito ser feita, em 1969, num momento em que o Congresso permanecia fechado em função do AI-5 e uma Junta Militar ocupava o poder depois de um golpe dentro da sucessão presidencial, uma ação organizada pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) capturou o embaixador dos Estados Unidos e estabeleceu condições para o resgate: a libertação de 15 presos políticos com transferência segura para o exterior e a publicação e leitura de um manifesto nos principais jornais, rádios e televisões do país.

    Como prova do cumprimento da sua parte no acordo, a Aeronáutica fez uma fotografia de 13 dos 15 presos políticos e a enviou para divulgação nos principais jornais do país. A ação, dessa forma, operou uma interferência na construção da imagem da ditadura, a nível nacional e internacional, e redefiniu os termos da representação dos meios de comunicação em torno do Dia da Independência daquele ano. Estabelecendo uma ruptura com a captura dos símbolos nacionais em favor daqueles que tinham um projeto autoritário e excludente de país, a imagem dos presos políticos se impôs naquele ano como uma “contra-imagem” dos desfiles, festejos e exaltação dos militares. Esse é um momento excepcional em que a ação de resistência consegue se impor à propaganda da ditadura.

    Ao investigar estes dois gestos, o filme explora o lugar das imagens nas disputas políticas e a construção de imagens como forma de disputa política. O ensaio fílmico “Dia da Pátria” integra a série Fotogramas, atualmente em desenvolvimento. A série é um encontro entre reflexões teóricas e criação artística e busca discutir a complexidade e a extensão do projeto autoritário da ditadura por meio da investigação das formas de conhecimento inscritas nas imagens fotográficas.

Bibliografia

    ALN – AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL. Manifesto da ALN e do MR-8: sequestro do embaixador americano no Brasil, 4 set. 1969.

    BRITO, Orlando. Perfil do Poder. Brasília: Ágil, 1981.

    FOUCAULT, Michel. El sujeto y el poder. Revista Mexicana de Sociología, v.50, n.3, 1988.

    FOTOGRAMAS. Luís Henrique Leal e Caioz, Brasil, 2026.

    HUMBERTO, Luís. Fotografia: universos e arrabaldes. Rio de Janeiro: Funarte, 1983.

    JORNAL DO BRASIL, 6 out. 1969.

    LEAL, L. H. Imagens e contra-imagens: disputas em torno do significado da ditadura militar brasileira (1964-1985). Significação, v.51, 2024.

    LISSOVSKY, M.; AGUIAR, A. L. L. “Monumentos à deriva: imagens e memória da ditadura no cinquentenário do golpe militar de 1964”.

    LISSOVSKY, M. Será isso a realidade? A fotografia brasileira nos tempos da ditadura. Conferência no Instituto Moreira Salles, 2013.

    NOSSA MÚSICA. Jean-Luc Godard, 2004.

    PRISIONEIROS viajam e sequestradores prometem soltar Embaixador ainda hoje. Jornal do Brasil, 7-8 set. 1969.