Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Arthur Ribeiro Frazão (UFRJ)

Minicurrículo

    Arthur Frazão é montador e realizador audiovisual. Doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2018). Graduação em Comunicação Social – Radialismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007).

Coautor

    Mili Bursztyn de Oliveira Santos (UFF)

Ficha do Trabalho

Título

    Apontamentos para um olhar ch’ixi sobre a pedagogia da montagem

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    Propomos cotejar a produção teórica e artística de Silvia Rivera Cusicanqui com o objetivo de contribuir para as discussões sobre a pedagogia da montagem de uma perspectiva ch’ixi de pensar o mundo. Interrogar as imagens, entendê-las em suas contradições, aproximar contextos históricos distintos, conjugar teoria e prática, são algumas das abordagens de Rivera Cusicanqui que nos motivam a perguntar de que forma o seu pensamento pode alargar o campo de estudos sobre a montagem audiovisual?

Resumo expandido

    O termo aimará ch’ixi significa uma tonalidade que a distância parece um cinza, mas que de perto é constituída por inúmeros pontos pretos e brancos (Rivera Cusicanqui, 2024). Uma abordagem ch’ixi do mundo implica em “um modo de não buscar a síntese, de trabalhar com a (e na) contradição” (Rivera Cusicanqui, 2024, p. 105-6). Esta noção é central no pensamento de Silvia Rivera Cusicanqui e na sua abordagem das imagens, que podem ser aquarelas do séc. XIX do pintor chuquisaquenho Melchor Maria Mercado, ilustrações do séc. XVII do cronista indígena Waman Puman, filmes do cineasta Jorge Sanjinez ou mesmo um exercício pedagógico de coletar fotografias em uma feira de El Alto.
    Silvia Rivera Cusicanqui (2025) defende que seu pensamento não se desenvolve apenas por uma teoria escrita, estando diretamente relacionado a uma prática de montagem. Este entendimento da montagem enquanto gesto criativo que extrapola “o efeito de composição” (Didi-Huberman, 2017, p. 73), reverbera outros pensadores do século XX, que, tal como Cusicanqui, reconhecem a existência de um método de construção de conhecimento que se faz pela decomposição e disposição das imagens de forma a revelar “suas diferenças, seus choques mútuos, suas confrontações, seus conflitos”(Didi-Huberman, 2017, p. 79).
    Cezar Migliorin e Elianne Ivo Barroso (2016) apontam que ao longo da história, cineastas e teóricos pensaram o cinema e a montagem como uma forma de pedagogia que estabelece uma relação entre os filmes e espectadores. Os autores partem do argumento de Serge Daney de que o cinema e a educação funcionam “devolvendo algo do sujeito ao mundo, inventando um receptor para essa devolução. Uma devolução que não é da coisa em si, mas da coisa atravessada por uma mediação estético-política” (Migliorin; Barroso, 2016, p. 21). A ideia de que a montagem se dá em uma relação horizontal entre o filme e o espectador, que aporta seu potencial criador, já aparecia nos textos de Eisenstein (2002) sobre o cinema. Em artigo em que problematiza o lugar das imagens e do cinema na educação, Anita Leandro (2001, p. 31) afirma que a imagem “pensa e faz pensar”, defendendo que se interrogue as imagens.
    Nesta comunicação, propomos cotejar a produção teórica e artística de Rivera Cusicanqui com o objetivo de contribuir para as discussões sobre a pedagogia da montagem de uma perspectiva ch’ixi de pensar o mundo. Interrogar as imagens, entendê-las em suas contradições, aproximar contextos históricos distintos, conjugar teoria e prática, são algumas das abordagens de Rivera Cusicanqui que nos motivam a perguntar de que forma o seu pensamento pode alargar o campo de estudos sobre a montagem audiovisual.
    O ensaio Experiências de montagem criativa: da história oral à imagem em movimento (Rivera Cusicanqui, 2025), contém pistas para entendermos de que forma a autora articula teoria e prática com montagem audiovisual. Ao comentar o trabalho no livro Los artesanos libertários:y la ética del trabajo, composto por testemunhos de participantes do movimento anarco-sindicalista boliviano do séc XX, Rivera Cusicanqui aproxima o exercício de edição de texto ao de montagem audiovisual. Em outro momento, a autora e cineasta reflete sobre o processo de realização de Wut Walanti: o irreparável (Bolívia, 1993), filme que aborda o Massacre do Todos os Santos, em La Paz em 1979, quando uma série de protestos populares foram reprimidos violentamente, com civis metralhados por soldados em helicópteros. No último dia de filmagem, o escultor Víctor Zapana, apresenta a noção aimará wut walanti, que significa pedra quebrada e diz respeito ao irreparável. No filme, a diretora aproxima pela montagem as imagens da pedra quebrada e dos corpos violentados com a intenção de criar uma abertura reflexiva para os espectadores. Sobre o filme, a autora escreve: “Essa é a beleza e o risco da obra cinematográfica: sempre estará inconclusa enquanto não realizar o percurso que a devolve as massas” (Rivera Cusicanqui, 2025, p. 356).

Bibliografia

    DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tomam posição. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017.
    EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme. Rio de Janeiro: Zahar. 2002.
    LEANDRO, A. “Da imagem pedagógica à pedagogia da imagem”. Comunicação &
    Educação, v. 7, n. 21, p. 29-36 2007.
    MIGLIORIN, Cezar; BARROSO, Elianne Ivo. Pedagogias do cinema: montagem. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, v. 43, n. 46, p. 15–28, 2016. Disponível em: https://revistas.usp.br/significacao/article/view/115323. Acesso em: 20 abr. 2026.
    RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Sociologia da imagem: Olhares ch’ixi sobre a história andina. São Paulo: Elefante, 2025.