Ficha do Proponente
Proponente
- Carla Ludmila Maia Martins (UNA)
Minicurrículo
- Pesquisadora, programadora e professora de cinema. Tem Doutorado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais, com período como pesquisadora visitante na Tulane University, em NovaOrleans/EUA. É professora do Centro Universitário UNA. Faz parte do coletivo Filmes de Quintal, que organiza o forumdoc.bh. Participou de diversos festivais e mostras no Brasil, como programadora, membro do júri e/ou palestrante. Atualmente, é gestora do Cine Santa Tereza, em Belo Horizonte.
Ficha do Trabalho
Título
- Entre o fim e o começo: notas para pensar espectatorialidades emergentes
Seminário
- Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual
Resumo
- Partimos da constatação de que mudanças estruturais nas maneiras de ver e dar a ver desafiam curadores, programadores, organizadores de festivais e exibidores de modo geral a repensarem as dinâmicas de fruição fílmica, objetivo central de suas atividades. Retomamos o pensamento de Comolli e de Walter Benjamin para dialogar com o pensamento dos autores à luz de fenômenos contemporâneos, como a transmissão por streaming e a produção de imagens por Inteligência Artificial Generativa (IAG).
Resumo expandido
- Ao refletir sobre os regimes de crença e de desejo que movem a experiência cinematográfica, em particular a experiência da recepção, Comolli propõe um/a espectador/a fundamentalmente dividido/a – entre saber e crença, entre distância crítica e entrega emocional, entre o sujeito da percepção e o sujeito do desejo. O/a espectador/a de cinema sabe que o que vê são imagens filmadas, não o mundo real, e, no entanto, chora, ri, sente medo. A coexistência de saber e crença é a estrutura psíquica fundamental da experiência cinematográfica. Para Comolli, essa divisão é a condição de possibilidade do cinema como forma artística e como experiência estética. Um/a espectador/a que “soubesse sem crer” veria apenas imagens; um/a espectador/a que “cresse sem saber” seria a vítima perfeita da ilusão.
O trabalho se concentra em rever essa cisão, buscando uma atualização necessária frente aos novos dispositivos imagéticos da contemporaneidade. A imersão, a dimensão coletiva da recepção, o ritual de deslocamento até a sala e de entrega ao dispositivo configuram uma experiência subjetiva singular, que o cinema ao longo do século XX foi sistematicamente elaborando e refinando, mas que no século XXI se vê ameaçada pelo apelo do streaming, que oferece o conforto de não precisar se deslocar até a sala, nem de se sujeitar à duração da sessão. Assim, as condições de espectatorialidade passam a ser marcadas pela distração e pela não sujeição às imposições temporais e espaciais da experiência cinematográfica original. O espectador de streaming já não adentra uma sala escura, e durante a exibição do filme em sua tela privada pode pausar, acelerar, alterar a duração com um simples toque de tela ou teclado. A hipótese sustentada no trabalho é a de que tais mudanças exigem refletir sobre um espectador que “sabe sem crer”: que vê apenas imagens, sem o mesmo investimento libidinal de outrora. “Seria o fim da imagem trazido pela sua própria saturação?” – uma das questões que movem a presente edição da Socine ecoa no presente trabalho.
Por outro lado, a emergência de modelos do que se chama agora de Inteligência Artificial Generativa (IAG) permite indagar sobre o destino das imagens em tempos de sua generatividade técnica. Em cotejo com o conceito de reprodutibilidade técnica benjaminiano, é preciso repensar o que acontece com a experiência estética nesses novos tempos, marcados pela geração artificial de imagens, tanto quanto por sua reprodução. Crer na imagem, mas sem saber que ela foi gerada artificialmente, que não possui relação indicial com o mundo material e histórico, é um fenômeno corrente em tempos de IAG – fenômeno que conduz à ilusão, se seguirmos na esteira de Comolli. Distraídos/as ou iludidos/as, o que é feito de nós, espectadores/as?
A proliferação das plataformas de streaming, a fragmentação das audiências, o consumo individualizado e desritualizado dos filmes não eliminaram as estruturas de poder que atravessam o visível — elas as reconfiguraram. Os algoritmos de recomendação são novos dispositivos de organização do olhar; as interfaces das plataformas são novos espaços – virtuais, não mais materiais – de constituição do espectador. A análise que Comolli desenvolveu para o cinema clássico e para a televisão permanece, mutatis mutandis, válida para a ecologia audiovisual contemporânea e suas novas formas de regulação do visível, mas exigem ser repensadas e atualizadas. O presente trabalho busca contribuir para essa atualização, elaborando uma investigação sobre as alterações envolvidas na espectatorialidade contemporânea, para em última análise refletir sobre as consequências dessas alterações tanto para a exibição cinematográfica – finalidade última dos festivais e mostras de cinema – quanto para os processos de subjetivação e as relações entre visibilidade e poder. Buscamos, sobretudo, arriscar algumas hipóteses sobre mundos por vir, frente a outras dinâmicas de crença e de desejo agenciadas pelos modos de ver e dar a ver de nossos tempos.
Bibliografia
- BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da arte. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996. (Obras escolhidas, v. 1).
COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder — a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.