Ficha do Proponente
Proponente
- Maria Angélica Del Nery (Sem vínculo)
Minicurrículo
- Maria Angélica Del Nery (1964) é cineasta, fotógrafa, artista visual e pesquisadora. Doutora pelo PPGMPA-ECA-USP, com a tese Travessia infratênue: efeitos de imagem no limiar entre a mobilidade e a imobilidade (2025). Mestre pelo PPGAV-ECA-USP, com a dissertação Sala Devir Cinema: seis variações poéticas de uma película cinematográfica (2018). Como cineasta, dirigiu: “Urucuia” (1998); “Livro para Manuelzão” (2003); “Turista Aprendiz” (2005); “Exercícios do Olhar ” (2017).
Ficha do Trabalho
Título
- Invisibilidades tangíveis: reflexões sobre a instalação “I see a woman crying”, de Rineke Dijkstra
Resumo
- A videoinstalação “I see a woman crying” (2009), de Rineke Dijkstra, na qual nove estudantes adolescentes descrevem uma pintura que não vemos, abre caminho para uma reflexão sobre o ato de ver uma imagem. A partir dos elementos que compõem a videoinstalação, e tomando por base o pensamento de Merleau-Ponty sobre a visão que interroga uma imagem, este estudo pretende analisar o encontro do observador com uma obra de arte, enquanto experiência sempre em aberto, inventiva e criativa.
Resumo expandido
- A instalação “I see a woman crying” (“Eu vejo uma mulher chorando”, 2009), de Rineke Dijkstra, abre caminho para uma reflexão sobre o ato de ver uma imagem, sobre o encontro de um observador com uma obra de arte.
Na videoinstalação “I see a woman crying”, vemos um grupo de nove adolescentes, em seus uniformes escolares, manifestarem suas impressões sobre uma pintura que está diante deles, mas que nós não vemos. A pintura, visível para eles e invisível para nós, é “Weeping woman” (“Mulher chorando”, 1937), de Picasso. A instalação é composta por três projeções sincrônicas dispostas lado a lado. Cada um dos três vídeos mostra alguns componentes do grupo. Diante o conjunto dos três vídeos, que juntos formam uma espécie de plano panorâmico, podemos ver a totalidade dos participantes frontalmente. Os vídeos foram filmados simultaneamente, com câmeras sobre tripés. Movimentos de câmera e zoom imprimem variações de enquadramento, de forma que às vezes vemos todos os estudantes, às vezes vemos parte do grupo, e muitas vezes vemos alguns participantes parcialmente duplicados. Com relação às falas, elas acontecem espontaneamente, sendo que muitas vezes se sobrepõem, com interrupções e retomadas. E o que dizem os jovens estudantes sobre a pintura que veem e nós não vemos? Após um silêncio, eles começam a fazer curtas descrições da pintura, começando, na maioria das vezes, com locuções como “eu vejo” ou “talvez”. A primeira fala é de um garoto que diz: “eu vejo uma mulher chorando”. O grupo faz observações sobre formas e cores da pintura, e, principalmente, divaga sobre a causa do choro da mulher retratada: ela chora porque está sozinha, ela chora porque está arrependida de algum erro, chora porque algo aconteceu, porque seu marido foi embora, porque alguém morreu, porque recebeu uma carta dizendo que seu marido morreu na guerra, porque viu um fantasma, porque é ela diferente, porque ninguém quer ser seu amigo. Durante doze minutos, as hipóteses se multiplicam, flutuam, se sucedem em idas e vindas, e até chegam a inverter o primeira visão: talvez ela esteja rindo, talvez esteja chorando de alegria… Acompanhar as divagações interrogativas nos faz perceber o quanto as suas visões se misturam ao seus repertórios, aos seus medos e desejos, a suas experiências cotidianas, inclusive aquelas vindas de ficções. Como diz Didi-Huberman: “Ver é sempre uma operação de sujeito, portanto uma operação fendida, inquieta, agitada, aberta. Todo olho traz consigo sua névoa, além das informações de que poderia num certo momento julgar-se o detentor”. (2010, p. 77).
O registro desse encontro nos abre a oportunidade de refletir sobre a percepção da obra de arte. A instalação de Rineke Dijkstra, com seus elementos visíveis, aflora o invisível: o invisível da pintura que não vemos; o invisível que os jovens estudantes tateiam ao olhar a pintura; o invisível que a cada um de nós se abre diante das imagens videográficas; o invisível de ver aquele que vê o que não vemos. Diz Merleau-Ponty: “[ver] é, por princípio, ver mais do que se vê, é ter acesso a um ser de latência. O invisível é o relevo e a profundidade do visível e, assim como ele, o visível não comporta positividade pura”. Para o filósofo, vemos “segundo e com” as imagens que povoam a nossa percepção, assim como o nosso imaginário (CARONE, 2019, p.9 e p.10).
A partir dos elementos que compõem a videoinstalação “I see a woman crying”, e tomando por base o pensamento de Merleau-Ponty, em diálogo com outros teóricos do audiovisual e filósofos, este estudo pretende trazer uma análise sobre o encontro do observador com a obra de arte como uma experiência sempre em aberto, inventiva e criativa, um acontecimento entre incompletudes, um transbordamento que passa pelos elementos concretos da obra e, também, pelo seu vazio, presente desde sua criação até sua fruição, a ser habitado por aquele que vê, aquele que ao ver traz consigo suas experiências e memórias.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. O olho interminável. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
BELLOUR, Raymond. La querelle des dispositifs. Paris: POL, 2012.
BRUNO, Giuliana. Atlas of emotion. New York: Verso Books, 2002.
____ Surfaces. London: The University of Chicago Press, 2014.
CARBONE, Mauro. Ver segundo o quadro, ver segundo as telas. Caxias do Sul, RS: Educs, 2019.
DIDI-HUBERMAN, George. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 2010.
DIJKSTRA, Rineke. Rineke Dijkstra: A retrospective. NY: Guggenheim Foundation, 2012.
DUBOIS, Philippe. La question vidéo. Crisnée: Yellow now, 2011.
MACHADO, Arlindo. A arte do vídeo. São Paulo: Brasiliense, 1997.
MERLEAU-PONTY, Maurice. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva,1992.
____ Fenomenologia da Percepção, São Paulo: Martins Fontes, 2011.
____ O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.