Ficha do Proponente
Proponente
- Danielle de Souza Menezes (UFJF e UFF)
Minicurrículo
- Doutoranda em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense e em Artes, Cultura e Linguagens pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Possui mestrado em Artes, Cultura e Linguagens e graduação em Cinema e Audiovisual e em Artes e Design, também pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Seus interesses de pesquisa voltam-se à estética e à teoria do cinema, com ênfase nas relações entre cinema e paisagem, no cinema experimental e nas interseções entre o cinema e as outras artes.
Ficha do Trabalho
Título
- La Vallée Close (1995), um tratado fílmico-geográfico
Seminário
- Cinema e Espaço
Resumo
- Esta comunicação se detém em uma análise do filme La Vallée Close (1995), de Jean-Claude Rousseau. Tendo em vista que o cineasta utilizou um livro de geografia como inspiração para a realização do filme, trabalharemos imagem e som (privilegiando aspectos como claro e escuro, fundo e figura, parâmetros de composição, músicas e ruídos) a fim de compreender o que seria, para ele, tanto a temática geográfica quanto a demarcação de um espaço geográfico estritamente fílmico.
Resumo expandido
- A cinematografia de Jean-Claude Rousseau perpassa temáticas (e formas) referentes às compreensões de espaço e de paisagem. A maioria de suas obras foram feitas observando relações entre o espaço interno e o externo, entre um rolo de filme e outro (sua montagem é pensada em função dos materiais contidos em bloco em bobinas de 8mm), e entre a relação obtida por meio de um som realizado num certo momento, num certo espaço, com uma imagem que se refere a um outro momento e um outro espaço.
Ainda, quanto a seu método de realização, há reflexões sobre o som em relação ao espaço de gravação (o que ele chamaria de “não mixagem”), os volumes obtidos por meio da distância física entre o gravador e o objeto gravado, as camadas de som criadas diretamente na captação. Nas imagens, percebemos uma fragmentação dos espaços, um estudo minucioso das partes que os constituem, a recorrência de mapas, a repetição de portas, janelas e lugares de passagem (como os hotéis).
Mas, dentro de um jogo de dualidades (interno e externo, dia e noite, claro e escuro, figura e paisagem), há os espaços “entre”: os ruídos do material (tanto imagem quanto som), que Rousseau opta por trazer à tona; as janelas (tão presentes em seus filmes), que permitem somar o interno ao externo; os sons dos espaços que não vemos e que, às vezes, vêm de objetos, como um rádio, um telefone ou um computador.
Em La Vallée Close, Rousseau não apenas expõe essas dualidades como também as interroga. Se há o dia e a noite, há também algo entre esses dois tempos (e espaços), há a alvorada e o crepúsculo. Se é preciso marcar uma data ou um horário, ele nunca pode ser exato, é necessário evidenciar o ontem, o hoje e o amanhã, assim como as horas, que partem dos cálculos do tempo e do espaço; é preciso insistir numa imagem e num som, repeti-los, recalculá-los, para que as dualidades sejam desestabilizadas.
Levando em conta também o processo de feitura do filme (as inúmeras viagens para Vaucluse, os mistérios referentes a esse lugar, as referências principais, o processo de “montagem” da imagem e do som), veremos como, de certo modo, para o cineasta, a geografia corresponde tanto a um vale fechado quanto a um mundo à parte, que só é possível graças à criação cinematográfica, que pode transformar as orientações geográficas, as estações, o fluxo do rio, as representações da terra e as direções cardinais em forma fílmica (assim como ele identifica cada sessão de sua obra).
Perceberemos como as imagens realizadas pelo cineasta podem ser semelhantes a determinadas pinturas de paisagem, a fotografias (e filmes) do homem na lua, e como podem carregar também contornos das utilizações mais recorrentes da câmera Super 8, dos filmes amadores (não apenas pelo ruído e as telas em preto, como também pela escolha de captação de determinadas cenas). Notaremos que, para ele, é como se a geografia fosse pertencer, caminhar por determinado espaço e, ao mesmo tempo, estar suficientemente distante dele (e é assim que ele discorre sobre os mapas no filme).
Bibliografia
- ALPERS, Svetlana. A Arte de Descrever: A arte Holandesa no Século XVII. São Paulo: Edusp, 1999.
ASPAHAN, Pedro Cardoso. Composição musical e pensamento cinematográfico: a estética do serialismo no cinema de Straub-Huillet. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2017.
BIRTWISTLE, Andy. Cinesonica: sounding film and video. Manchester University Press, 2017.
NEYRAT, Cyril. No Escribo’ O Las afinidades literarias del cine sin escritura de Jean-Claude Rousseau. In: https://www.elumiere.net/especiales/Rousseau/01_web/01_Rousseau.php
ROGERS, Holly; BARHAM, Jeremy (ed.). The music and sound of experimental film. Oxford University Press, 2017.
WAJCMAN, Gérard. Fenêtre: chroniques du regard et de l’intime. Paris: Verdier, 2004.
YON; ROUSSEAU, David; Jean-Claude. Entrevista con Jean-Claude Rousseau. La Vallée close. In: https://www.elumiere.net/especiales/Rousseau/01_web/entrevistasyon.php