Ficha do Proponente
Proponente
- Pablo Borges Paz (UFMT)
Minicurrículo
- Pablo Borges Paz é graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS) pela mesma. Tem experiência em produções audiovisuais nas funções de platô e como produtor do Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá (CINEMATO).
Ficha do Trabalho
Título
- Muito riso e pouco siso: as contradições da paródia em Nem Sansão nem Dalila (1954)
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Por meio da análise fílmica de Nem Sansão nem Dalila (1954), a presente pesquisa busca indagar a paródia presente na obra por meio do conceito do riso que não reconcilia, de Safatle (2008). Nele, não seria mais o riso irônico capaz de esclarecer a hipocrisia das práticas do poder, mas sim uma forma de reforçar contradições irreconciliáveis.
Resumo expandido
- O longa-metragem Nem Sansão nem Dalila (Carlos Manga, 1954) não seria a primeira vez em que Oscarito participaria de uma obra satírica em clara alusão a Vargas. Em 1932, na sua transição do circo para o teatro de revista, faria Calma, Gegê!. Quanto à peça, relembra: “Houve um monólogo logo na minha estréia sobre o presidente Getúlio Vargas, no Calma, Gegê!. Há até uma foto minha dando um abraço nele. Penso até que há um discurso dele que ele fala em mim. Me chama de velho amigo” (MARINHO, 2007, p. 96). A titulação de “velho amigo” explicita as relações entre os artistas de teatro musicado e Vargas, que podiam chegar a ser íntima, sendo o próprio um frequentador das revistas. Luis Iglesias, por exemplo, autor de algumas peças estreladas por Oscarito, conseguia liberar espetáculos de maneira pessoalíssima, como relembra sua mulher à época, Eva Todor: “o Iglesias ia com o texto para o Palácio do Catete e o Getúlio dizia assim: ‘O que há, menino?’ E aí ele respondia: ‘É a censura, senhor presidente, o que é que eu vou fazer?’ Ele dobrava a página e escrevia — ‘Represente-se, Getúlio Vargas’. Sem ler” (MARINHO, p. 116).
O causo descrito por Todor reforça também a percepção de Victor Lima, roteirista de Nem Sansão, nem Dalila. Para ele, Vargas “achava graça com a graça […] achava que até que ele ficava mais popular” (VIEIRA [1980] 2018, p. 19). A sátira, na chanchada, não se restava somente à política, sobrando também ao subdesenvolvimento do cinema brasileiro frente ao cinema estadunidense. A razão de existência da fita já exprime tal dado, sendo puramente uma questão comercial, segundo Lima ([1980] 2018, p. 14,). Isto é, se aproveitar do sucesso de bilheteria do épico hollywoodiano Sansão e Dalila (1949) para atrair o público. De acordo com Carlos Manga “A nossa intenção era fazer uma paródia mesmo, porque igual a gente não faz” (MARINHO, 2007, p. 253). A alegoria se manifesta na inversão entre cabelos. Em Hollywood os cabelos dão o poder de Sansão, no Brasil de 1954, transmutado para Gaza, é a peruca. A ironização também se deslocava ao estúdio paulista Vera Cruz “que tinha uma montanha de dinheiro mas só produzia filmes estilo suíço, sueco” (VIEIRA, p. 30, [1980] 1983).
Tendo como objeto Nem Sansão nem Dalila, a presente pesquisa busca – a partir dos dados descritivos de Marinho (2007), Vieira, Pereira, Luna (2018), dos conceitos de ironia e cinismo de Safatle (2008) e de paródia nas chanchadas de Vieira (1983) – analisar a sátira manifestada tanto na narrativa do filme, quanto naqueles que o produziram – Oscarito, Lima e Manga. Seria o caráter de arremedo da fita de Manga em relação ao épico hollywoodiano puramente uma capitalização do sucesso do modelo original para atração de público, ou uma exemplificação da dependência ao produto estrangeiro, ausente de denúncia da sua subalternidade? Ainda mais, seria o riso uma ferramenta de produção de “desmascaramento das imposturas do poder” ou “nudez que não desmascara” (SAFATLE, p. 94)? Isto é, por um lado temos um diretor de 22 anos que dirige um filme com intenções de expurgar sua revolta “contra a ditadura Vargas, com sede de criticar”. Por outro, um governante objeto de crítica tido como “benigno” (VIEIRA, p. 19, [1980] 2018), que permite a sátira, ri junto com a zombaria e posa para fotos com o ator que lhe ironiza. Portanto, seria o riso na obra somente uma manifestação leviana, apartado de ponderação – de siso -, da sua serventia à conservação e legitimação do regime de poder?
Bibliografia
- MARINHO, F. Oscarito: O riso e o siso. Rio de Janeiro: Record, 2007.
SAFATLE, Vladimir. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo, 2008.
VIEIRA, João Luiz; PEREIRA, Lucas dos Reis Tiago; FREIRE, Rafael de Luna. Paródia e chanchada: entrevista com Victor Lima. C-Legenda, n.36, 2018.
VIEIRA, João Luiz. Entrevista com Carlos Manga. Filme Cultura, Rio de Janeiro, Embrafilme, n.41-42, 1983, p.30.
VIEIRA, João Luiz. Este é meu, é seu, é nosso: introdução à paródia no cinema brasileiro. Filme Cultura, Rio de Janeiro, Embrafilme, n.41-42, 1983, p.22-29.