Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Victor Siqueira Santos (UFBA)

Minicurrículo

    Aluno do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia, membro e bolsista do Núcleo de Estudos em Sociologia da Arte (Nuclearte), onde já fez parte da comissão de eventos e realiza a mediação em cinedebates. Além disso, é bolsista de iniciação científica sob orientação do professor Antônio Câmara, com uma pesquisa intitulada Imagens, Memória e Utopia na trilogia de Patricio Guzmán – A Batalha do Chile.

Ficha do Trabalho

Título

    Da utopia à melancolia: a elaboração do trauma em A Batalha do Chile (1975-1979)

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    A trilogia A Batalha do Chile (1975-1979) documenta, em tempo real, o golpe de 1973. Ao registrar o trauma sofrido, se situa em um limiar entre a utopia e o que Enzo Traverso (2021) diagnosticou como “melancolia de esquerda”. Este trabalho, portanto, visa analisar escolhas estéticas, técnicas e narrativas a fim de contribuir com um processo de autoanálise de uma esquerda que, segundo Traverso, apesar de melancólica, “não foge à autocrítica em relação a seus fracassos do passado” (ibid., p. 17).

Resumo expandido

    “Se a história no curto prazo é feita pelos vitoriosos, no longo prazo as vantagens do conhecimento vêm dos vencidos” (KOSELLECK, 2002, p. 76). A frase de Reinhart Koselleck se confirma em A Batalha do Chile (1975 – 1979), trilogia que documenta o golpe de 1973 — e os eventos que o precederam e o sucederam. Realizado por um grupo de cinegrafistas militantes liderados pelo diretor Patricio Guzmán, a obra atua como contra-memória, disputando sentidos do passado e confrontando as narrativas dos “vencedores”.
    Em Melancolia de esquerda (2021), Enzo Traverso vê no golpe contra Allende um limiar entre um momento em que o “socialismo era opção para o amanhã” e outro em que ele “não se projetava em um futuro vago e remoto” (p. 39-40). Se, para o autor, a queda do Muro de Berlim é o marco decisivo dessa transição, A Batalha do Chile registra o fim do sonho latino-americano de alcançar e manter o poder sem romper com o Estado liberal. A trilogia também marca, para alguns autores, o fim do nuevo cine latino-americano, que de um cinema que olhava para o futuro, passa a se voltar para trás a fim de elaborar seus traumas.
    Assim, o ponto de vista singular da obra não está só na proximidade com os eventos registrados, mas por se situar em um limiar histórico. Guzmán e sua equipe capturam um momento em que se encerra um passado utópico e se inicia o presente melancólico diagnosticado por Traverso (2021). Por essa razão, a obra oferece um acesso raro à “psique” da esquerda latino-americana antes, durante e após o trauma.
    Na elaboração desse trauma, sintomas da melancolia se manifestam em escolhas estéticas, técnicas e narrativas: de movimentos de câmera à recursos de edição, as decisões tomadas no revelar do objeto também revelam quem o filma. Assim, teorias para o cinema, como as de Dziga Vertov, Sergei Eisenstein e Walter Benjamin, servem também à análise da melancolia de esquerda.
    Na proposta de cine-olho de Vertov (1983), a filmagem já opera como uma forma de montagem, ao selecionar e ordenar o que entra ou não no quadro. A partir dessa premissa, o uso de diferentes enquadramentos em um mesmo plano — através do tilt, pan e zoom — podem ser analisados à luz da montagem dialética de Eisenstein (2011). Essas imagens, aliadas a recursos de pós-produção — como freeze frame, reenquadramento e blow up — evidenciam gestos, expressões e detalhes, revelando o que Benjamin (2006) chamou de inconsciente ótico. No entanto, o que esse trabalho propõe é, através da análise desses aspectos formais à luz dos conceitos citados, revelar também o inconsciente do sujeito atrás da câmera.
    A expressão do inconsciente dos envolvidos em A Batalha do Chile é potencializada pelo senso de urgência e implementação de novas tecnologias, tornando a trilogia um objeto de análise privilegiado nesse sentido. A necessidade de tomar decisões imediatas acompanha todas as etapas de produção da obra, e foram influenciadas pelo avanço técnico que trouxe câmeras mais leves e gravadores portáteis. Jean-Louis Comolli (2008), em seus ensaios sobre o cinema documental, enfatizou que a aproximação da máquina ao homem à torna uma espécie de prótese (p. 109).
    Se para Canolli, “colocar em cena é ser colocado em cena” (ibid. p. 82), a análise da mise em scène — e também da montagem — de A Batalha do Chile oferece acesso não só à uma janela para importantes eventos históricos. Mas também, para o consciente e inconsciente de um grupo de realizadores militantes que viram sua utopia se concretizar, para em seguida, ruir diante de suas câmeras.
    Portanto, este trabalho visa estudar escolhas estéticas, técnicas e narrativas de A Batalha do Chile, a fim de contribuir com o repertório para o processo de autoanálise de uma esquerda que, apesar de melancólica, “não foge à autocrítica em relação a seus fracassos do passado” (TRAVERSO, 2021, p. 17). Processo este, que confere o “potencial epistemológico do vencido” (KOSELLECK, 2002, p. 77).

Bibliografia

    BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. In: BARRENTO, João (org.). Estética e sociologia da arte. Lisboa: Relógio D’Água, 2006.
    COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Tradução de Augustin de Tugny, Oswaldo Teixeira e Ruben Caixeta. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.
    KOSELLECK, Reinhart, Transformation of experience and methodological Change : A historical-anthropological essay. In: The practice conceptual history: timing history, spacing concepts. Stanford: Stanford University Press. 2002.
    TRAVERSO, Enzo. Melancolia de esquerda: marxismo, história e memória. Tradução de André Telles. Belo Horizonte: Âyiné, 2021.
    VERTOV, Dziga. Extrato do ABC dos kinoks (1929). Tradução de Marcelle Pithon. In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal; Embrafilme, 1983.