Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Sofia Figueira de Siqueira (UFSCAR)

Minicurrículo

    Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som, sob orientação do Prof. Dr. Arthur Autran, concluí o mestrado em 2025 pelo mesmo programa, com a dissertação intitulada “Imagens de uma primeira-dama: Darcy Vargas no Cinejornal Brasileiro”. Minha pesquisa dedica-se à análise das imagens produzidas pelo Estado por meio dos cinejornais, investigando suas implicações na construção de narrativas históricas e da memória social.

Ficha do Trabalho

Título

    Arquivo, propaganda e memória social: os cinejornais brasileiros como dispositivos históricos

Resumo

    Esta proposta reflete sobre os materiais de arquivo na construção e/ou reconstrução da memória social. Parte-se dos resultados da dissertação de mestrado: “Imagens de uma primeira-dama: Darcy Vargas no Cine Jornal Brasileiro”, e da investigação preliminar do doutorado, que envolve o Cine Jornal Brasileiro e Cine Jornal Informativo. A comunicação propõe a análise desses arquivos considerando suas funções originais de caráter propagandístico e informativo.

Resumo expandido

    Os cinejornais integram uma ampla tradição cinematográfica caracterizada pela produção de curtas-metragens informativos que perduraram ao longo do século XX em diferentes formatos e contextos. Neste período, no Brasil, os cinejornais se tornaram uma das produções mais consistentes do cinema nacional (ARCHANGELO, 2012).
    Com a consolidação dos estudos na área do cinema, autores como Paulo Emílio Salles Gomes (SOUZA, 2003), Maria Rita Galvão (1982), José Inácio de Melo Souza (2003), se dedicaram ao levantamento e à análise dos arquivos fílmicos produzidos tanto pelo Estado, como por empresas privadas durante o século XX, desempenhando um papel fundamental na recuperação e na incorporação desses materiais ao campo dos estudos de cinema nacional.
    Para Lindeperg (2015), as imagens de arquivo não apenas registram, mas também expressam e produzem as maneiras de ver e pensar de uma época, participando da formação de memórias e imaginários. Segundo Ferro (2010), o filme – neste caso, os cinejornais – contribui para a constituição de uma contra-história, um documento que se desvencilha dos documentos e arquivos escritos pelas instituições tradicionais, tornando o cinema um agente da História, com papel ativo na construção de uma conscientização de um tempo ou espaço. Conscientização essa que só pode acontecer em sua plenitude quando o saber entre as diferentes áreas da Ciências Humanas se relaciona, chegando na compreensão não apenas da obra, mas da realidade que está representada ali.
    Nesta comunicação, propõe-se refletir sobre o lugar dos cinejornais como objeto central na construção e/ou reconstrução da memória histórica, com base no diálogo com autores já mencionados. Metodologicamente, articula-se a análise fílmica ao cruzamento com periódicos da época, documentos oficiais e a bibliografia.
    No contexto brasileiro, o Cine Jornal Brasileiro (CJB) foi produzido majoritariamente pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, durante todo o período do Estado Novo. O Cine Jornal Informativo (CJI) foi a produção posterior ao CJB, durante o período democrático após a ditadura de Getúlio Vargas, ligado a Agência Nacional. Os cinejornais no Brasil, são construídos a partir de conceitos fundamentais apresentados por Paulo Emílio Sales Gomes (CALIL, 1986), sendo eles: berço esplêndido e rituais de poder. Ambos os conceitos, bem estabelecidos nos estudos de cinema brasileiro, que se voltam para o culto das belezas naturais do país e das figuras públicas, principalmente os presidentes, dão suporte para a análise aqui proposta.
    Ambos os cinejornais apresentavam uma dinâmica semelhante, com edições curtas compostas por segmentos de notícias que nem sempre se articulavam entre si, além de serem acompanhados pela locução. Esses materiais circulavam nas salas de cinema em cumprimento ao Decreto nº 21.240, de 1932, que instituiu a obrigatoriedade da exibição de filmes educativos antes dos filmes de longa-metragem no circuito exibidor nacional (SOUZA, 2003).
    Conforme argumenta Siqueira (2025), ao ocuparem posição central na construção e reafirmação da figura da primeira-dama, a análise desses materiais, em contextos políticos e institucionais, possibilita problematizar as estratégias por meio das quais o Estado e outros agentes elaboraram narrativas de identidade e pertencimento. Pode-se concluir que a partir de Siqueira (2025), a figura da primeira-dama Darcy Vargas desempenhou papel significativo na construção de um ideário familiar que, ao mesmo tempo em que se apresentava como modelo de família brasileira, também operava como símbolo de benevolência e cuidado. A análise dessas imagens no presente insere-se no campo cinematográfico e histórico na medida em que evidencia que o acesso a esses filmes, possibilita a observação de figuras e momentos fundamentais para a compreensão política, cultural e histórica de um determinado período.

Bibliografia

    ARCHANGELO, R. Imagens do poder e o poder das notícias nos cinejornais. Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP, Campinas, 2012.
    CALIL, C.A. MACHADO, M. T. “Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. Coletânea de textos de Paulo Emílio Salles Gomes.” São Paulo: Brasiliense/Embrafilmes/Ministério da Cultura (1986).
    GALVÃO, M. R. Cine Jornal Brasileiro: Departamento de Imprensa e Propaganda, 1938-1946. São Paulo: Fundação Cinemateca Brasileira, 1982.
    LINDPERG, S. O destino singular das imagens de arquivo: contribuição para um debate, se necessário uma querela. DEVIRES-Cinema e Humanidades v.12, n. 1, 2015.
    FERRO, M. Cinema e História. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
    SIQUEIRA, S. F. de. Imagens de uma primeira-dama: Darcy Vargas no Cine Jornal Brasileiro. Dissertação (Mestrado em Comunicação). Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som, UFSCAR, São Carlos, 2025.
    SOUZA, J. I. de M. O Estado contra os meios de comunicação (1889-1945). São Paulo: Annablume/Fapesp, 2003.