Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Pedro de Andrade Lima Faissol (Unespar)

Minicurrículo

    Doutor e Mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Bacharel em Comunicação Social (Cinema) pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor Adjunto do Bacharelado em Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Paraná e do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV/Unespar).

Ficha do Trabalho

Título

    Milagre-Miragem: a figuração do falso no cinema

Resumo

    A comunicação consiste na análise de um conjunto de filmes que evocam o imaginário da Anunciação, alimentando a suspeita do milagre, para – em seguida – afirmar a sua falsidade. De início, classificaremos os filmes em três categorias: falso mensageiro, erro de interpretação e mediação enganosa. Em seguida, identificaremos a figuração do falso em cada um dos filmes examinados. Por fim, analisaremos comparativamente as estratégias adotadas e os efeitos de sentido produzidos.

Resumo expandido

    O episódio bíblico da Anunciação refere-se ao encontro do Anjo Gabriel com a Virgem Maria. Após ouvir e aceitar a mensagem do Anjo, respondendo-lhe que seja feito “segundo a tua palavra” (Lucas 1,38), a Virgem consente com a concepção de Cristo. O episódio da Anunciação, portanto, está intimamente ligado à encarnação do verbo divino. Como figurar a chegada de Deus no mundo dos homens? Como representar o invisível, o eterno, o incomensurável?

    Em trabalhos anteriores, detive-me nessas questões para identificar como o cinema, a partir de dispositivos herdados da pintura, encontrou soluções para representar este episódio bíblico. Neste momento, iremos nos voltar para filmes que evocam o imaginário da Anunciação, alimentando a suspeita do milagre, para – em seguida – afirmar a sua falsidade. Estamos interessados, portanto, em identificar diferentes estratégias formais empregadas para representar o que chamaremos de falso milagre – ou milagre-miragem.

    Para isso, propomos uma constelação formada pelos seguintes filmes: “O milagre” (Il miracolo, 1948), de Roberto Rossellini, “Benilde ou a Virgem Mãe” (1975), de Manoel de Oliveira, “A Marquesa d’O” (Die Marquise von O…, 1976), de Éric Rohmer, “Le Mirage” (1992), de Jean-Claude Guiguet, “O Viajante” (1998), de Paulo César Saraceni, e “First Reformed” (2017), de Paul Schrader.

    Apesar de suas profundas implicações teológicas, o episódio da Anunciação pode ser reduzido a um mero diálogo, uma simples troca. Neste sentido, é composto por quatro elementos principais: o emissor (figura do Anjo), a receptora (figura da Virgem), a mensagem (Salvação) e o meio/canal de comunicação. Nos filmes acima citados, embora tais elementos estejam todos presentes, há sempre algum desvio. A partir dos filmes selecionados, identificamos três categorias: 1. falso mensageiro, 2. erro de interpretação do receptor, 3. mediação enganosa.

    Comecemos pelo par “A Marquesa d’O” e “O Viajante”. Trata-se de filmes em que a perversão é mascarada. Nos dois filmes, acompanhamos personagens que cometem atos vis (estupro e manipulações) após serem vistos como anjos. O imaginário da Anunciação é subvertido pela ação do próprio mensageiro, que faz uso de uma máscara enganadora para cometer o mal.

    A segunda dupla de filmes é composta por “O milagre” e “Benilde ou a Virgem Mãe”. Nestes filmes, há uma indeterminação a respeito da concepção virginal. Duas personagens (Nannina e Benilde) julgam ter engravidado pela ação do espírito santo. Há, por outro lado, a suspeita do estupro: a primeira foi induzida ao álcool por um andarilho antes de cair no sono, enquanto a segunda possui sonambulismo, alimentando assim a hipótese do sexo involuntário e inconsciente.

    Em “Le Mirage”, já não se trata de um anjo vil, mas de um erro de interpretação por parte da receptora da mensagem. Marie é uma mulher de meia idade que se apaixona por um jovem rapaz. Num dado momento do filme, ela julga equivocadamente ter recuperado a sua fertilidade. O sangue provocado por uma hemorragia é confundido com o retorno da menstruação. A natureza, vista como divinizada, se mostra enganosa e cruel.

    Por fim, em “First Reformed”, a mensagem é propagada através de inúmeros meios e canais de comunicação (televisão, notebook, fotografias, cartazes, gráficos, reportagens). O excesso de mediações parece corromper a mensagem, provocando mal e destruição. A tela do monitor faz refletir sobre a face de Toller uma luz azul que parece figurar o próprio engano do meio.

    A comunicação tem por objetivo identificar a figuração do falso, ou seja, as estratégias formais mobilizadas nos filmes para pontuar ou demarcar a inscrição do erro, afirmando a falsidade do milagre. Por fim, analisaremos comparativamente as soluções encontradas e os efeitos de sentido produzidos nos filmes.

Bibliografia

    AMY DE LA BRETEQUE, François. “Éric Rohmer et son rapport à l’Histoire en particulier dans ses tragédies de l’histoire”. In: ROBIC, Sylvie & SCHIFANO, Laurence. Rohmer en perspectives. Paris: Presses Universitaires de Paris Ouest, 2013.

    ARAUJO, Inácio. “Filme de Saraceni é um desses anacronismos magníficos”. Crítica publicada em Folha de São Paulo, 04 de Fevereiro de 2000. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0402200015.htm (acesso em 25/04/2026).

    BERGALA, Alain. “Montage Obligatoire”. In: BERGALA, Alain (Org.). La Création cinéma. Crisnée: Yellow Now, 2015.

    BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2015.

    SOUTO, Mariana. “Constelações Fílmicas: um método comparatista no cinema”. Galáxia (Online), n. 45, set-dez, 2020, p. 153-165.

    VIENNE, Maïté. La Figure de l’ange au cinéma. Paris: Cerf, 1995.