Ficha do Proponente
Proponente
- Luís Martins Villaça (UFSCar / SENAC-SP)
Minicurrículo
- Luís Villaça é diretor de fotografia e operador de câmera há 24 anos, documentarista e professor de cinematografia do curso superior de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos e dos cursos de Pós-Graduação em Direção de Arte Audiovisual e Efeitos Visuais, assim como do curso de Bacharelado em Audiovisual do Centro Universitário do SENAC-SP. Graduado em Rádio e TV pela UNESP de Bauru, com mestrado e doutorado em Cinema pela ECA-USP.
Ficha do Trabalho
Título
- A coautoria e a imagem autêntica em O pai e o pajé
Resumo
- Esta comunicação busca a articulação entre coautoria e as noções da “imagem que pensa”, proposta por Etienne Samain. Evidencia uma reconfiguração das práticas cinematográficas, na qual o filme deixa de ser um produto fechado para se tornar um processo aberto. Essa perspectiva contribui para o entendimento do cinema como forma de conhecimento, especialmente quando atravessado por epistemologias outras, como as indígenas, que desafiam e enriquecem os modos hegemônicos de ver e pensar o mundo.
Resumo expandido
- A noção de coautoria no cinema indígena contemporâneo tensiona profundamente os modelos clássicos de autoria centrados na figura do diretor como instância soberana de criação. No filme O pai e o pajé (2025), concebido e dirigido por Iawarete Kaiabi e co-dirigido por Luís Villaça e Felipe Tomzelli, tal deslocamento torna-se evidente ao se considerar o modo como o processo fílmico se constrói a partir de relações compartilhadas entre realizadores, personagens e a própria comunidade envolvida. A coautoria, nesse contexto, não se limita a uma divisão técnica de funções, mas se configura como um princípio epistemológico e político, no qual diferentes regimes de saber, memória e sensibilidade são articulados na produção das imagens durante todas a suas etapas e processos.
É nesse horizonte que se insere a contribuição teórica de Etienne Samain, especialmente por meio do conceito de “imagem que pensa”. Para o autor, a imagem não deve ser reduzida a um suporte passivo de significação, subordinado à linguagem verbal ou à intenção autoral. Ao contrário, ela possui uma potência própria de pensamento, operando como um dispositivo ativo que produz conhecimento e afeta o espectador de maneira sensível e reflexiva. A imagem, portanto, não apenas representa o mundo, mas participa da sua elaboração simbólica.
No filme em questão, essa ideia se manifesta de forma particularmente potente. As imagens não funcionam como meras ilustrações de um discurso previamente estabelecido, mas emergem como espaços de negociação entre diferentes perspectivas – a de Iawarete Kaiabia nas suas interações com seu pai e com o pajé Tuiat, assim como as da comunidade e a dos realizadores, no território indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso. Tal multiplicidade de vozes e olhares reforça a dimensão coautoral do filme, na medida em que o sentido não é imposto de forma unívoca, mas construído no entrelaçamento dessas experiências.
Além disso, a “imagem que pensa” permite compreender como o filme articula temporalidades distintas, conectando o passado breve vivido, o presente e a ancestralidade sem recorrer a uma narrativa dotada de recursos lineares ou explicativos. As imagens operam como vetores de memória e espiritualidade, evocando saberes e experiências que escapam às categorias ocidentais de racionalidade. Nesse sentido, o pensamento da imagem aproxima-se das cosmologias indígenas, nas quais o visível e o invisível, o humano e o não humano, estão intrinsecamente relacionados e presentes no filme a partir dos corpos, das posturas (enquadradas nas imagens ou nas tomadas de decisão para a montagem fílmica) e dos discursos colocados.
A coautoria, portanto, não é apenas um dado de produção, mas uma condição estética e política que redefine o próprio estatuto da imagem. Ao reconhecer a agência dos sujeitos filmados e a potência cognitiva das imagens, o filme rompe com hierarquias tradicionais entre quem filma e quem é filmado, instaurando um campo de criação compartilhado. Assim, a obra não apenas representa uma realidade indígena, mas se constitui como um espaço de pensamento em ato, no qual diferentes formas de conhecimento coexistem e se transformam mutuamente.
Bibliografia
- ALLOA, Emmanuel (org.) Pensar a imagem. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2015.
BELTING, Hans. Antropologia da imagem. Lisboa: KKYM, 2014.
COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008
FREIRE, Marcius e LOURDOU, Philippe. (orgs.) Descrever o visível. Cinema documentário e antropologia fílmica. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 2009.
PIAULT, Marc. Antropologia e cinema. São Paulo: editora Unifesp, 2018.
SAMAIN, Ettiene. Como pensam as imagens. Campinas: Editora Unicamp. 2012.