Ficha do Proponente
Proponente
- Mayra Coelho Jucá dos Santos (UFF)
Minicurrículo
- Pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da UFF. Doutora e mestre em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV, onde leciona na pós-graduação em Cinema Documentário desde 2019. Realizou doutorado-sanduíche com bolsa Capes PrInt no Centre for Oral History and Digital Storytelling (Concordia University, Montreal). É autora de O Super-8 no AI-5 (2025) e coautora de Maria Muniz, a Sherazade do Rádio (2007).
Ficha do Trabalho
Título
- Antes que virem filmes órfãos: a entrevista de história oral na pesquisa do Super-8
Resumo
- A comunicação aborda o uso da história oral para contextualizar filmes em Super-8 realizados nas décadas de 1970 e 80, por meio de entrevistas e visionamento compartilhado com realizadores e participantes das produções. Toma-se o superoitismo como prática política e cinematográfica e a feitura do filme como evento histórico. Na pesquisa, o ato de assistir ao filme funciona como uma “pergunta aberta” e os depoimentos se tornam fontes essenciais para a análise de imagens sobreviventes.
Resumo expandido
- O superoitismo experimental no Brasil foi uma prática política e cinematográfica de resistência, mobilizando uma juventude urbana em cenário de vigilância, censura e violência sob a ditadura militar. Esta comunicação aborda o uso da história oral como método fundamental para contextualizar filmes amadores que, por décadas, permaneceram à margem da historiografia e dos arquivos públicos, e ainda permanecem, em grande parte. Diante da radicalidade estética e narrativa, da fragilidade do material sobrevivente, muitas vezes danificado, e da escassez de documentos em outros suportes, os relatos dos realizadores tornam-se frequentemente o último elo para impedir que essas obras se tornem “filmes órfãos”.
Na composição de uma filmografia para o superoitismo experimental no Rio de Janeiro, tendo acesso a uma crescente quantidade de filmes digitalizados por iniciativas diversas de preservação, tenho usado a história oral como método, realizando entrevistas combinadas ao visionamento compartilhado com realizadores e participantes das produções. Nesse contexto, toma-se a feitura do filme como um evento histórico e social, e não apenas como um objeto de análise estética isolada. O “fato fílmico” não pode, neste caso, ser descolado da experiência cinematográfica. Na pesquisa, o filme exibido aos entrevistados funciona como uma “pergunta aberta”, atuando como um dispositivo de memória capaz de fazer emergir lembranças latentes sobre produções clandestinas, ocupações desobedientes do espaço público, e sobre a circulação informal dos filmes.
O trabalho apoia-se no princípio da “autoridade compartilhada” (shared authority) de Michael Frisch, que propõe um processo regido pela parceria dialógica entre o entrevistador e o entrevistado na construção da narrativa histórica. Ao tratar o filme como um registro de uma experiência corporificada no espaço urbano em disputa, a pesquisa dialoga com a proposta de Jean-Pierre Meunier, que entende como film-souvenir um processo em que a imagem atua como catalisador, permitindo ao espectador “enxergar através da tela”, compartilhando informações e afetos do momento do registro original para reconstruir vivências passadas.
Filmes de Sérgio Péo, Noilton Nunes, Luiz Arnaldo Campos, entre outros incluídos no escopo da pesquisa, digitalizados recentemente, resgatados de armários e gavetas domésticas, que praticamente não foram vistos, talvez permaneçam invisíveis na dimensão em que foram concebidos sem o testemunho dos realizadores, pois muito do que o filme não conta, mas que é essencial para que se compreenda seu contexto, depende da memória de quem estava empunhando a câmera, ou sob sua mira. De certa forma, a proposta de trazer para junto do filme a memória, o comentário e a análise, feita no tempo presente, dos autores, remonta à experiência de visionamento nos cineclubes onde tiveram suas auráticas projeções seguidas de debates, no passado.
Bibliografia
- FRISCH, Michael. Three dimensions and more: oral history beyond the paradoxes of method. In: Sharlene Nagy Hesse-Biber; Patricia Leavy (orgs.). Handbook of Emergent Methods Guildford. Nova York, 2008.
JUCÁ, Mayra. O Super-8 no AI-5: Memórias… Rio de Janeiro, Letra Capital, 2025.
LINDEPERG, Sylvie. O caminho das imagens: três histórias de filmagens na primavera-
verão de 1944. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 26, n. 51, p. 9-34, 2013.
MEUNIER, Jean-Pierre. Les Structures de l’expérience filmique: l’identification filmique. Louvain: Vander, 1969.
ODIN, Roger. Reflections on the family home movie as document: a semio-pragmatic
approach. In: Ishizuca; Zimmermann (orgs.). Mining the home movie – Excavations in
histories and memories. Califórnia: University of California Press, 2008.
PORTELLI, Alessandro. What makes oral history different. In: R. Perks; A. Thomson
(orgs.). Oral history, oral culture, and italian americans. 1998, 1ª ed. Nova York:
Routledge, 2006