Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ariani dos Santos Fontes (UFS)

Minicurrículo

    Doutoranda em Estudos Literários (PPGL/UFS), pesquisando aspectos metaficcionais e detetivescos na poética de Vladimir Nabokov. Mestre em Cinema e Narrativas Sociais (PPGCINE/UFS), cuja dissertação abordou a ficção noir a partir dos pressupostos da Intersemiose e da Teoria da Adaptação. Licenciada em Letras Português e Inglês (DLES/UFS). Pesquisadora vinculada ao Centro Internacional e Multidisciplinar de Estudos Épicos (CIMEEP) e ao Grupo de Estudos em Filosofia e Literatura (GeFeLit/CNPq).

Coautor

    Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz (UFS)

Ficha do Trabalho

Título

    A lua em plenilúnio: uma análise do espaço em A dama fantasma [romance e filme]

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    Analisa-se o romance A dama fantasma (2006), publicado originalmente em 1942 como Phantom Lady, de Cornell Woolrich, e sua adaptação homônima de Robert Siodmak (1944), com foco na transposição do espaço enquanto categoria estruturante. À luz da estética noir, investiga-se, sob perspectiva intersemiótica, como a gramática fílmica recria e intensifica a configuração espacial da literatura hard-boiled, evidenciando a intermidialidade na reconfiguração espacial do sentido.

Resumo expandido

    Este artigo analisa o romance A dama fantasma (1942 [2006]), de Cornell Woolrich, e sua adaptação homônima dirigida por Robert Siodmak em 1944, a partir de uma perspectiva intersemiótica, com foco na transposição do espaço enquanto categoria narratológica. No âmbito do diálogo entre literatura hard-boiled e film noir, investiga-se como o espaço, enquanto elemento estruturante, é reconfigurado no processo de adaptação, deslocando-se da materialidade verbal para a materialidade audiovisual e assumindo funções específicas na organização do enredo. Tomando como eixo analítico a metáfora da lua em plenilúnio, reflete-se sobre a natureza estética do noir, sustentada pela tensão entre luz e sombra. Assim como o brilho lunar depende da noite para se manifestar, o cinema noir constrói-se na convivência paradoxal entre o explícito e o sugerido, instaurando uma ambiguidade simbólica que atravessa tanto a configuração visual quanto a dimensão narrativa. Nessa passagem, o espaço deixa de ser apenas descrito para tornar-se performado por meio de recursos da gramática fílmica, como iluminação, enquadramento, profundidade de campo e composição de cena, que delimitam o campo do visível e sugerem zonas de indeterminação. A adaptação é compreendida como obra autônoma que recria, por meio de recursos audiovisuais, efeitos espaciais originalmente configurados no discurso literário, reorganizando suas funções no interior da forma fílmica. A investigação intermidial, portanto, não estabelece hierarquias entre as artes, mas apreende correspondências e transformações decorrentes do encontro entre palavra e imagem, preservando a especificidade de cada meio. Embora compartilhem um universo marcado pela violência exacerbada e pela instabilidade dos indivíduos, literatura e cinema mobilizam estratégias distintas, tanto em seus mecanismos estruturais quanto nos efeitos produzidos sobre leitor e espectador. Na esteira da narratologia, o espaço não se reduz a cenário, mas configura-se como operador semântico, capaz de condicionar a ação e delimitar o universo diegético, visto que, ao articular dimensões físicas e simbólicas, participa ativamente da produção de sentido e da organização interna do enredo. Conforme Gérard Genette (2017), o estudo deve considerar os diferentes níveis da diegese, nos quais o espaço se revela fundamental para a compreensão das relações entre tempo, ação e personagem. Dessa maneira, a partir de um cotejo intersemiótico, fundamentado nos pressupostos de Ismail Xavier (2003), Julio Plaza (2010), Marcia Ortegosa (2010), Linda Hutcheon (2013), Tzvetan Todorov (2013), Anne Jerslev e Lúcia Nagib (2014). investiga-se como o filme não apenas traduz, mas recria e intensifica os efeitos diegéticos do texto literário, reorganizando as relações entre o explícito e o sugerido. Os resultados indicam que o texto de Woolrich se aproxima do estilo hard-boiled na construção descritiva do espaço ficcional, enquanto o filme evidencia uma espacialidade marcada por uma mise-en-scène alinhada à estética noir. Enquanto o romance organiza o espaço por meio de comparações metafóricas que evocam um realismo irônico, a versão fílmica o traduz em recursos audiovisuais e de montagem que intensificam o suspense da diegese. Conclui-se que a literatura hard-boiled estabelece a matriz criativa que estrutura a concepção de cenários e conflitos urbanos, ao passo que o film noir potencializa tais elementos no processo de transposição intersemiótica. Retomando a metáfora da lua em plenilúnio, observa-se que o espaço, enquanto categoria estruturante, assume função decisiva na produção de efeitos estéticos, operando para além de um referencial descritivo e configurando-se como instância ativa de significação.

Bibliografia

    A DAMA fantasma. Direção: Robert Siodmak. Estados Unidos: Universal Pictures, 1944. 1 filme (87 min), son., P&B.
    Genette, Gérard. Figuras III. Trad. de Ana Alencar. São Paulo: Estação Liberdade, 2017.
    Hutcheon, Linda. Uma teoria da adaptação. Trad. de André Cechinel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011.
    Nagib, Lúcia; Jersley, Anne. Impure Cinema: intermedial and intercultural approaches to film. Londres: I. B. Tauris, 2014.
    Ortegosa, Marcia. Cinema noir: espelho e fotografia. São Paulo: Annablume, 2010.
    Plaza, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2010.
    Todorov, Tzvetan. As estruturas narrativas. Trad. de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 2013.
    Woolrich, Cornell. A dama fantasma. Trad. de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras: 2006.
    Xavier, Ismail. “Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção do olhar no cinema”. In:
    PELLEGRINI, Tania. et al. Literatura, cinema, televisão. São Paulo: Senac/Itaú Cultural, 2003, p. 61-69.