Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Julia Mariano de Lima Araújo (UFRJ)

Minicurrículo

    Mestra em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ, foi bolsista FAPERJ Nota 10 e CAPES. Possui graduação em Comunicação Social – Jornalismo, pela ECO-UFRJ (2006) e formação complementar em cinema, com especialização em Direção de Documentários no curso regular da Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños, EICTV (Cuba, 2005). Especializou-se também no Departamento de Documentários da Baden-Württemberg Filmakademie (Alemanha, 2007). Atuou durante mais de dez anos como diretora, ro

Ficha do Trabalho

Título

    Escola de Cinema do Campo: uma experiência de formação com o MST do Sul do Pará

Seminário

    Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos

Resumo

    O projeto da Escola de Cinema do Campo foi realizado entre 2024 e 2025, produziu mais de 40 curtas-metragens exercícios e inspirou o MST a reproduzir a experiência em outros territórios. A potência é justamente a de, pela formação e prática cinematográfica dos militantes e assentados, combinar a militância audiovisual com a busca de uma linguagem do Cinema Sem Terra.

Resumo expandido

    A demanda da Escola de Cinema do Campo veio em 2023, dos próprios militantes do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra do Sul do Pará, da região compreendida entre Marabá e Parauapebas. Trabalho nesta região desde 2011, em uma militância audiovisual que ora se manifesta em filmagens necessárias para o Movimento, ora em colaboração na montagem de algum vídeo, ora em colaboração na construção do Acampamento da Juventude Oziel Alves Pereira, que acontece desde 2006 na Curva do S, palco do massacre de Eldorado de Carajás.
    Em 2023, após um Acampamento da Juventude na Curva do S, um dos militantes do setor de cultura da regional do Pará, Alan Leite, entrou em contato comigo para escrevermos um projeto de curso de formação em audiovisual ali na região. A possibilidade aberta pela Lei Paulo Gustavo e pela disponibilidade de um CNPJ do Movimento para inscrição pavimentaram o caminho para a Escola de Cinema do Campo. A demanda vinha dos militantes do sudeste paraense que já estavam contrariados de terem suas histórias contadas por outras pessoas e pela experiência que haviam tido em realizar um curta-metragem no assentamento Palmares II (Parauapebas) através da Lei Aldir Blanc. O desejo de contarem suas histórias por eles mesmos foi o que nos motivou a criar o que chamamos de Escola de Cinema do Campo.
    Como método formativo, decidimos trabalhar a teoria a partir da prática da filmagem e da visualização de filmes brasileiros e latino-americanos, principalmente curtas-metragens. Fizemos uma curadoria focada no cinema contemporâneo feito fora do eixo, nas periferias, nas aldeias, nas comunidades e territórios. Escolhemos trabalhar o documentário e a ficção e organizamos a estrutura da formação em 3 módulos: o primeiro para aproximar os militantes das câmeras e equipamentos de som e montagem; o segundo focado no cinema documentário, o terceiro no cinema de ficção e o quarto na montagem e finalização. Em cada módulo, os educandos realizavam curtas-exercícios, com metodologias inspiradas em experiências como “Inventar com a Diferença” e na Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños (EICTV), propondo exercícios práticos que alinhassem questões teóricas do fazer cinematográfico latino-americano com o aprendizado pretendido. Além disso, outro pilar formativo foi a proposta de pensar um “Cinema Sem Terra”, inspirado no que defende a Brigada Audiovisual Eduardo Coutinho (BAEC), coletivo do MST responsável por pensar, desenvolver e articular internamente a produção audiovisual.
    A tarefa da BAEC é o estudo permanente, tanto dos temas (conteúdo), como da linguagem cinematográfica/audiovisual (forma), numa perspectiva de apontar para nossa organização um caminho para um cinema emancipador que seja condizente com os princípios do nosso Movimento e da sociedade que estamos construindo (Heffner. H, Vida. B.; Souza, C.; p.14)

    Para além da produção dos exercícios, os estudantes também exibiram suas produções nos assentamentos onde os módulos aconteciam, em um movimento também para pensar a exibição e circulação dos filmes internamente no Movimento.

    O projeto da Escola de Cinema do Campo foi realizado entre 2024 e 2025, produziu mais de 40 curtas-metragens exercícios e inspirou o MST a reproduzir a experiência em outros territórios. A potência que enxergamos é justamente a de, pela formação e prática cinematográfica dos militantes e assentados, combinar a militância audiovisual com a busca de uma linguagem do Cinema Sem Terra – que se afaste de um cinema panfletário e busque na própria linguagem audiovisual, caminhos para contar as histórias do Movimento na busca por “refletir sobre o fazer fílmico, de discutir como um movimento camponês reflete, constrói, organiza e desenvolve sua linguagem audiovisual e constrói uma estética Sem Terra e com a cara da classe trabalhadora.” (Heffner. H, Vida. B.; Souza, C.; p.25)

Bibliografia

    DAL CHIAVON, Luara. Audiovisual, MST e Pandemia: novas perspectivas estéticas. In Redes Digitais e Culturas Ativistas : Mídia, Cultura e Participação. Alumínio, SP, Clea Editorial. 2022.

    FAXINA, Elson. Militância Social e Produção Audiovisual no MST. Revista Científica/FAP. Curitiba, v.22, nº , 2023.

    PERLI, Fernando. Em Busca da Visibilidade: Apropriações e Produções de Audiovisuais pelo MST. in Revista História e Cultura. Franca, SP, v2, nº2, p.137-156, 2013.

    SOUZA, Cadu. DAL CHIAVON, Luara. SILVA, Maria. O Audiovisual no MST, a formação das imagens dos seus 40 anos. In https://mst.org.br/2024/04/22/o-audiovisual-no-mst-a-formacao-das-imagens-dos-seus-40-anos/ 2024.
    _____________________________________________(org). Cartilha Brigada de Audiovisual Eduardo Coutinho, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. 2022.
    _____________________________________________. O Audiovisual no MST: histórias, processos e estéticas. Devires, Belo Horizonte, V. 15, N. 2, P. 60-75. JUL/DEZ 2018.