Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Sylvia Beatriz Bezerra Furtado (UFC)

Minicurrículo

    Beatriz Furtado é professora titular do Instituto de Cultura e Arte, da Pós-Graduação em Artes, da Pós-Graduação em Comunicação e da graduação em Cinema e Audiovisual, da Universidade Federal do Ceará

Coautor

    Janaina Braga de Paula (UFC)

Ficha do Trabalho

Título

    Curadoria, emergência climática e a ocupação de telas

Seminário

    Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual

Resumo

    Este artigo trata de uma reflexão crítica sobre o processo curatorial e a relação com os territórios, a partir da 15a. Mostra de Cinema e Direitos Humanos, que teve como eixo a emergência climática. No bojo da análise se encontram as comunidades pesqueiras, ribeirinhas, povos indígenas e quilombolas, cuja centralidade de suas ações ocorre não somente na sustentação dos territórios, através das lutas ambientais, mas também na construção de um cinema que se encontra fora do grande circuito.

Resumo expandido

    A pauta climática e os direitos humanos formaram o eixo da 15a. Mostra de Cinema e Direitos Humanos, que ocorreu a partir de uma relação de parceria do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania com o curso de Cinema e Audiovisual, da Universidade Federal do Ceará. Como referência curatorial foram convocadas quatro grandes questões que definem os importantes debates em torno da defesa da vida no planeta: A Água, a Floresta e a Terra, temas que organizaram as sessões programadas e que arrastaram para si os nomes de Suely Maxacali, Nêgo Bispo, Cacique Raoni e Antonia de Melo, pensadores/lideranças/realizadoras que se impõem contra o uso e a apropriação extrativista do planeta.
    Com essas referências como princípios norteadores das definições curatoriais da Mostra, a seleção de filmes se fez no embate com a uma produção do cinema bastante restrita, concentrada em poucas regiões, basicamente de curtas-metragens, e tendo as mulheres como personagens centrais. São os casos de filmes como “Rio de Mulheres” (MG/2009), dirigido por Cristina Maure e Joana Oliveira, que se passa envolto em um ambiente muito seco, onde a água é escassa e as mulheres vivem entre si e as crianças, e de “As lavadeiras do Rio Acaraú transformam a embarcação em Nave de Condução” (CE) do multiartista indígena Kolumin-Açu, cujo filme articula os gestos das lavadeiras aos voares em naves de barcos de papel.
    Vale Ressaltar o lugar das comunidades pesqueiras e ribeirinhas, dos povos indígenas e quilombolas, cuja centralidade nas lutas ambientais vem construindo esse cinema que se encontra fora do grande circuito. A artista/realizadora indígena Bárbara Matias Kariri, diretora de “Faísca” (CE), traz mulheres de diferentes gerações que se mobilizam pelo retorno da onça. Nessa linha emaranhada de gerações, o filme “Yog Ãtak: Meu Pai Kaiowá” (MG), da também artista e realizadora Suely Maxacaly, homenageada dessa edição, se faz na busca pelo pai com quem ela não conviveu, porque a ditadura militar o separou da família. O longa, co-dirigido com Isael Maxacali, Roberto Romero e Luisa Lanna, foi um dos poucos filmes que já haviam sido premiados (Festival de Brasília, Cachoeira Doc e Mostra Eco Falante).
    Considerando que a existência da 15ª. Edição de uma mostra que é, sobretudo, uma política pública, e que uma curadoria é uma instância para inscrição de filmes no cenário e no circuito do cinema, a experiência de buscar as produções, organizá-los em sessões e de construir relações – entre público e filmes, entre filmes e filmes – se coloca frente a questão sobre o cinema e seus territórios. Territórios de luta, território de afetos, território de mulheres, de indígenas, de ribeirinhos, de quilombolas, de comunidades pesqueiras. E, mais além: Como fazer com que esses povos que seguram o céu, ocupem as telas (missão dirigida ao cinema por Ailton Krenak).
    Cabe a nós, responsáveis pela curadoria da 15a. Mostra, olhar pra esses filmes, e que há de visibilidade e invisibilidade nesse gesto curatorial. Pergunta que se efetiva na perspectiva posta por Amaranta César (2022), quando afirma a atividade curatorial como um “agenciamento de visibilidades e apagamentos”, e na defesa que faz de um modo de programar filmes que dialogue com a noção de “poética das relações” estabelecida por Édouard Glissant (2021).

Bibliografia

    BRASIL, André. “Retomada: teses sobre o conceito de história”. Catálogo do forumdoc.bh.2014 – XX Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Filmes de Quintal, 2016, p. 145-161.
    CESAR, Amaranta. “Cinema como ato de engajamento: documentário, militância e contextos de urgência”. C-Legenda. 19 de abril de 2018.
    CÉSAR, Amaranta et al. (Org.) Desaguar em cinema: documentário, memória e ação com o CachoeiraDoc. Salvador: Edufba, 2020.
    GLISSANT, Édouard, Poética da relação, Rio de Janeiro, Bazar do Tempo. 2021 . n. 35 (2017): Cinema Brasileiro Século XXI Adriano GARRETT, Adriano Ramalho.“Agenciamento de visibilidades e apagamentos”Entrevista com a curadora Amaranta Cesar”. Revista Rebeca. Janeiro/Junho de 2022.