Ficha do Proponente
Proponente
- ViqViçVic Junqueira Ayres Lucena (UFF)
Minicurrículo
- Realizador, artista visual e produtor não-binário. Graduado em Jornalismo pela UFPE. Em 2016, fundou o coletivo Ocupe Sapatão, produzindo e fazendo curadoria na maioria das suas edições. Desde 2015, é pesquisador independente dos estudos de gênero e sexualidade, tendo criado em 2021 o curso “Mas como assim você é não-binário?”, já com sete edições, com a proposta de ampliar o debate sobre a não-binariedade. Atualmente é mestrando no PPGCine – UFF, onde estuda o deboche no cinema cuir nordestino.
Coautor
- Tadeu Barbuto Bousada (UFF)
Ficha do Trabalho
Título
- Entre a cidade em ruínas e a distopia futurista: a pinta pós-apocalíptica em A Seita
Seminário
- Tenda Cuir
Resumo
- O presente trabalho explora como no longa-metragem de estreia de André Antônio, A Seita (2015), o espaço urbano é ressignificado, discutindo a ruína como artifício, as perambulações queer/cuir e as coletividades transviadas. Ambientado em uma Recife de 2040, o filme traz de maneira contrastante pontos abandonados da cidade e um protagonista delicado e meticulosamente estetizado.
Resumo expandido
- Este resumo intenciona à inter-relação entre as práticas éticas/estéticas de subculturas urbanas e a própria dimensão social do espaço no filme realizado por André Antônio em parceria com o coletivo Surto e Deslumbramento. Para nós, A Seita (2015) consegue ser uma das poucas ficções nacionais em que resquícios do passado colonial estão a serviço da materialidade cênica na construção de uma metrópole futurista. No plano que mescla arquitetura decadente às figurações artificiais, o filme é compreendido como produto de sua historicidade, enquanto resposta artística a mobilizações sociopolíticas por direito à habitação, cultura e lazer no espaço urbano, como o movimento Ocupe Estelita, realizado na Recife de 2014.
O filme realizado por André Antônio se ambienta na Recife de 2040 e nos apresenta uma distopia em que as elites da capital de Pernambuco agora moram em colônias espaciais enquanto a população pobre vive na cidade, em cenário de terra semi-arrasada. Esse personagem principal, cujo nome nunca nos é apresentado, morava nas colônias e agora voltou para a Terra por mera vontade de experimentar o que é viver longe de casa, movido pelo tédio. Embora exista uma parte da região central que não se encontra em estado de ruína, são esses os lugares que o filme escolhe retratar sempre que o personagem não está em espaços fechados. Dentro da casa para a qual ele sempre volta, tudo é decorado de maneira kitsch, com cortinas, xícaras, paredes, entre outros objetos em tons de azul, rosa, lilás, às vezes com estampas florais e rebuscadas.
Neste longa, nos é apresentada uma outra forma de olhar para esse ambiente urbano, para essa estética decadente, que compõe um pouco da cultura recifense. Os prédios abandonados, diferente de serem mostrados num tom de denúncia, retratam uma distopia futurista de um Recife de ficção científica. Os espaços já comidos pelo tempo em A Seita servem de artifício para que possamos crer que o dândi está no futuro. O contraste entre a aparência impecável do personagem e as construções pelas quais ele circula gera um efeito jocoso no filme, um ponto cintilante e com textura macia de seda no meio do concreto envelhecido. Embora os movimentos da personagem principal sejam particularmente contidos e lentos, seu corpo minuciosamente construído a se assemelhar com os objetos decorativos da direção de arte carregada preenche os planos de forma a transformar toda a imagem em uma extensão do dândi. Em A Seita, uma viadagem expansiva se alastra de forma lenta, preenchendo as brechas do espaço urbano do centro de Recife.
Nesse sentido, propomos três caminhos de análises corporais/espaciais que refletem as expressões do desejo dissidente na produção em destaque: a) o contraste entre a aparência kitsch, na direção de arte e na figura aniti-heroica do dândi, e as ruínas da cidade, onde habita uma intenção jocosa por parte da realização em acentuar no plano e diegese o deslocamento da bicha protagonista; b) as perambulações vadias do dândi, como representação a uma identidade móvel e subversiva ao ritmo provocado pelo utilitarismo urbano e c) as coletividades transviadas, no filme aludida pela ideia homônima da seita, onde sexualidade e gênero anti hegemônicos são parte das relações produtivas das subculturas queer/cuir.
Passados onze anos de seu ano de circulação, o primeiro longa de Antônio é atualíssimo ao tratar sob uma perspectiva debochada o Cinema do Fim do Mundo, permitir paralelos entre precariedade estética e os modos precários de realização em cinema no Brasil e interceder pelas dissidências do corpo, um tanto esquecida das fabulações sobre mundos alternativos.
Bibliografia
- A SEITA. Ficção/Longa-metragem. Direção: Antônio Augusto. Distribuição: Surto e Deslumbramento. 1 hora e 10 minutos. Brasil, 2015.
BARBOSA, André et al. Inúteis, Frívolos e Distantes – à procura dos dândis. Rio de Janeiro, Maud X, 2019.
COLUCCI, D. G. ; SOUTO, M. M. M. . Espacialidades e territorialidades: conceituação e exemplificações. Revista GEOgrafias , v. 7, p. 114-127, 2011.
HALBERSTAM, J. A arte queer do fracasso. Tradução: Bhuvi Libanio; prefácio Denílson Lopes. Recife: Cepe Editora, 202
MADOZ, K. A. . Fundamentos das Espacialidades. Revista Estética E Semiótica , v. 12, p. 3-70, 2022.
VALENCIA, Sayak. Do Queer ao Cuir: Geopolítica do estranhamento e Epistêmica do Sul Glocal. Tradução de Fabrício Marçal Vilela. Caderno Espaço Feminino, v. 36, n. 1, 2023. DOI: http://dx.doi.org/10.14393/CEF-v36n1-2023-3
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