Ficha do Proponente
Proponente
- Frederico Benevides Parente (UFRJ)
Minicurrículo
- Pesquisador e cineasta, doutor em Artes Visuais pelo PPGAV/EBA/UFRJ, onde desenvolveu pesquisa sobre montagem, energia e imagens do Rio São Francisco, com estágio no Film Study Center/Harvard e no Center for Comparative Media/Columbia. Mestre em Comunicação pela UFF, investiga imagem, acervos e ecologia. Atua como diretor, montador e finalizador, com filmes e videoinstalações exibidos no Brasil e no exterior, além de experiência em formação audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- Fluam as imagens, interrompa-se o rio: arquivo e remontagem nas imagens do São Francisco
Seminário
- Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens
Resumo
- Partindo da tese Margens do Meio, a comunicação investiga dois acervos em vias de desaparição, fotografias da CHESF e filmes de Isaac Rozemberg, para pensar como imagens do São Francisco participaram da redução do rio a recurso energético. A partir do filme-ensaio Afluente, a remontagem é tomada como investigação: reemprega materiais destinados à memória do progresso para fazê-los trabalhar contra seus enquadramentos originais, aproximando arquivo e território sem separar imagem e energia.
Resumo expandido
- Esta comunicação parte da tese Margens do Meio: montagem e energia nas imagens do Rio São Francisco para discutir como imagens participaram da produção histórica de uma redução: a transformação do rio São Francisco em recurso energético. A análise se concentra em dois conjuntos frequentemente ameaçados de desaparição. De um lado, o acervo fotográfico da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF), ligado à construção do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso; de outro, o acervo de Isaac Rozemberg, cineasta responsável pela série Coisas do Brasil, que filmou intensamente a região entre as décadas de 1940 e 1980. Em ambos os casos, a ameaça de desaparecimento não se limita à perda física dos materiais. Ela atravessa também as condições precárias de preservação, identificação, acesso e leitura, fazendo com que a disputa pelo arquivo seja inseparável da disputa pelas formas de narrar o rio.
A proposta não toma o arquivo como depósito neutro de evidências, nem como passado estabilizado. Nas imagens técnicas da CHESF, nos cinejornais e nos filmes institucionais, o São Francisco aparece muitas vezes como potência desperdiçada, natureza a ser corrigida, curso a ser interrompido em nome do progresso. Essas imagens não apenas registram a transformação do território; elas ajudam a organizar sua legibilidade. Tornam o canteiro de obras uma cena de realização nacional, enquadram a queda d’água como força disponível e fazem do rio uma infraestrutura antes que uma relação viva. Nesse regime visual, a montagem não é somente procedimento cinematográfico. Ela também age como forma de ordenar o território, estabelecendo continuidades entre engenharia, propaganda, memória pública e apagamento.
Interessa, porém, observar os pontos em que esses materiais deixam de coincidir inteiramente com a função para a qual foram produzidos. Uma fotografia destinada ao relatório técnico pode guardar a hesitação de um corpo diante da câmera. Um cinejornal que celebra a eletrificação pode depender de vozes, músicas e encenações que denunciam sua própria construção. Um plano aparentemente secundário pode fazer retornar a presença de trabalhadores, povos ribeirinhos e populações indígenas mantidas à margem da narrativa principal. O contra-arquivo não aparece, portanto, como coleção exterior ao arquivo, mas como operação de leitura: uma atenção às forças que permanecem ativas nas imagens mesmo quando elas foram capturadas por uma história oficial do desenvolvimento.
É a partir do filme-ensaio Afluente que essa operação se formula como investigação. O filme reemprega fotografias da CHESF, cinejornais, fragmentos do acervo Rozemberg e imagens contemporâneas captadas no São Francisco, criando anacronismos entre materiais de procedências distintas. Nesse processo, remontar não significa corrigir o arquivo por meio de uma narrativa definitiva, mas deslocar seus enquadramentos, fazendo com que imagens destinadas à memória do progresso trabalhem contra a redução que ajudaram a sustentar. A água que nos filmes institucionais deveria justificar a barragem volta a aparecer como fluxo, opacidade, memória e conflito. A câmera restaurada de Rozemberg, usada novamente na região, não é gesto nostálgico; recoloca em circulação um aparelho atravessado por tempo e deterioração.
Ao aproximar arquivo, montagem e energia, a comunicação busca contribuir para o seminário “Arquivo e contra-arquivo” com uma metodologia situada de leitura das imagens. A pergunta central não é apenas o que esses arquivos mostram, mas que mundo eles ajudaram a montar. Também não se trata somente de recuperar imagens ameaçadas, embora isso seja urgente, mas de perguntar que relações com o São Francisco foram comprimidas quando o rio passou a ser visto prioritariamente como força elétrica. Remontar esses materiais é tentar fazer fluir imagens ligadas à interrupção do rio, abrindo nelas uma possibilidade crítica que não estava ausente, apenas permanecia submetida aos seus enquadramentos originais.
Bibliografia
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Fontes: Acervo CHESF; Acervo Isaac Rozemberg.