Ficha do Proponente
Proponente
- Luíza Neves Magalhães (UFPE)
Minicurrículo
- Bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Editora e crítica da Revista Nostalgia. Produtora. Participou do 24º Intercom Nordeste (2024) e do POPFILIA (2025). Foi pesquisadora bolsista pelo PIBIC/CNPq em 2024/25.
Ficha do Trabalho
Título
- Rebolado e circo: o espetáculo, a performance e o dissenso em “Gretchen: Filme Estrada”
Eixo Temático
- ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL
Resumo
- O presente trabalho pretende questionar se o filme “Gretchen: Filme Estrada” (2010) abre espaço para a instalação do dissenso conforme conceituado por Jacques Rancière (2012). A partir da noção de espetáculo formulada por Guy Debord (2020) e da ideia de performance, objetiva-se entender como a obra reproduz e subverte tais conceitos, sem resolvê-los completamente, provocando a distribuição do sensível na atividade política conforme proposto por Rancière.
Resumo expandido
- A noção de “sociedade do espetáculo”, formulada por Guy Debord (2020), ofereceu, desde sua concepção até o presente, um ponto de partida crucial para compreender as formas contemporâneas de mediação social. Debord argumenta que, nas sociedades capitalistas avançadas, as relações entre as pessoas passam a ser mediadas por imagens. O espetáculo, então, não se reduz a um conjunto de representações, e sim constitui um modo de organização social, no qual a experiência direta é substituída por sua representação. Trata-se de uma lógica em que “parecer” se sobrepõe ao “ser”, produzindo uma alienação generalizada: o indivíduo se reconhece mais nas imagens que consome do que em sua própria vivência concreta. Para o autor, o espetáculo é simultaneamente produto e produtor de uma realidade social em que a contemplação substitui a ação.
O filósofo Jacques Rancière (2012, p. 12) aprofundou-se no pensamento debordiano, tomando como sua essência a ideia de exterioridade e afirmando que “o que o homem contempla no espetáculo é a atividade que lhe foi subtraída […] organizadora de um mundo coletivo cuja realidade é a realidade desse desapossamento”. Para Rancière, entretanto, a distância percebida por Debord é uma condição normal da comunicação. Seu conceito de política não se define pela administração do poder ou pela organização institucional da sociedade, mas pela irrupção do dissenso – isto é, pela contestação das formas estabelecidas de distribuição do sensível, ou seja, das maneiras pelas quais o mundo é percebido, organizado e significado. O consenso, por sua vez, corresponde à estabilização dessas formas, à naturalização de uma determinada ordem que define quem pode falar, o que pode ser visto e quais vozes são consideradas legítimas. Diferentemente de Debord, que enfatiza a dimensão alienante das imagens, Rancière abre espaço para pensar a potência política da estética, entendendo que as formas sensíveis podem reproduzir, produzir e subverter o consenso dominante.
É nesse cruzamento teórico que se torna pertinente analisar “Gretchen: Filme Estrada” (2010, dir. Eliane Brum e Paschoal Samora), que acompanha a trajetória da cantora em sua candidatura pela prefeitura da Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, e sua circulação por diferentes espaços de campanha, inclusive aparições em circos. Conhecida por sua presença midiática intensa e por sua constante reinvenção, sua imagem é reiteradamente produzida, reproduzida e consumida, tanto na mídia tradicional quanto nas redes sociais, configurando um caso exemplar de subjetividade moldada pela visibilidade. A performance, nesse contexto, trata-se de uma prática constitutiva da própria identidade da artista, que afirma que é “uma cidadã, a Gretchen só vive na televisão”. Entende-se a performance, aqui, nas palavras de Soares (2021, p. 210), como
“[…] acionamentos corporais de sujeitos em ambientes de mídia envolvendo a formação de uma “vida cênica” em contextos de alta visibilidade e a construção de redes de sentido do biográfico, ou seja, o vivido e o relatado, em dinâmicas cotidianas.”
Ao dar visibilidade a aspectos da vida de Gretchen que escapam à imagem cristalizada da “rainha do rebolado”, é possível questionar como o filme reconfigura o campo do sensível, permitindo que outras narrativas e percepções emerjam. A insistência na performance como prática cotidiana desloca o olhar do espectador, convidando-o a reconsiderar as fronteiras entre autenticidade e (auto)encenação. Assim, a obra pode ser entendida como um espaço de tensão entre consenso e dissenso, em que a lógica espetacular é simultaneamente reproduzida e interrogada. Trata-se de uma antecipação do rompimento das fronteiras do público e do privado, que vieram a culminar, mais tarde, no novo exercício da comunicação político-eleitoral e na consequente apropriação desse canal pela extrema direita.
Bibliografia
- DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2020.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
SOARES, Thiago. Abordagens Teóricas para Estudo da Teatralidade em Performances Midiáticas: Dramas, roteiros, ações. ALCEU, [S. l.], v. 21, n. 43, p. 210–227, 2021. DOI: 10.46391/ALCEU.v21.ed43.2021.225. Disponível em: https://revistaalceu.com.puc-rio.br/alceu/article/view/225. Acesso em: 26 abr. 2026.