Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Uriel Nascimento Santos Pinho (Duke University)

Minicurrículo

    Escritor e realizador audiovisual da região amazônica. Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Pará. Mestre em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense. Estudante de doutorado do Department of Romance Studies da Duke University (EUA).

Ficha do Trabalho

Título

    Racialização, crise climática e decolonização: Ecologias quilombolas no cinema amazônico

Seminário

    (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências

Resumo

    Este trabalho pensa o curta-metragem documental amazônico Equidade Racial (2015), integrando racialização, crise ecológica e decolonização como campos inseparáveis. A partir de autores como Denise Ferreira da Silva, Malcolm Ferdinand, Gustavo Furtado, Beatriz do Nascimento, Abdias do Nascimento e Antônio Bispo dos Santos, pensamos como o filme representa identidades quilombolas e relações humanas e não-humanas (especialmente com plantas) como mediadores de resistência e crise na Amazônia.

Resumo expandido

    Este trabalho parte de um arquivo de curtas-metragens documentais exibidos em festivais amazônicos entre 2007 e 2017 para pensar experiências negras na Amazônia. Consideramos que essas experiências foram por muito tempo ignoradas, do ponto de vista histórico (Chambouleyron 2016), e também por repertórios cinematográficos hegemônicos ao longo do século XX, invisibilizando comunidades afrodiaspóricas, particularmente as quilombolas, mesmo que tenham forte presença na região (Belandi 2024). A partir do curta Equidade Racial (2015, dir. Danilo Gustavo), este trabalho busca interferir nessa lacuna, propondo um exercício de leitura analítica capaz de articular racialização, crise climática e decolonização como campos inseparáveis.
    O trabalho se apoia em três movimentos principais. O primeiro é a crítica de Denise Ferreira da Silva às estruturas epistemológicas eurocêntricas de separabilidade, sequencialidade e determinação que sustentam hierarquias coloniais de raça e natureza (Ferreira da Silva 2017), e sua proposta de reimaginar e de-teorizar como parte desta crítica. Dentro deste projeto, está pensar processos coloniais de racialização, como a escravidão, como extração/roubo de valores que são inseparavelmente éticos e materiais/econômicos.
    O segundo é o diagnóstico de Malcolm Ferdinand sobre a fratura entre ecologia e humanidade, e seu método de pensar através de imagens e figurações (como o navio negreiro ou a arca de Noé) como instrumentos analíticos para a compreensão da crise ecológica e colonial (Ferdinand 2022). A partir dessas referências, o trabalho pergunta: quais imagens Equidade Racial oferece para pensar as crises ecológicas da Amazônia em seus próprios termos visuais?
    O terceiro movimento é metodológico. Inspirado no trabalho histórico de Ayasha Guerin sobre populações negras e indígenas na costa de Nova York e as redes humanas e não-humanas envolvidas tanto em práticas extrativistas quanto em formas de resistência ao trabalho compulsório no século XIX (Guerin 2019), perguntamos: quais os principais seres humanos e não humanos retratados no filme? O filme diagnostica alguma “crise climatica” ou problema ecológico? O filme propõe alguma solução para esses problemas ou crises? Já a partir da noção de “máquinas do visível” de Jean-Louis Comolli, tal como mobilizada por Gustavo Furtado em sua análise do documentário brasileiro (Furtado 2019), o trabalho propõe abordar o filme a partir das mediações sociais e institucionais que constroem o visível para além da câmera e da tela. Isso inclui as definições jurídicas brasileiras de quilombo, em particular o Decreto 4.887/2003, seus critérios de autoatribuição, incluindo o papel do processo de reconhecimento pela Fundação Cultural Palmares e a possibilidade de utilizar filmes neste processo.
    Um dos movimentos deste trabalho também é aproximar a leitura do filme de produções intelectuais que pensam o quilombo no Brasil, mobilizando as obras de Beatriz do Nascimento, Abdias do Nascimento e Antônio Bispo dos Santos como interlocutores da análise.
    Entre os resultados dessa leitura, destaca-se que Equidade Racial não representa a crise ecológica como ruptura ou evento singular, mas como um processo antigo e contínuo de sedimentação de violências. O filme evidencia a presença estratégica de plantas (mandioca, paricá, babaçu) como seres não-humanos que funcionam como marcadores de identidade quilombola do território. A educação formal e a pedagogia emergem igualmente como mediadores importantes das identidades quilombolas, com uma relevância material que merece aprofundamento. O trabalho aponta ainda para dimensões que permanecem por desenvolver, como as relacionadas a produção e financiamento do filme: de que modo o financiamento do filme por um dos maiores bancos da América Latina pode se relacionar com o que (e como) vemos na tela, particularmente em relação ao conceito valor de Ferreira da Silva.

Bibliografia

    Belandi, Caio. 2024. “2022 Census”
    Bispo, Antônio Bispo dos. 2015. COLONIZAÇÃO, QUILOMBOS modos e significados. Brasília
    Chambouleyron, Rafael. 2016. “Indian Freedom and Indian Slavery in the Portuguese Amazon (1640–1755).” In Building the Atlantic Empires
    Danilo Gustavo Asp, dir. 2015. Equidade Racial. https://www.youtube.com/watch?v=2DhL5ZGx-Ks.
    Ferdinand, Malcom. 2022. Decolonial Ecology. Polity Press.
    Ferreira da Silva, Denise. 2017. “Unpayable Debt: Reading Scenes of Value against the Arrow of Time.” In The Documenta 14 Reader. New York: Prestel Publishing
    Furtado, Gustavo Procopio. 2019. Documentary Filmmaking in Contemporary Brazil. Oxford University Press
    Guerin, Ayasha. 2019. “Underground and at Sea: Oysters and Black Marine Entanglements in New York’s Zone-A.” Shima: The International Journal of Research into Island Cultures 13 (2).
    Nascimento, Abdias. 2020. O quilombismo. Editora Perspectiva S/A.
    Nascimento, Beatriz. 2021. Uma história feita por mãos negras. Companhia das L