Ficha do Proponente
Proponente
- LORENNA COSTA MONTENEGRO (UAM)
Minicurrículo
- Crítica de cinema, curadora, programadora, roteirista e professora na FAM e AIC-SP. Integra o Coletivo Elviras, a ABRA Roteiristas, a Abraccine, e o +Mulheres. Filiada ao FORCINE e a SOCINE, é bacharel em Jornalismo, cursou Produção Audiovisual na PUCRS e tem especialização em Cinema e Linguagem Audiovisual na Estácio de Sá. Mestranda no Programa de Pós Graduação em Comunicação Audiovisual (PPGCOM) na Anhembi Morumbi. Concebeu e coordenou, entre 2020 e 2024, o Festival As Amazonas do Cinema.
Ficha do Trabalho
Título
- As Documentaristas da Pan Amazônia: diálogos de cinema feminista entre Edna Castro e Marta Rodríguez
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Buscando investigar as práticas documentais das cineastas pan amazônicas Edna Castro (brasileira) e Marta Rodríguez (colombiana), partindo do conceito do cinema de mulheres em consonância com os postulados do Nuevo Cine Latinoamericano, propondo aproximações metodológicas nos processos de criação dos filmes realizados entre 1962 e 2006; em direções solo ou em parcerias, como a de Marta com seu esposo, Jorge Silva e de Edna com a também documentarista Simone Raskin e a produtora Zita Carvalhosa.
Resumo expandido
- Fonte imaginária do paraíso perdido a Amazônia constitui-se, até hoje, em privilégio para o exercício do audiovisual pois é a natureza que invade o olhar, um mundo encantado e encantatório… E também, território fértil para a constituição de um movimento de cinema das Amazônias que é internacional, sul americano, latino americano e pan amazônico, tendo a conexão com a floresta e suas populações tradicionais por meio da prática documental como o cerne da produção de encruzas, de fronteiras e de autoria feminina. Os filmes das cineastas Edna Castro (paraense, 65 anos) e Marta Rodríguez (colombiana, 91 anos) ao curso de 40 anos são o objeto da pesquisa, que, nessa apresentação, trará um recorte historiográfico dimensionando a influência do pensamento filosófico e ativista presente no movimento do Nuevo Cine Latino Americano – corrente de pensamento e realização cinematográfica popular nas décadas de 50 e 60 no continente Sul Americano e na América Central, além de Cuba – nas obras do cinema de mulheres da dupla de documentaristas pan amazônicas.
Na introdução, o legado da pioneira do continente, a venezuelana Margot Benacerraf, uma síntese analítica da sua filmografia que contempla duas obras – Reverón (1952) e Araya (1959) e considerações sobre a sua influência e importância nas obras de Rodríguez, em parceria com Jorge Silva, e de Edna Castro. Os filmes que movem a investigação sobre os métodos de criação e os processos de produção são: Chircales (Marta Rodríguez, 1962 – 1972; co dirigido por Jorge Silva), Marias da Castanha (Edna Castro, 1985; co dirigido por Simone Raskin), Amor, mujeres y flores (Marta Rodríguez, 1988; co dirigido por Jorge Silva), Fronteira Carajás (Edna Castro, 1992) e Soraia amor no es olvido (Marta Rodríguez, 2006).
Nos anos 60, muitos direitos foram conquistados após reiteradas lutas das mulheres, por meio da Segunda Onda Feminista – movimento insurgente nessa década e que perduraria até os anos 80. Se as mulheres passariam a partir de então a se questionar sobre O Que É Ser Mulher e obter algumas respostas a partir dessa aferição, às cineastas mulheres coube o importante papel de refletir e provocar a mudança de paradigma sobre como a mulher era representada no cinema e em especial, propor filmes experimentais na linguagem, indo de encontro ao cinema canônico e também endereçando nos temas, questões sobre a condição feminina – e em especial sobre o trabalho, sendo ele remunerado ou estratificado no ambiente doméstico e familiar. O documentário vai ser a forma de investigar assuntos e produzir um cinema engajado, que rompe com o cânone e com um pensamento burguês e colonizado, parafraseando o cineasta argentino Pino Solanas que se incomodava com os poderes instalados, acríticos, tanto no cinema como na política. Em seus dois manifestos fílmicos (La Revolución Justicialista e Actualización Doctrinaria para la Toma del Poder) a contribuição para o debate sobre o caráter desumanizante da globalização e a afirmação de que outro mundo – com justiça social – é possível.
A ferramenta que permite constatar que Castro e Rodríguez fizeram obras que confrontavam o status quo, assinalando por meio das suas personagens camponesas, operárias ou indígenas que às mulheres cabia a liberdade da opressão de uma sociedade misógina, é o Contra Cinema Feminista, o Cinema de Mulheres – a corrente de pensamento crítico de cinema iniciada por Claire Johnston e aperfeiçoada por Patricia White e Patricia Torres San Martin. Pontes invisíveis conectam seus filmes, como o modo de produzi-los, as escolhas temáticas envolvendo a vida das mulheres e de famílias e uma abordagem feminista desses assuntos.
Este estudo surge da necessidade de conectar os estudos feministas do cinema com os estudos sobre cinematografias amazônicas (expandindo e abrangendo o território pan amazônico) para pensar sob uma ótica decolonial e revolucionária o fazer cinematográfico, fortalecendo a obra de duas documentaristas que merecem maior reconhecimento.
Bibliografia
- AVELLAR, JOSÉ CARLOS. A Ponte Clandestina: Teorias de Cinema na América Latina. EDUSP/Editora 34, 1995.
COSTA, Selda Vale da. Eldorado das Ilusões: Cinema e Sociedade (Manaus, 1897 – 1935). Editora da Universidade do Amazonas, 1996.
BUARQUE DE HOLANDA, Heloísa. Quase Catálogo1. Rio de Janeiro, 1989. (periódico)
HOLANDA, Karla. CAVALCANTI TEDESCO, Marina (org.) Feminino e Plural: Mulheres no Cinema Brasileiro. Papirus Editora, 2017 (1ª edição)
LAURETIS, Teresa de. A tecnologia do gênero. In: HOLLANDA, Heloisa (Org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
MULVEY, LAURA. Prazer Visual e Cinema Narrativo. In: XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do Cinema (antologia). Editora Graal, 1983.
WHITE, PATRICIA. Women ‘s Cinema, World Cinema Projecting Contemporary Feminisms. Duke University Press, 2015.
STOCO, SÁVIO LUIS; MONTEIRO, LÚCIA RAMOS. Dossiê Cinemas Amazônicos em Tempos de Luta, 2022. Disponível em https://periodicos.uff.br/cibe